Trabalhador vota em trabalhador?!

A primeira eleição que participei foi a de 1982. Foi a primeira após a reforma partidária de 1979, que abriu a possibilidade para a criação de novos partidos, mas mantinha os partidos comunistas na ilegalidade. O PCB, PCdoB, MR-8 e outras organizações vinculadas à tradição marxista, atuavam no interior do MDB (depois PMDB). Foi a primeira participação do PT no processo eleitoral com candidaturas próprias e independentes, sob o lema Trabalho, Terra e Liberdade! A jovem militância – uma geração sem experiência política partidária anterior ao PT – se lançou com entusiasmo na campanha eleitoral. Essa esperança foi frustrada nos anos posteriores e a estrela vermelha pouco a pouco perdeu o seu brilho

Desde 1967 que não havia não havia eleição direta para governador! No Estado de São Paulo, o PT lançou as candidaturas de Lula (Governador), Hélio Bicudo (vice-governador), Jacó Bittar (Senador) e Lélia Abramo (suplente de senador) O número da candidatura Lula era o 3. Então, orgulhosamente, afirmávamos: “Vote no três porque o resto é burguês”. “Trabalhador vota em trabalhador” e “Vote no Lula, um brasileiro igualzinho a você” eram outros slogans de campanha que bradávamos contra os nossos adversários, inclusive os camaradas que ousavam não “oPTar”. E, claro, esperávamos convencer os trabalhadores.

Os resultados eleitorais foram frustrantes. Ao que parece, os trabalhadores não se espelharam na imagem do Lula, “um brasileiro igualzinho a você”. O Lula precisou mudar sua aparência e o discurso para ser aceito. O Lula Presidente, eleito em 2002, é muito diferente do Lula de 1982 – em todos os sentidos –, bem como o PT. Durante muitos anos, ao contrário do que esperávamos, os trabalhadores votavam nos outros candidatos – uma parcela deles aceitou o slogan, mas não a maioria.

Em 1994 e 1998, FHC foi vitorioso nas eleições presidenciais. Lógico, os trabalhadores também votaram nele. Ninguém se elege presidente – ou qualquer outro cargo público – apenas com os votos dos ricos. Não é possível aprofundar esta análise, mas um olhar sobre a história política do Brasil mostra que os trabalhadores, em geral, agem eleitoralmente de maneira conservadora. Racionalmente avaliam o que ganham e o que perdem em cada opção. O discurso de Lula em 1982 não os convenceu, muito pelo contrário.

Da mesma forma, a história tem mostrado que a retórica revolucionária dos partidos que se consideram à esquerda do PT convencem apenas a militância e a minoria eleitoral em torno do 1%. A cada eleição, salvo exceções que confirmam a regra, a votação desses partidos tem sido pífia. Por que será? Se expressam os interesses da classe trabalhadora por que não convencem-na? Claro, há o poder econômico, o tempo exíguo na TV, a manipulação da mídia e etc. Mas será que estes argumentos são suficientes? Seja como for, reproduzem os slogans de 30 anos atrás.

Se o eleitor se recusa a aceitar os slogans reciclados, deve ser respeitado. Até porque, votar na minoria que se considera revolucionária tem o mesmo efeito prático da anulação consciente do voto. Ninguém deixa de ser trabalhador pelo simples fato de não embarcar na canoa da pregação revolucionária. Há quem pense que só é possível adquirir o status de revolucionário com a adesão à sua organização. Nisto, repete o stalinismo!

A história mostra que ao vanguardismo sucede o substitucionismo, ou seja, o partido que arvora ser a vanguarda da classe termina por tomar o lugar desta. Começa por afirmar a missão da classe trabalhadora e termina por agir como seu porta-voz. O vanguardismo tende a nutrir o espírito de seita, a se imaginar arrogantemente como portador da utopia, ainda que esta se revele autoritária.

8 comentários sobre “Trabalhador vota em trabalhador?!

  1. Ah, os paradoxos do vanguardismo!… São constantes os riscos de descompassos entre partidos de massa e ‘anseios de massa’. Aliás, esta é difícil de ponderar: há sempre o risco de se impor para esta uma agenda de futuro construída por uma intelligentsia de classe média. Vivemos num mundo de intensa divisão do trabalho e de complexidade multifacética da vida social e institucional, que valoriza o individualismo de pessoa e bens (com o direito à propriedade sobrepondo-se ao direito à sobrevivência) e o recolhimento na vida privada como condições de realização da plenitude existencial, cujo corolário institucional é a delegação da responsabilidade da coisa pública a “peritos”, ou seja, representantes que tomam a ‘condição de representante’ como carreira. Estes são os dilemas da representação da ‘res publica’ nos sistemas constitucionais parlamentares contemporâneos, já apontados por Benjamin Constant. A vanguarda revolucionária é somente uma das possíveis manifestações do paradoxo negativo de tornar o “representante de massa” uma “carreira” que se torna autorreferida em sua necessidade de reprodução enquanto ‘carreira’.
    A vanguarda é necessária e vital, assim penso, quando não se torna ‘carreira’, quando realiza o seu papel intrínseco de tornar-se desnecessária e, portanto, possibilitar a maioridade das ‘massas’. O paradoxo positivo da existência da vanguarda deveria ser este: promover as vias para deixar de ser necessária. Afinal, quando a vanguarda começa a durar muito ou se torna um sistema autorreferido é sinal de que fracassou em seu alegado papel, deixando a ‘massa’ em eterna menoridade. Embora eu não tenha ainda vivenciado uma existência histórica real de vanguarda positivamente paradoxal, observei a expressão estética deste anseio no filme “Encouraçado Potemkin” (http://espacoacademico.wordpress.com/2012/10/03/eisenstein-e-o-cinema-sovietico-iii/), de Sergei Eisenstein.

  2. Sei lá…..
    dizem do sistema capitalista que é perverso, e eu concordo com isso. Mas a perversao é uma condicao humana. E o que o ser humano perverteu? Acho que foi a própria natureza, por isso nao estamos mais a merce dos elementos. Desconheco qualquer tipo de sistema político ou economico que nao esteja atravessado pela perversao, nao perceber issso é desconsiderar a dialética.

  3. A nossa sociedade não conseguiu ainda amadurecer o suficiente para entender a responsabilidade de eleger alguém com caminhos ideológicos que agregue a valorização do trabalhador! infelizmente é quase que continuo você se deparar com pessoas ,que depois de adquirir a suposta estabilidade, não reconhece mais as lutas dos trabalhadores e o que é pior,jugam-se diferenciados e abandonam as lutas, quando não se jugam em classes diferenciadas!

  4. temos que levar em conta que os PARTIDOS DE ESQUERDA ou REVOLUCIONARIOS… seus dirigentes sao muitos TEORICOS… estao afastados das BASES SOCIAS (bairros perifericos… favelas… cortiços… morros etc… locais nao habitados por esses DIRIGENTES)… pois justamente este locais a MIDIA faz o que faz… temos que ser um pouco mais coerente com nossas postura esquerdistas… tanto JESUS(historico) ou mesmo MARX… esteve presente neste subterraneo SOCIAL…

  5. Antonio
    Bom dia

    Fascinante tua memória. Também participei dos dilemas entre o “voto inútil” e o “trabalhador vota em trabalhador”. Não tenho precisos os resultados eleitorais de 1982 no RS, mas tenho a convicção que serviram para redobrar os esforços na construção “da nova proposta”, calcada na ética, na transparência, na inversão de prioridades, no “orçamento participativo”, na geração de emprego e renda, na aplicação dos recursos públicos prioritariamente em saúde e educação, e na esfera local dizíamos constantemente que a precedência era também a aplicação de recursos nos bairros e Vilas mais carentes deixando de gastar nos Bairros de Classe A. Na esteira, a luz dessas idéias conquistamos: os principais DCE(s) e Grêmios Estudantis do RS, a Direção da UEE/RS (milhares de estudantes participavam do Movimento Estudantil, culminando em Congressos massivos); de centenas de Sindicatos de Trabalhadores – onde os interventores foram ‘varridos’ não só das entidades mas das categorias; construímos a “Central” independente dos patrões com propostas objetivas de rompimento com o nazi-fascismo, leia-se corporativismo, constando de muitos documentos o compromisso de extinguir o famigerado “Imposto Sindical” sem esperar por leis da União; no campo o enfrentamento ao latifúndio sobremodo nos anos 80, passou a ser notícia recorrente e de capa em todos os diários de circulação estadual. Fomos oxigenados para luta das diretas em 1984, com centenas de ações, deixando marca indelével de nosso compromisso com a democracia. Nas eleições de 86 e 88 elegemos “representantes” nos legislativos (sobeja minoria), aos quais caberia a ingrata tarefa de fiscalizar e tornar públicas as ações das Câmaras, da AL e sobremodo dos ocupantes de cargos no Poder Executivo. Teríamos postura, combativa, mas ao mesmo tempo propositiva em defesa dos pobres e excluídos. No que foi possível, dado a blindagem dos MCS, a forte e histórica organização das “forças vivas”, ao grave problema do desemprego, rompemos muitas barreiras, mantendo sintonia com as demandas populares, suas organizações, iniciamos a construção de alianças com os que saíram da clandestinidade somente em 1985. Nesse rol de conquistas importante citarmos (lembrarmos) a conquista no voto da Prefeitura da Capital, onde se pode (se passa a) espraiar a idéia do OP, sempre tendo um referencial prático. O debate encarniçado sobre a Constituição que queríamos e a que foi possível elaborar, eletrizou o debate interno e público. No chão da fábrica quase que diariamente polemizávamos sobre o assunto, no intervalo do almoço havia dentro da empresa farta distribuição de materiais, formação de debates ao natural incluindo inclusive os lacaios e puxa-sacos dos empreendedores (uma das bandeiras era a luta por 40 horas semanais, hoje (2012) esquecida. Raro era o dia em que uma emissora de rádio local deixava de realizar um debate, onde sempre estávamos convidados e a pauta sobre a nova Carta Magna, necessariamente inclinava-se para o debate intransigente e controverso. Os resultados (nem sempre satisfatórios) vinham com greves, negociações, comissões, assembléias feitas nas ruas e em portas de fábrica, mas antes da Constituição muitas categorias no RS estavam trabalhando menos de 48 horas semanais. Desde 1990 os Servidores/as da Prefeitura de Caxias do Sul, tem jornada máxima de 40 horas. Nem tudo eram rosas, havia talvez mais espinhos, nunca se escondeu a dúvida de qual era efetivamente nosso projeto, qual era efetivamente nossa proposta de Estado, de socialismo (e qual socialismo) ou social-democracia. Há também a dúvida (na verdade são muitas e muitas também as interpretações) se fomos vencidos externamente pelo neoliberalismo, ou por nossas dissensões internas. Observo somente que no “poder” o discurso paulatinamente começou a mudar, não era mais bandeira insofismável do fim da Contribuição Sindical, a categoria deveria optar entre ter (presevar) o Serviço Ambulatorial no Sindicato e aí abrir mão da devolução do “Imposto”. Os choques entre os liberados e os não-liberados eram constantes, sobretudo nos critérios utilizados, afinal o mandato era do “partido” ou do eleito? As minorias também haviam contribuído, com dinheiro, com votos, com materiais, com campanhas, com gasolina, com carros, só que na hora de opinar eram vencidas pela democracia da maioria. O entrismo também toma corpo, militantes oriundos de outras vertentes são convidados, sem se considerar sua trajetória, principalmente de apoio recente as duas décadas de regime de exceção. A opção preferencial pelo voto rumo ao poder de Estado, deixando de lado a participação radical nos Movimentos Sociais, nos parece à pá de cal que faltava. Em 1995 retiro minha filiação, estupidamente ainda participo por mais dois anos, das ações partidárias, rumo à conquista da Prefeitura local. Nossa estultice e soberba não permitiram vislumbrar “os novos tempos” e os novos ajustes. A partir de 1997 decido de forma unilateral e individual a não mais votar. Voto nulo, não quero mais ser anulado. Lamento amargurado ter me deixado usar, ver os movimentos a deriva, os sindicatos presos a burocracia estatal, o trabalho escravo proliferar, milhões de crianças sem creche, sem escola e, sobretudo tendo que trabalhar. As Professoras, ao menos no RS, sem sequer o Piso Nacional. A destruição da natureza prosseguir a passos largos, enredando os povos da floresta e os povos paleoameríndios na sendo dos genocídios. Nem por isso perdi a convicção de que temos de prosseguir lutando contra todas as formas de exploração.
    Pedro
    Caxias do Sul, 07 de outubro de 2012.

    • Bom dia, Pedro!
      E, que seus dias continuem renovando e aprimorando em seu estado de espírito patriótico a sua consciência ética e moral.
      Parece que hoje, não se consegue mais repetir a frase que encorajou muitos e muitos no nosso país: “A luta continua companheiros”. Pelo contrário ela deixa a boca amarga e o coração verde e amarelo manchado de vermelho, como que tivesse sido violentado com permissão do dono sedento de igualdade social.
      Mas, a vivência é válida e traz experiência à vontade de renovar, na busca verdadeiramente honesta do bem estar coletivo. Mesmo que solitária, agora a sensação do dever cumprido com maior lucidez e convicção diz que, não é em vão a luta pela libertação do “humano” no próprio homem, em sua esperança natural de seres iguais em direitos e deveres.
      Parabéns pela sua intenção de prosseguir na luta pela igualdade de todos nós!
      Um abraço fraterno,
      Marisa.

  6. Os partidos de esquerda, no Brasil ou em qualquer recanto do mundo, sempre tiveram como desafio essa grande equação política: como obter êxito eleitoral, ampliando sua base de apoio eleitoral na sociedade sem, no entanto, ao ampliar tais bases, terminar se afastando dos princípios que os caracterizam como partidos de esquerda? Tal equação, no Brasil, está longe de ser resolvida,vez que o Partido dos Trabalhadores foi invadido por idéias e práticas que em nada se assemelham àquelas defendidas no nascedouro. O PT, que parecia despontar como o caminho político para uma nova correlação de forças entre o capital e o trabalho e, assim, ser um exemplo para todo o mundo, acabou sendo seduzido e cooptado pelo conservadorismo político e temo que já não representa uma ameaça ao grande capital. Ao contrário, ao protegê-lo – e o exemplo mais acintoso disso é a forma pela qual o setor financeiro no país corre “leve e solto”, faturando lucros que são um verdadeiro deboche aos trabalhadores – parece que se afasta cada dia mais dos princípios que um dia o levaram a utilizar a “liberdade, a terra e o trabalho” como suas grandes bandeiras. Duvido que os limites de nossa liberdade não estejam fixados até o momento em que possa ameaçar “o status quo” do grande capital; a terra continua nas mãos de poucos e o trabalho – ah…. o trabalho! – este se mantém, como sempre, na condição de mero instrumento para proporcionar um acúmulo cada vez maior de capital!

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