A rosa como metáfora do amor!

No jardim da casa onde moro há roseiras! As rosas são de uma beleza extasiante, especialmente as vermelhas. Rosas vermelhas me fazem lembrar de Rosa Luxemburgo, a vermelha. Li suas cartas e descobri uma personalidade sensível, amante da natureza e atenta aos detalhes mais singelos da vida. [1]

Nestes dias, acompanhei o desabrochar das rosas, o crescimento, o desbotamento e o desaparecimento. Murchas, são levadas pelo vento a chuva. Finda assim o espetáculo da natureza. No entanto, outros brotos nascerão, outra vez as rosas desabrocharão e se mostrarão em sua singela beleza. Ainda que cortem a roseira, desde que não a arranquem da terra que a nutre, a rosa nascerá novamente.

Fiquei a admirar a vida sintetizada no brotar e mirrar das rosas e um pensamento se apoderou de mim: Assim também é o amor!. Como a roseira, ele precisa de cuidados! Sem a seiva que o alimenta e o revigora, perece. Como a roseira, o amor tem espinhos que ferem e faz sangrar. Os espinhos são inerentes à natureza da roseira, apesar da beleza das rosas. Se o amor é belo como elas, há também espinhos que causam ferimentos e dores dilacerantes. Pois o sofrer e a capacidade de causar sofrimento faz parte do amar.

Não obstante, amar é uma experiência indescritível. O amor é “algo em si mais importante e sagrado do que o objeto que o inspira. E isso porque ele permite ver o mundo como um cintilante conto de fadas, porque faz aflorar o que há de mais nobre e mais belo no ser humano, porque eleva o que há de mais comum e insignificante e o craveja de brilhantes e porque possibilita viver em embriaguez e êxtase”, escreveu Rosa Luxemburgo. [2] Como a roseira, se cuidarmos para que não faltem os ingredientes necessários à sua existência e não nos esquecermos de tomar os devidos cuidados para não nos ferirmos com os espinhos, o amor subsiste e resiste às intempéries da vida.

Como as rosas que desabrocham para perecer e renascer, assim é o amor. Ao seu desabrochar segue-se o tempo da paixão extasiante; como as rosas, pode murchar e se extinguir aos poucos até que restem apenas as lembranças e o sentimento armazenados na alma. A rosa, ainda que não a vejamos, está presente na própria existência da roseira. À semelhança da rosa que ainda não brotou, o amor parece inerte e morto. Olhamos a roseira e não vemos a rosa, mas ela existe em potência no vir-a-ser. E quando ela desabrocha em toda a sua beleza exuberante, é como se estivesse ali o tempo todo. Metaforicamente, mesmo quando o amor parece extinto, ele subsiste no ser vivo que, como a roseira, cultiva-o em si, nos sentimentos, na memória e razão.

Se cultivarmos a roseira com carinho, ela continuará a gerar rosas que embelezam e alegram o nosso viver. O ser humano precisa ser tratado com o mesmo carinho, o amor precisa ser cultivado. Então, mesmo quando pareça inexistente, desabrochará novamente. Pois, ainda que adquira outras formas, que se manifeste em outras condições e tome outras direções, o amor resiste ao tempo e permanece no ser que ama. As rosas nascem, perecem e são substituídas por outras produzidas pela mesma roseira. A roseira não tem memória nem sentimentos, ela apenas reproduz o ciclo da vida. Se ela pudesse lembrar e sentir, as rosas que no passado desabrocharam e se extinguiram estariam presentes nela. Como a roseira, geramos diversas experiências de amar, amores que jamais esquecemos.

Há uma maneira de impedir que a rosa desabroche: arrancar a roseira do solo que a nutre. Quanto ao amor, ele só se extingue definitivamente quando o corpo que ama, inerte e sem vida, é lançado ao solo ou transformado em cinzas. Ainda assim, o amor sobrevive nas lembranças do ser amado. É da natureza da roseira gerar rosas; amar é intrínseco ao humano!

A rosa é a metáfora do amor!


[1] Sugiro a leitura de “As cartas de Rosa Luxemburgo”, publicado em 11.08.2012.

[2] Carta a Sofhie Liebknecht, [Breslau] 24 de novembro de 1917. In: Rosa Luxemburgo – Cartas – Vol. III. Organização de Isabel Loureiro. São Paulo: Editora da UNESP, 2011, p. 321.

6 comentários sobre “A rosa como metáfora do amor!

  1. A sensibilidade do seu olhar sobre a vida e os sentimentos tocam e nos recordam Vandré: “As flores no chão, a certeza na frente, a história na mão, caminhando e cantando e seguindo a canção, aprendendo e ensinando uma nova lição…” como fotografando, compartilhando poesias…”
    Escreva mais, muito mais!!!

  2. Frente a tanta sensibilidade e destreza com palavras e imagens, que sustentam adequadamente os motivos e temas, só posso saldar Ozaí com palmas, que são como o beijo das mãos de Julieta e Romeu – palm to palm -, pois, como as rosas aqui evocadas, em nossa língua, palma também é planta, como rosa é cor, pessoa e botânica. E a palma cresce entre o agreste e a exuberância, tal como as ideias de nosso Ozaí.
    Abs e tudo de bom

  3. Professor, muito obrigada por me enviar esse texto, pois creio que, leituras como essa revigora minha alma. Revitaliza minhas energias para sensibilizar minhas observações e ao mesmo tempo não permitir que me desvie de lutar na busca de caminhos “melhores” para a educação, educação com justiça, educaçaõ com amor, educação sem “amarras”. Enfim, sem enumerar tantas outras, somente agradeço pelo texto de ânimo.

    Tenha um ótimo dia.

    IRIS CRISTINA BARBOSA CHERUBINI

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