Aprendendo a viver!

As Epistulae Morales ad Lucilium (Cartas Morais a Lucílio), foram escritas por Lucius Anneus Seneca, filósofo estóico romano, entre os anos 63 e 64 d.C. Uma seleção destas epístolas foram publicadas sob o título “Aprendendo a viver”. [1] A edição brasileira passa a impressão de literatura de auto-ajuda, talvez propositadamente por uma questão de marketing e de mercado. Talvez seja má interpretação deste leitor. De qualquer forma, as cartas que o filósofo Sêneca escreve ao amigo Lucílio constituem, nas palavras de Regina Schöpke, “um verdadeiro manual prático do estoicismo, uma de “curso de sabedoria aplicada” com o objetivo de realizar uma verdadeira “cura moral”.[2]

As cartas estão longe das discussões filosóficas empoladas, abstratas e metafísicas, tão ao gosto dos pseudo-filósofos que passam o precioso tempo da vida no mundo das ideias e transformam a Filosofia em território de especialistas com linguagem e atitude empolada. Sêneca aproxima-se da realidade cotidiana e dos dilemas da condição humana que afetam os homens e mulheres comuns. Sua filosofia é um ensinamento ao viver. Ele trata de temas que permanecem atuais, apesar dos séculos. É incrível como nos tempos modernos, com todas as suas possibilidades, potencialidades e riscos, não nos diferenciamos substancialmente dos homens e mulheres da época de Sêneca, os quais se defrontavam com questões como a solidão, a velhice, a morte, o suicídio, o luto, a brevidade da vida, a qualidade de vida, a relação humana com a natureza, os modos de enfrentar as adversidades, a fugacidade da fortuna, o cuidado com a saúde e a paz da alma. Suas palavras superam as barreiras do tempo, da história e cultura, e nos tornam seus interlocutores. Pois é da condição humana que se trata.

A leitura das Cartas a Lucilio nos leva a pensar o quanto nos afastamos dos preceitos que poderiam tornar a vida melhor, mais suportável e feliz. O estilo de vida do homem e mulher modernos nos faz questionar a racionalidade da qual tanto nos orgulhamos e que nos faz imaginar que somos superiores. Nos consideramos seres racionais, mas agimos como “escravos do ventre”, ingerimos mais do que natureza aconselha. Num mundo em que humanos morrem de subnutrição, a obesidade, as doenças coronárias e tantas outras que afetam órgãos do corpo humano, como o rim e a vesícula, são os efeitos colaterais da má e excessiva alimentação. “Não é a fome do nosso ventre que nos custa caro, mas a nossa ostentação”, afirma Sêneca. Como “glutões ostensivos” [3], sucumbimos à gula, aos prazeres da carne e, assim, arruinamos a nossa vida, comprometemos a nossa velhice.

Não cuidamos do corpo nem do tempo que nos é permitido viver. Sêneca aconselha a Lucílio: “Apodera-te novamente de ti mesmo, e o tempo, que até agora te era arrebatado, subtraído ou simplesmente te escapava, recupera-o e conserva-o”.[4] Talvez nos ocupemos demais com o supérfluo, com a mesquinhez do cotidiano, dos pequenos poderes que nos aprisionam em suas malhas, com o que nada acrescenta e os míseros prazeres que se revelam engodo. Na época da internet talvez percamos tempo demais em atividades que não são essenciais ao bem viver. Não terá razão Sêneca ao nos aconselhar a tomar o tempo em nossas mãos? Em saber usá-lo? “Abarca todas as horas”, diz o filósofo. “Dependerás menos do amanhã, se fizeres hoje o que tem que ser feito. Enquanto postergamos, a vida não deixa de correr. Todas as coisas, Lucílio, nos são alheia, só o tempo é nosso”. [5] Mas, na sociedade moderna, a maioria não tem o controle do tempo, ele não nos pertence. Estamos sob o signo da necessidade, escravos das exigências burocráticas, profissionais e de sobrevivência. As palavras do filósofo permanecem atuais.


[1] SÊNECA. Aprendendo a viver. São Paulo: Martins Fontes, 2008.

[2] Idem, p. VIII.

[3] Idem, p. 41.

[4] Idem, p. 3.

[5] Idem.

7 comentários sobre “Aprendendo a viver!

  1. Somos pessoas num corpo que se ressente do dolo autoimposto; uma “alma que se condensa na experiência do corpo” (Otton Bellucco). A forma como condensamos a mente no corpo diz muito sobre o que somos para nós mesmos e para outrem. Não há mente sem corpo, mas há carreiras sem almas, se nos deixamos levar pela vaidade douta que nada acolhe, que não é generosa e posterga o corpo… Este, revoltoso, responde com uma “pedra”, no rim ou na vesícula ou outra surpresa, para nos lembrar da sabedoria da finitude e, assim, forçados a olhar para nós mesmos, possamos ter a justa medida do que estamos efetivamente legando ao mundo… Enfim, excessos e carências são pares conceituais antitéticos na gramática, mas, na vida cotidiana, são aliados simétricos na forma como provocam dor e morte anônimos, embora não da mesma forma, enquanto animosamente temos pressa… Dor e morte deveriam nos ensinar a viver melhor com nossos semelhantes, definindo o que é efetivamente relevante ao nos forçar defrontar com nossa finitude…

  2. Não me considero um iniciado em Sêneca, mas tenho alguns colegas que se dedicam a estudar este oportuno filósofo. No mundo do detele, dos descartes e dos relacionamentos frouxos, Sêneca nos convida a retornar à lucidez… Valeu Antonio.

  3. Meu caro Ozai. Bem vindo à sabedoria de Sêneca. Espero que sua leitura esteja se despreendendo da forte influência dos autores essencialmente políticos de nossa época para os autores clássico dedicados a SABEDORIA: Sêneca, Cícero (que tb escreveu sobre como SABER ENVELHECER e sobre A AMIZADE), Epicuro, Aristóteles, Platão, Sócrates. Espero retorno da sua leitura, neste blog, sobre “A amizade e os filósofos” de Baldini, e “A amizade” de Alberoni.
    Há um livro recentemente publicado do filósofo francês, Luc Ferry, cujo título também é “Aprendendo a viver”. Gosto do modo de filosofar do Luc Ferry, mas não conseguir avançar na leitura deste livro, que é best seller em França. Gostei muito do Pequeno Tratado das Grandes Virtudes, entre outros, de Andre Comte-Sponville, que também se dedica ao tema da SABEDORIA.
    Em minhas aulas com o pessoal da “terceira idade” (Unati/ UEM) conversamos sobre estas coisas sem muito valor para a juventude de hoje – e de sempre – e, infelizmente, sem muito valor para aqueles que querem pensar “grande”. Porque pensar sobre este assunto (aprender a viver, aprender a envelhecer, revalorizar a amizade num mundo cada vez mais de solitários e pseudo-autistas), convenhamos, meu caro Ozai, é considerado “bobabem” ou assunto “pequeno-burguês”. Santa ignorância para os que acham que somente devemos pensar “grande”: os “revolucionários do macro”. Outro grupo que tb despreza esse pensar “pequeno” são os que vivem “escravos” da comida, da luxúria, do materialimo-consumista, etc. Seu texto bem aponta os “escravos do ventre”. Não precisamos ser estóicos como Sêneca, nem tão céticos como Círeros, mas sim, podemo fazer esforço para aproximarmos da SABEDORIA PRÁTICA no ato de comer, comprar bugigangas eletrônicas, usar internet, servir a universidade, educar filhos e alunos, relacionar com colegas, amigos e autoridades, enfim, VIVER com prudência e bom senso….Então, Ozai, PARABENIZO VOCE pela INICIATIVA de ler um clássico como Sêneca, que tem cara de auto-ajuda. Só cara. Que tal agora ler “Saber envelhecer” e “A amizade” de Cícero? A editora L&PM publicou um volume, pochet, baratinho, mas posso emprestar o meu de cabeceira. Eis minha missão na terra…Abração. Do Raymundo.

  4. Antonio
    Bom dia
    Legal que desentranhastes este filosofo. Tem perto de 30 anos que não tinha mais contato. Lembro de ter lido, além de Annaeus, algo de Marco Túlio e também de Marco Pórcio, todas (as leituras) sob o ponto de vista histórico. Vem a lume a oportunidade agora de efetuar a leitura de suas obras, obvio se encontrar (aquisição). Quanto à atualidade do parecer de Lucius, observo que o conhecimento da humanidade desde longa data é profundo (talvez sempre tenha sido), porém, não socializado. Temos no Brasil, inclusive para “exportar”, Mestres e Doutores que se equiparam ou superam os melhores das melhores Universidades de qualquer lugar do Planeta e ao mesmo tempo vivemos o paradoxo do analfabetismo e do “desinteresse” pelos estudos. Milhões deixam rapidamente os bancos escolares públicos, por terem de ganhar a vida, formando exércitos de mão-de-obra barata e geralmente pouco qualificada. Ouvi falar, não partilhei, que na Escola Pública, já tivemos grego e latim, além do francês e conseqüente estudo de filosofia, sociologia, história, geografia entre outras disciplinas. Sou pela formação técnica – profissional -, porém sem descurar as outras ciências, sobremodo as “humanas”, se é assim que ainda se chama (denomina) este segmento do conhecimento. O Estado e os governantes de plantão para frustração nossa, se omitem de capacitar seus cidadãos, pelo visto leram os autores latinos, porém com “sapiência”, para governar dividem.
    Cordialmente
    Pedro
    Caxias do Sul, 04 de novembro de 2011.

  5. Fascinante esta afirmaçao, que talvez valesse a pena desenvolver:
    “Todas as coisas, Lucílio, nos são alheias, só o tempo é nosso”.

  6. As reflexões de Sêneca nos remete a um paradoxo da existência, uma vez que vivemos na busca constante pela satisfação dos prazeres e de nossos desejos individuais. Todavia, quando buscamos a satisfação plena desses instintos somos levados a deterioração do corpo, da moral e da própria existência individual, já que o abuso desses desejos podem representar o fim ou o encurtamento da própria vivência.
    Contudo, podemos nos apropriar das reflexões do pensador e aliarmos com a ideia de equilíbrio para a busca da satisfação e da felicidades como nos ensina Aristóteles. Desse modo, a satisfação parcial dos prazeres nos permite o prolongamento dessas sensações, e logo a extensão desse bom viver, tão conclamado pela modernidade, que ao passo que nos sugere a qualidade de vida nos tolhe desse privilégio.

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