Sobre a velhice

“…carrego dentro de mim o que me mata. Falta-me tempo para as frivolidades, tenho nas mãos uma imensa tarefa. Como a realizarei? Vejo que a morte se apressa e a vida foge. Diante dessas duas pressões, ensina-me algum expediente! Faze com que eu não fuja da morte e que a vida não me escape. Exorta-me com relação ao que é difícil; dá-me longevidade contra aquilo que é inevitável. Vem alargar meu tempo, que é tão curto. Ensina-me que a boa vida não se mede pela duração mas como a empregamos. Acontece muitas vezes que uma longa vida não é realmente vivida”. (Sêneca) [1]

 

O jovem almeja viver muito, mas dificilmente se imagina idoso. A juventude parece-lhe eterna e raramente verá no velho diante de si o espelho que reflete a sua imagem futura – isto se tiver a sorte, ou azar, de viver muito, pois a ninguém é garantido atingir a velhice. Os jovens, em geral, sentem-se imortais, a morte parecem-lhes mais apropriada aos que chegaram à terceira idade – recusam-se a pensar na morte e nisto são acompanhados por muitos idosos iludidos com a seqüência do passar dos dias. Alguns até desdenham dos mais velhos – talvez, inconscientemente, seja uma reação de auto-proteção e de recusa do futuro que se anuncia. “Um jovem”, escreve Ernst Bloch, “pode imaginar-se como homem, mas dificilmente como idoso: a manhã aponta para o meio dia, não para a noite. Em si é estranho que o envelhecimento, na medida em que se refere à perda da condição anterior com ou sem razão sentida como mais bela, só comece a ser percebido por volta dos 50anos. Não haveria perda para o jovem que deixa para trás a criança? E não haveria uma perda para o homem quando deixa a florescência da juventude, quando o impulso se atrofia?” [2]

O cinquentenário parece anunciar o movimento de descida. Agora, a vida desce ladeira abaixo. Há o risco de deprimir-se diante da certeza de que a vida esvaece-se a cada dia e a morte parece mais próxima. O otimista reage fazendo de conta que a vida não passou, iludindo-se com o apego à juventude. O dito de que permanecemos jovens em espírito é um engodo. Não há como negar que o tempo passou, as marcas na face, as doenças que irrompem, as dores no corpo, a perda da vitalidade, etc., demonstram-no. “O tempo passa com uma infinita velocidade, e só percebemos bem se olharmos para trás; o passado escapa aos que se absorvem no presente, tal o modo pelo qual essa fuga ocorre sutilmente”, afirma Sêneca. [3]

Não é preciso enganar-se, fazer de conta de que o tempo não passou, nem cair em depressão diante das dificuldades que o avançar da idade impõe. Basta encarar com naturalidade. Começamos a morrer tão logo nascemos, é a dialética da vida. Os jovens não estão isentos do sofrimento e as dores do tempo não são exclusividade dos idosos. “Mas incomoda”, dizes, “ter a morte em vida.” Em primeiro lugar, ela está sempre presente, quer para o velho ou para o jovem – e não se trata aqui de consenso surgido de uma votação. Depois, ninguém é tão velho que não possa reivindicar para si mais um dia. Um dia é um degrau na vida”. [4]

O mais importante na vida não é a longevidade, mas o viver bem. Chegar à velhice não significa necessariamente ter vivido mais, pois aquele que a morte abraçou em tenra idade viveu bem se intensamente. “Que importa, afinal de contas, sair antes ou mais tarde de onde se deve mesmo sair? O essencial não é viver por muito tempo, mas viver plenamente”. Pois, de que adianta ao homem, “oitenta anos passados sem ter feito nada? Ele não morreu tarde, mas ficou morrendo por longo tempo. Viveu oitenta anos, mas viveu mesmo? Importa saber a partir de quando se conta sua morte?” [5]

A medida da vida está em olhar para si mesmo e contabilizar não o tempo, mas as ações e as relações humanas construídas. Se olharmos para trás e sentirmos que valeu a pena viver, então a vida foi plena. Por que, então, temer a velhice? A morte não escolhe idade, por que temê-la? “É um homem muito feliz e com plena posse de si mesmo o que espera o amanhã sem inquietude. Todo o que diz “já vivi” recebe cotidianamente mais um dia como lucro”. [6] O amanhã não nos pertence! Portanto, encaremos com alegria ter vivido o que nos foi permitido. Ainda que o tempo imprima marcas indeléveis no corpo e alma que chega aos 50 anos de existência, nos alegremos por cada dia acrescentado ao viver. Afinal, a velhice tem as suas vantagens!


[1] SÊNECA. Aprendendo a viver. São Paulo: Martins Fontes, 2008, p. 35-36.

[2] BLOCH, Ernst. O Princípio da Esperança I. Rio de Janeiro: EdUERJ: Contraponto, 2005, p. 43.

[3] SÊNECA. Aprendendo a viver. São Paulo: Martins Fontes, 2008, p. 34.

[4] Idem, p. 10.

[5] Idem, p. 91-92.

[6] Idem, p. 11.

28 comentários sobre “Sobre a velhice

  1. Para quem tem mais de 65 anos

    Ivone Boechat (autora)

    1 – Tome posse da maturidade. A longevidade é uma bênção! Comemore! Ser maduro é um privilégio; é a última etapa da sua vida e se você acha que não soube viver as outras, não perca tempo, viva muito bem esta. Não fique falando toda hora: “estou velho”. Velho é coisa enguiçada. Idade não é pretexto para ninguém ficar velho. Engane a você mesmo sobre a sua idade, porque os psicólogos dizem que se vive de acordo com a idade declarada!

    2 – Perdoe a você antes de perdoar os outros. Se você falhou, pediu perdão? Deus já o perdoou e não se lembra mais. Mas você fica remoendo o passado… Não se importe com o julgamento dos outros. Só há dois times no Universo: o do Salvador e o do acusador. Neste último você sabe quem é goleiro. Continue no time do Salvador.

    3 – Viva com inteligência todo o seu tempo. Viva a sua vida, não a do seu marido, dos filhos, dos netos, dos parentes, dos vizinhos… Nem viva só pra eles, viva pra você também. Isto se chama amor próprio, aquilo que você sacrificou sempre! Nunca viva em função dos outros. Faça o seu projeto de vida!

    4 – Coma muito menos; durma o suficiente; não fique o dia inteiro, dormindo, dando desculpa de velhice. Tenha disciplina. Fale com muita sabedoria. Discipline sua voz: nem metálica, nem baixinha; seja agradável!

    5 – Poupe seus familiares e amigos das memórias do passado. Valorize o que foi bom. Experiências caóticas, traumas, fobias, neuroses, devem ser tratadas com o psicoterapeuta. Não transforme poltrona em divã, ouvido em descarga.

    6 – Não aborreça ninguém com o relatório das suas viagens. Elas são interessantes só pra quem viaja. Ninguém aguenta ouvir os relatórios e ver fotografias horas e horas. Comente apenas o destino e a duração da viagem, se alguém perguntar. Aprenda a fazer uma síntese de tudo, a não ser que seus amigos peçam mais detalhes. Se alguém perguntar mais alguma coisa, seja breve.

    7 – Escolha bons médicos. Não se automedique. Não há nada mais irritante do que um idoso metido a receitar remédio pra tudo o que o outro sente. Faça uma faxina na sua farmácia doméstica.

    8 – Não arrisque cirurgias plásticas rejuvenescedoras. Elas têm prazo curto de duração. A chance de você ficar mais feio é altíssima e a de ficar mais jovem é fugaz. Faça exercícios faciais. Socorra os músculos da sua face. Tome no mínimo oito copos de água por dia e o sol da manhã é indispensável. O crime não compensa, mas o creme compensa!

    9 – Use seu dinheiro com critério. Gaste em coisas importantes e evite economizar tanto com você. Tudo o que se economizar com você será para quem? No dia em que você morrer, vai ser uma feira de Caruaru na sua casa. Vão carregar tudo. Não darão valor a nada daquilo que você valorizou tanto: enfeites, penduricalhos, livros antigos, roupas usadas, bijuterias cafonas, ouro velho… prataria preta, troféus encardidos, placas de homenagens. Por que não doar as roupas, abrir um brechó ou vender todas as suas bugigangas, apurar um bom dinheiro e viajar?

    10 – A maturidade não lhe dá o direito de ser mal educado. Nada de encher o prato na casa dos outros ou no self-service (com os outros pagando); falar de boca cheia, ou palitar os dentes na mesa de refeições (insuportável).

    11 – Só masque chiclete sem testemunhas. Não corra o risco de acharem que você já está ruminando ou falando sozinho.

    12 – Aposentadoria não significa ociosidade. Você deve arranjar alguma ocupação interessante e que lhe dê prazer. Trabalhar traz muitas vantagens para a saúde mental, além do dinheiro extra para gastar, também com você.

    13 – Cuidado com a nostalgia e o otimismo. Pessoas amargas e tristes são chatíssimas, as alegres demais, também. Elogie os amigos, não fique exigindo explicações de tudo. Amigo é amigo.

    14 – Leia. Ainda há tempo para gostar de aprender. A maturidade pode lhe trazer sabedoria. Coloque-se no grupo sempre pronto para aprender. Não se apresente em lugar nenhum dizendo: sou muito experiente!

    15 – Não acredite nas pessoas que dizem que não tem nada demais o idoso usar roupas de jovens, cuidado. Vista-se bem, mas com discrição. Cuidado com a maquiagem, se for pesada, você vai ficar horrível.

    16 – Seja avó do seus netos, não a mãe nem a babá. Por isso nem pense em educá-los ou comprometer todo o seu tempo com as tarefas chatas de ir buscar na escola, levar a festinhas, natação, inglês, vôlei… Só nas emergências. Cuidado com aquela disponibilidade que torna os outros irresponsáveis.

    17 – Se alguém perguntar como vão seus netos, não precisa contar tuuuuuuuudo! Evite discorrer sobre a beleza rara e a inteligência excepcional deles. Cuidado com a idolatria de neto e o abandono dos filhos casados…

    18 – Não seja uma sogra chata. Nunca peça relatório de nada. Seu filho tem a família dele. Você agora é parente! Nunca, nunca, nunca mesmo, visite seus filhos sem que seja convidado. Se o filho ligar pra você, não diga: ah! lembrou finalmente da sua mãe? É melhor dizer: Deus o abençoe meu filho.

    19 – Cuidado em atender ao telefone: se a pessoa perguntar como você vai e você responder “estou levando a vida como Deus quer”; “a vida é dura”; “estou preparando a partida”; “estou vencendo a dureza”; você vai ver que as ligações dos amigos e dos parentes vão rarear, cada vez mais.

    20 – A maturidade é o auge da vida, porque você tem idade, juízo, experiência, tempo e capacidade para se relacionar melhor com as pessoas. Então delete do seu computador mental o vírus da inveja, do orgulho, da vaidade, promiscuidades, cobranças, coisas pequenas e frustrantes para tomar posse de tudo o que você sempre sonhou: a felicidade.

    Extraído do livro Educação-a força mágica de Ivone Boechat

  2. Caro Ozai. Parabéns pelo belo texto. Como já passei, há tempo, dos 50, posso afirmar que voce está absolutamente correto com respeito ao tempo de vida que projetamos. Estou convencido que o importante é ter projetos de vida que nos animem a lutar por causas nas quais acreditamos nos diferentes momentos que nos é dado viver.Abraço grande.Walter Garcia.

    • Caro Walter,

      boa tarde.
      Meu sincero muito obrigado por ler e comentar.
      Sim, ter o que acreditar e algo que dê sentido ao viver é muito importante.
      Obrigado por compartilhar sua experiência de vida.

      Abraços e ótimo final de semana,

  3. Amigo Ozaí,
    Se eu pudesse escolher como envelhecer, envelheceria como um vinho. Eu gostaria de ser guardada por um bom tempo num lugar escuro e sem perturbações. Ali, eu esconderia as minhas preciosidades históricas que foram vividas no passado, lembranças dos tempos mais felizes da minha vida. Este seria um lugar solitário, silencioso e introspectivo. Iluminado por poucas penumbras repentinas que refletiria à minha porta de entrada, os momentos de um clarão passageiro. Esses seriam as retomadas de desespero, a ânsia por reviver os tempos idos. Seria uma eterna saudade dos anos longínquos, no qual eu sentiria aos poucos, que o meu rótulo deixaria de apresentar o colorido do passado e a jovialidade vibrante do início da minha concepção.

    Eu me tornaria um vinho de guarda… Que em constante evolução, se transformaria dia a dia, num processo de lenta mudança de cores e aromas, perceptíveis somente quando eu fosse aberta novamente. Aprisionada e enclausurada, eu ficaria ali escondida, mas não esquecida. O acesso até a mim seria por meio de escadas que conduziria o outro ao meu recinto fechado, numa temperatura constante, sem oscilações de calor, onde o tempo parece ter parado. Ao olhar para os detalhes da minha inscrição, o outro me reconheceria e saberia os segredos do meu passado remoto, marcas do tempo – o meu verdadeiro código de barras!

    Só apreciaria a minha valiosa velhice, o amante de um bom vinho. Envelhecer assim é privilégio de poucos. A adega é o recôndito da minha alma. Lugar onde guardo comigo os prazeres da vida, onde vivo e revivo, desfaço dos meus embaraços. Este é o lugar para os fortes, os que são “escolhidos” e sobreviverão ao tempo. Envelhecer assim é guardar para sempre o que há de melhor em nós. Quem desfrutará conosco da nossa velhice? Somente aqueles que reconhecem, apreciam, guardam e almejam no futuro, degustar do bom vinho!

    • Cara Iolanda,

      boa tarde.
      Muito obrigado por ler e comentar o texto.
      Suas palavras expressam uma metáfora bela e instigante. Espero, sinceramente, que possa degustar o vinho em companhia que saiba apreciá-lo. Quanto a mim, perdi as ilusões com o futuro. A vida me ensinou que o futuro nada mais é do que o que fazemos a cada momento no presente. Pois, se o amanhã depende das decisões e atitudes que tomamos hoje, e assim construímos o “futuro”, este amanhã não nos pertence. Portanto, o “futuro” é uma quimera da nossa imaginação – embora necessária à nossa sobrevivência. Muitas vezes é impossível ou muito doloroso suportar o presente; então, projetar o futuro é um lenitivo.

      Obrigado.
      Abraços e ótimo final de semana,

  4. Completar quarenta se sentindo com 29 anos foi um baque difícil de assimilar. Sem noção, diriam os que não conviveram um tempo em que era comum morrer já velho, aos quarenta. Cuja tristeza, felizmente não se repetiu aos cinquenta e aos sessenta. Se nós é que nos perpetuamos, continuemos fazendo parte desse plano evolutivo enquanto pudermos coexistir e zelar dos que estão em seus passos iniciais.

  5. Parabéns pelo artigo e obrigada por essa magnifica reflexao de Sêneca – uma das coisas que a gente imagina erradamente que é velha e chata, sao esses magnificos classicos que renovam a nossa expressao e nossa compreensao.
    Quanto ao envelhecimento, é tudo uma questao de ponto de vista: quando eu tinha quinze anos, o maximo que admitia como tempo de vida que se podia decentemente admitir era trinta anos.
    Hoje, acho que os seus cinquenta sao uma plena floraçao da maturidade…
    e, afinal, qualquer idade sera uma etapa catalogada da vida quando vista de fora. quando vista de dentro, nos so podemos nos referir ao nosso caminhar no tempo. e este, nao tem fim, nenhuma placa à vista indicando que ficaremos por aqui ou se ainda temos muito chao para percorrer.

    • Cara Regina,

      boa tarde.
      Meu sincero muito obrigado por ler e comentar o texto.
      Gostaria de concordar que o envelhecimento é “uma questão de ponto de vista”. Infelizmente, para muitos é uma fase muito dolorosa e, sendo bem sincero, sob determinadas circunstância é preferível a morte.

      Abraços e ótimo final de semana,

      • Boa tarde
        Concordo com o António. Tenho sessenta anos e estou deprimida, queria poder dizer que a velhice e uma fase boa, mas acho que realmente é muito dolorosa e triste.
        Abraço

  6. A velhice traz conceitos depreciativos e ao mesmo tempo aqueles que a enaltecem.
    Talvez os primeiros sejam a realidade incontestável e, os demais, uma forma de compensar o avanço no tempo.
    Na verdade o tempo é inexorável, inevitável, implacável, irreversível. Quanto mais avançamos na idade mais somos vítimas da sua ação devastadora e, conosco, seres humanos, o tempo é ainda impiedoso e cruel.
    A velhice, que se traduz por um lado como aquisição de experiência, maturidade, avanço da inteligência, conhecimento, certezas, convicções, discernimentos, escolhas, posições, coragem, desafios, maior domínio das nossas emoções e controle do comportamento, capacidade, eficiência…, por outro lado acarreta perda de forças, desânimo, indisposições, rugas, pele seca, osteoporose, reumatismos, artrites, tendinites, insuficiência renal, deficiência hormonal, menopausa, andropausa, teimosia, esquecimento, Parkinson, Alzheimer, solidão, abandono, dores, muitas dores, perda de entes queridos, saudades, despedidas da vida e, desta forma, nós vamos nos deteriorando, definhando…
    Haja vista o tempo ser indomável e infinitamente mais forte que qualquer ser existente – o tempo, por acaso é Deus? -, mesmo que tentássemos nos aliar a ele conforme diz a estratégia, de pouco adiantaria porque as pessoas morrem, envelhecem, mas ele sobrevive e, escancaradamente, proclama-se Senhor do Destino e da Vida do indefeso ser humano (o mote de algumas religiões que prometem a vida eterna não estaria justamente nesta questão que o tempo é absoluto e até mesmo o Deus não pode impedi-lo? Não quero ser herege, longe disso, mas não consta na Bíblia ou qualquer outro livro de importância religiosa que Deus tenha feito parar o tempo alguma vez, ao contrário, criou a tudo e a todos no tempo de seis dias e no sétimo, descansou).
    Na razão direta que o tempo passa para todos, muitos na velhice não estão preparados para enfrentá-lo. Muito mais complicado elaborar proteção para aqueles que estão despojados de suas defesas naturais (saúde) ou sem reservas econômicas (casa, emprego, estudos), condições, enfim, confiscadas pelas circunstâncias ou desatinos pessoais – ah, se a juventude soubesse, se a velhice pudesse!
    Estando o ser humano desprotegido para enfrentar o seu ocaso, o homem se vê à mercê dos acontecimentos que o tempo irá lhe proporcionar (doenças e dificuldades) e ocasionar (desilusão, desencanto, menos tempo de vida).
    Mensurar este prejuízo físico e mental que o tempo nos cobra é impossível (e ainda dizem que existe o inferno?!).
    Dimensionar a extensão das frustrações, fobias, neuroses, em decorrência, seria mera especulação.
    Tentar se estabelecer uma justificativa para este tempo que conduziu o ser humano para um tipo de existência moldada pela adversidade econômica, social, mental e cultural ou uma dessas ou todas juntas, seria o mesmo que definir a dor, todos os tipos de dor, e o que é o tempo, todos os exemplos de ganho e perda de tempo.
    Tenho curiosidade em saber sobre qual seria a definição de velhice pelo morador de rua, do empresário, do padre, rabino, pastor, pai de santo, monge. Do desempregado, do político, dos que residem em asilos. Os que moram em casas ou apartamentos alugados, dos motoristas em suas várias funções. Como o turista definiria a velhice? Os que foram abandonados à própria sorte? De que forma seria o conceito de velhice de uma jovem e linda mulher? De um homem idoso? De um jogador de futebol? Pessoas que um dia se darão conta de estar velhos, e como irão reagir?
    Quando penso a respeito, lembro um passado que eu poderia ter sido diferente e, assim, ter sido melhor, que eu reunia condições de realizar mais, mas não consegui!
    Ao me ver com sessenta e três anos, verifico estar deficiente em vários aspectos: por não ter ido melhor no passado não pude construir as bases necessárias que me suportariam na velhice, agora é tarde!
    Uma profunda nostalgia me invade o coração, combalido de saudades, tristezas, decepções, incapacidade, remorsos…
    Se pudermos ainda refletir sobre as eras da convivência humana, certamente afirmaríamos que a infância é estarmos com a família, unidos, protegidos; a maturidade é a amizade, o convívio social, mas, a velhice, ela se torna antissocial, isolamento, asilos, esquecimento, falta de companhia…
    O tempo também não permite retornos na vida, este verdugo insensível!
    Não me resta outra alternativa a não ser pensar:
    Nós existimos no tempo ou é o tempo que existe em nós?
    Oscar Wilde dizia que, “a tragédia da velhice consiste não no fato de sermos velhos, mas sim no fato de ainda nos sentirmos jovens”.

    • Caro Francisco,

      boa tarde.
      Muito obrigado por ler e comentar. São tantas veredas abertas pelas reflexões que vc posta neste blog, que me sinto incapaz de encontrar o caminho. De qualquer forma, considero como uma contribuição fundamental ao autor e leitores do blog.

      Abraços e ótima semana,

  7. Antonio
    Bom dia

    A chegada à melhor idade é um desafio permanente, ao menos no Brasil. Os números da mortalidade infantil, ainda são irregulares, ou seja, abrangem os vários Brasis, com situações extremas. Umas melhores que os primeiros mundos, outras “pelhores” que os empiores mundos, com isso ceifando vidas e conseqüentemente impedindo que seres humanos vivam o que uma vida regular poderia ofertar. Sobreviver, na infância, puberdade, vida adulta, meia idade, seja qual for o momento, também é um desafio, uma luta árdua e cotidiana, inclusive para os ricos, com um trânsito assassino, com a insegurança pública, com os vícios, com o consumismo, com a política voltada ao ter e não ao ser, com a destruição da natureza, com as precárias condições de trabalho, etc. Nesse particular, Brasil, mesmo a lei do mais forte (seleção natural) sobrevive. Pessoas idosas sempre existiram, não são um fato novo e também não é um fato novo que o Estado, pouco ou nada faz por Elas, seja no Brasil, seja no Primeiro Mundo, que esta a beira do abismo e covardemente através de seus governantes culpa a pseudo-política do bem estar social como responsável pelas dificuldades econômicas, esquecendo os “trampos” dos banqueiros e do armamentismo. O fato de estarmos nos tornando longevos socialmente precisa ser pensado de forma equilibrada e global. Não é um problema, nós termos mais anos de vida, é um desafio que precisa ser visto de frente, tanto no plano individual quanto no coletivo. A grande maioria é perfeitamente capaz e lúcida até o seu clímax. Que número significativo de idosos necessita de amparo de toda ordem é fato concreto e objetivo, porém o mesmo sempre existiu como existe para as outras faixas etárias. O problema todo está na inclusão social do ser humano, abarcado aqui o direito a vida e o respeito aos outros seres vivos, independente de sexo, cor, idade, religião, etc.
    Pedro
    Caxias do Sul, 25 de novembro de 2012.

    • Pedro,

      boa tarde.
      Muito obrigado.

      Sim, concordo plenamente: a velhice é uma questão social e política. É claro que a qualidade de vida influi e esta depende do acesso a recursos nem sempre disponibilizados pelo Estado. Outro dia, por exemplo, vi uma reportagem sobre “creche para idosos”. Nestes espaços o idoso tem tudo à sua disposição para ter uma vida com qualidade. O “detalhe” é o valor. Pouquíssimos tem condições de custear algo do tipo.

      Abraços e tudo de bom,

  8. Com licença, Prof. Ozai, posso copiar e repassar ? Seu texto é o máximo! Obrigada, Vera Linden.

  9. Cada dia aprecio mais a idade que tenho. Quanto mais os anos passam mais gosto do que vivo. Discordo da Eva. Acho as mulheres de cabelos brancos ou grisalhos muito lindas e elegantes. Temos uma mulher fantástica em nossa família, que é mais charmosa ainda com seus cabelos cor de prata. Eva querida (permita-me chamá-la assim, pois é dito com sinceridade), creio que tudo depende da postura da mulher de cabelos brancos ou não. A nossa “lady” tem uma presença forte, embora não seja intrometida ou agressiva. Ela chega e conquista, principalmente com o seu belo sorriso. Ela tem certeza de quem é. Seu nome é Jane Rodrigues Rios, advogada, criadora de uma Ong, mulher com todas as letras maiúsculas.É mãe de Marianne, minha amada norinha, esposa do meu filho Gustavo. Seu projeto voluntário e fraterno, cria bibliotecas em periferias e faz as crianças e o povo todo ler. Não é do que mais precisamos em nosso país ? Que o povo leia e aprenda a pensar? Não acredito que as pessoas vejam através de você. Pelo que escreveu, nota-se que é inteligente e culta. Sou uma professora aposentada e voluntária em Ongs e Escolas Públicas para o reforço escolar de crianças, jovens e adultos, nas seguintes matérias: Portugues, Espanhol, Inglês, Literatura e História. Também trabalho com crianças disléxicas,e já tive maravilhosas vitórias. Me entendo bem com essas crianças, pois também sou disléxica, fato que escondi e do qual tive vergonha por muitos anos. Foi uma menininha de nove anos que me curou dessa bobagem de complexo de inferioridade. A vida é generosa, a gente que algumas vezes é arrogante e fica cega para a sabedoria, que tantas vezes emana das pessoas mais simples. Minha maior ambição é ser útil até a hora da minha próxima viagem. Estamos aqui nesta nave Terra a rodar pelo universo, o que mais vale é investir no amor às pessoas. Chamo as minhas alunas e alunos de todas as idades de “minhas vitaminas.” Eles me reenergizam. Não gosto de remédios, me perdoem os laboratórios e médicos. Gosto de amar as pessoas, os animais e as plantas. A boa vontade e a compaixão vencem através da doçura. Parece ingênuo e bobinho? Até pode ser, mas já ganhei algumas “causas” com essa maneira maluquinha de ser. A mulher precisa se aceitar e se valorizar mais. Trabalhei por vinte anos em trabalhos eminentemente masculinos. Sempre fui apoiada e aceita por meus colegas homens. Nunca fui discriminada. Meu princípio era respeitá-los muito. Sem concorrência desleal. Nunca usei o fato de ser mulher para levar vantagem sobre os colegas homens em relação a diretores, supervisores ou chefes, que vinham com segundas intenções. Saia de banda e elegantemente, me fazia de desentendida.
    EVA, gostei do que escreveu e certamente há muitas pessoas que a admiram muito. Já notei que não se cultiva mais a amabilidade, a boa educação e agentileza. Tudo é rapidez, agressividade e competição desmedida. Muitas vezes, faço os meus discursos até no trem ou no ônibus e com bom-humor e delicadeza, peço:” Vamos nos humanizar, até os animais ditos irracionais se respeitam mais do que nós.” É lindo o que escreveu sobre a sua netinha. Ainda não sou avó. Deve ser uma experiência fantástica. Abraço fraterno à Eva, prof. Ozai e a todas as pessoas que visitam este excelente espaço. Saúde e bênçãos. Vera.

  10. Belo texto, Ozai. Gostei ! voce faz umas reflexoes profundas e muito certas. Mas sabe que, para as mulheres, a velhice vem acompanhada de uma certa transparencia. Explico. Desde que cheguei a “uma certa idade,” tenho percebido que as pessoas olham atraves de mim; nao me veem, nem me ouvem. O mesmo acontece com outras mulheres da minha idade com quem convivo. A maioria delas sao mulheres que trabalham, dirigem, sao esteio de familia, etc. Mas mesmo assim, quando aparecemos “em pessoa,” as pessoas nos ignoram.

    Nossa sociedade acha que homens de cabelos brancos sao “distintos,” e que este sinal traz ate’ certa autoridade, e inclusive “beleza.” Mas as mulheres de cabelos brancos sao no minimo “velhas.” E’ comum recebemos uma certa ironia, desprezo, descaso, ate’ das mulheres mais jovens. Isto talvez porque a mulher “velha,” na nossa sociedade, so’ tem autoridade dentro da familia, como avo’, participando de uma economia quase folclorica.

    Agora que temos uma mulher presidente, e algumas mulheres estao entrando no mercado de trabalho e chegando ao topo da carreira, talvez as coisas comecem a melhorar. Mas nao ainda pra minha geracao. Teremos o prazer de saber, como as que lutaram pelo voto feminino, como as nossas maes que lutaram para que pudessemos ir a faculdade, que nos demos nossa contribuicao, avancamos a luta ao entrarmos no mercado de trabalho. A geracao seguinte colhera’ os frutos que plantamos, e por sua vez plantarao outros, e assim por diante.

    Quanto a morte, quem sabe? Quanto mais eu vivo, mais chego a conclusao de viver pra sempre jovem e’ morrer jovem. Quem se lembra de James Dean velho? ou de Elis Regina velha? Cada um morreu na flor da idade, em plena beleza e juventudo. Serao jovens eternamente. Entao, acho legal ficar velha, ver o mundo mudando, minha netinha chegando para trazer sua luz pra ir iluminando mais um tanto do caminho.

    • Eva,

      boa tarde.
      Obrigado por ler e comentar.
      Vivemos numa sociedade machista que valoriza alguns aspectos quando se trata do masculino e desvaloriza as mulheres. Mas não são todos que tem este olhar preconceituoso. A Vera comentou sobre os cabelos brancos e deu exemplo. Concordo! Admiro as mulheres que assumem e conservam a cor natural. Talvez para fugir do preconceito, ou quem sabe uma certa vaidade, muitas pintam o cabelo. Compreendo! As vezes aparentar o que não somos é o caminho mais fácil!

      Assim caminha a humanidade, mas ainda bem que há avanços. As novas gerações nos superam e hoje a intolerância, o sexismo e os preconceitos perdem terreno, ainda que sobrevivam em mentes retrógradas e apegadas ao passado.

      Também acho legal envelhecer. Na minha atividade, a velhice é como um prêmio, pois sinto que fico melhor a cada ano. Por outro lado, o passar do tempo também me mostra o quão pouco sei. Por mais que leio, escrevo, aprendo, mas percebo o quanto é pouco diante da infinitude do saber. Mas pelo menos o passar do tempo nos oferece a oportunidade de aprendermos mais. Quão chata seria a vida se abdicássemos do aprender! Mas espero ficar velho com auto-controle e autonomia, do contrário prefiro a morte.

      Parabéns pela netinha. Espero viver esta experiência!

      Muito obrigado.
      Abraços e ótima semana,

  11. Como diria o personagem Palomar, de Italo Calvino, somo feitos do que vivermos e da forma como o vivemos. Se pensamos ser a vida feita de sofrimento, seremos feitos de sofrimentos. No entanto, a vida é múltipla, tal como o corpo e a mente que se redescobre a cada etapa no amadurecimento. Se viermos para acrescentar ao mundo, à medida que reconfiguramos nossos corpos e mentes na relação dialética configurativa com o mundo, envelhecer é decair para cima.
    Abs, Ozaí.
    Alexander

    • Caro Alexander,

      boa tarde.
      Gostei da referência ao personagem de Italo Calvino. Por favor, qual é a obra? Sim, a vida é múltipla e repleta de oportunidades recompensadoras. É dolorido ver os que vestem a pele de eternas vítimas, sempre mergulhadas em sofrimentos que se tornam uma espécie de “sentido da vida”. O sofrer é da condição humana, mas esta não se reduz a este aspecto.

      Muito obrigado.
      Abraços e ótima semana,

      • Caro Ozaí,
        Saudações cordiais!
        O livro intitula-se “Palomar”. O personagem descreve situações ordinárias de seu cotidiano com densidade filosófica. Pode servir como boa via de motivação temáticas nas nossas aulas, estimulando nossos alunos a olhar a vida com mais densidade, sensibilidade e conhecimento. Abs e parabéns.

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