A perda do amigo!

Nos últimos anos, ele sempre esteve presente. Nos momentos mais felizes, nos mais tristes, ele estava aqui e perto de mim. Quando os ventos tempestuosos do mar da vida ameaçaram me lançar no abismo, sua presença me acalentava. Com ele, superei turbilhões e atravessei caminhos que beiravam precipícios. Sua amizade era incondicional, era-lhe suficiente a minha presença. Agora, o olhar percorre os espaços, sinto a presença, mas não o vejo. Cada detalhe me faz lembrá-lo e o trás a mim, mas na ausência que não se materializa. O ser imaginado ocupa o lugar do real. Esta ausência-presença se traduz em lembranças e sentimentos, talvez um lenitivo diante da certeza da perda!

Saudade! Mas a saudade não é a ausência amparada nas memórias de um passado remoto. O saudosista lança-se nas brumas de um tempo que não existe mais. Vive no passado, sente saudades do que já passou e o passar do tempo transformou em lembranças. Quem vive no passado, desconecta-se do presente e esteriliza a imaginação sobre o futuro. Como afirma Paulinho da Viola:“Eu costumo dizer que o meu tempo é hoje. Eu não vivo no passado, o passado vive em mim”.[1] A saudade é presença presente!

Alvorece, os raios do sol irrompem pelas frestas da janela do quarto, os pássaros cantam em alvoroço e parecem anunciar boas novas. Acordo, meu primeiro pensamento repousa em ti. Abro os olhos e procuro em vão. Não estás ao alcance do meu olhar. Fecho os olhos e tua imagem resplandece em minha mente. Então, embora ausente, sinto tua presença. Em silêncio pronuncio o teu nome!

Ando pelas ruas à tua procura. À distância o olhar revela a tua presença e o meu ser exulta diante do possível reencontro, mas a proximidade demonstra a verdade. Ilusão de ótica, mas as vezes precisamos nos iludir. É uma forma de alento que nutre a esperança! Retorno e os meus sentidos novamente teimam em nutrir o sonho de te encontrar. Imagino-te em casa, à minha espera e em festejo à minha chegada, numa demonstração de alegria e carinho sem igual. A realidade da tua ausência anula a minha imaginação. Por onde andas? Por que não tenho notícias? Sinto-me triste e desolado, começo a pensar que nunca mais te verei. Conforta-me as lembranças, imagens de saudade vivas em mim. Tua amizade se faz presente e fortalece. Sigo adiante!

As vezes penso que seria melhor afastar-me de tudo que te trás à minha memória. Parece-me que seria mais fácil. Deveria mudar de cidade, quem sabe viver em outro país. Será que a distância cura a tristeza dilacerante provocada pelo sentimento de perda? Logo me convenço, porém, de que este artifício se revela inútil. Em minhas andanças por outras ruas e avenidas em outras cidades e outros estados, não consigo me desvencilhar da tua presença. Viajas comigo, em mim. É impossível ao viajante extirpar a saudade e eliminar os sentimentos. Ainda que permaneças fisicamente ausente, viverás em mim. Estás presente!

Afirma o dito popular que nada como uma nova paixão para curar a dor da desilusão do amor. A amizade é uma forma de amor. Disseram-me que o melhor é conquistar um novo amigo, que uma nova amizade seria reconfortante e me ajudaria a superar o luto da ausência que se revela desesperança. Fico a pensar se não seria uma forma de te negar e trair a confiança manifestada durante todos estes anos. Por outro lado, uma nova amizade não substitui os amigos que se foram. Além do mais, sinto-me culpado por tua partida. A continuidade da tua presença estava vinculada à minha. Ausentei-me de ti e te perdi. Se puderes compreender, perdoa a minha falha. E ainda que não nos vejamos mais, nossa amizade permanecerá e resistirá ao tempo e aos novos amigos que porventura surjam. Não me esquecerei de ti!


[1] Paulino da Viola – Meu tempo é hoje (Documentário, Brasil, 2003, 83 min. Direção: Izabel Jaguaribe). Disponível em http://www.youtube.com/watch?v=IwWCjaWRZfE

14 comentários sobre “A perda do amigo!

  1. Em certa ocasião me perguntaram o quê eu agradecia a Deus, tendo perdido o pai aos quatro anos, e a partir de então, levado uma vida de pobreza e de muitas dificuldades. Sou mãe, encontrei na vida de meus filhos motivo mais que suficiente para agradecer. Porém, depois de uma fase de auto conhecimento, pude perceber dentro de mim, uma certa mágoa, e também a origem dessa mágoa; eu tinha raiva de Deus. Apesar da prática religiosa vir desde a infãncia, meu pretenso amor a Deus era ainda superficial. Qual era o porquê dessa raiva? A morte do meu pai! Deus era o único culpado! Eu agradecia mais era da boca pra fora! Eu tinha que mudar isso! Então me lembrei do jogo do contente, e comecei a procurar naquela situação de perda e sofrimentos um motivo, pelo menos um motivo para agradecer, e eu encontrei: Deus me deixou viver com meu pai quatro anos, quatro longos anos! OBRIGADA DEUS! POR ME DEIXAR VIVER COM MEU PAI QUATRO LONGOS ANOS! Não existe a morte, dizem os espíritas, e é fácil acreditar neles, mas ninguém quer morrer, ou se ver longe dos que ama. Essa dor da perda é maior para quem vai, portanto o luto nem é nosso. Sofremos mais em pensar que a dor é nossa, não é nossa!. é de quem vai. Dizer que quem se foi está vivo em nós, é a mais pura verdade, mas aumenta nossa responsabilidade, passamos a viver por nós e por eles( os que se foram) também, podemos dar conta?

  2. Caro Ozaí:

    Como você mesmo afirma ,parafraseando Paulinho , ‘o passado vive em mim’, vive em nós. Consterna a mim saber que você está triste. Consterna verificar mais uma vez que a ‘danada’ existe e vem para todos. Mesmo com todas as reflexões sobre a morte , ela é , assim e sempre, inaceitável. Como se tivéssemos que sentir dor, raiva e constrangimento. Mas seu amigo falará com você de outras formas. Não me pergunte como sei, só sei que sei e que experimentei. Inesperadamente. Meu carinho .
    Cida Piola

  3. Que bom saber que no mundo existem pessoas como você. Quero dizer-lhe que estou com você. Queria abraçá-lo e confortá-lo neste momento. Não deixe que a tristeza causada pela saudade apague seu sorriso. Grande abraço.

  4. Meu querido professor: Professor querido que jamais foi “meu” – visto que jamais tive o prazer de conhecê-lo pessoalmente, a não ser através deste aparelho, quando, diante das infinitas dúvidas sobre minha monografia cujo tema “proibido” me colocava no quarto escuro da solidão, você, um desconhecido que me vinha de tão longe, ergueu o braço e me estendeu a mão, ajudando o meu caminhar titubeante. E foi assim que eu pude escrever: com parcos recursos, mas munida das muitas esperanças presenteadas por você.
    Faz muito que não lhe digo “oi”, mas, aqui estou para, mesmo de tão longe, lhe dizer que sinto muito pela sua perda; rogo que o Universo possa, em hábil tempo, restaurar na sua alma as cores com as quais você sempre pintou o mundo: o seu mundo e o daqueles que, com imenso prazer, o acompanham e partilham com você as dores e os prazeres de estar vivo.

    Grande e fraterno abraço.
    Tânia
    (Salvador/BA)

  5. Pai, eu não ia ler porque sabia que me encontraria em lágrimas no final do texto e aqui estou da forma como achava que estaria. Também compartilho do seu sentimento, todas as vezes que vou para casa me vejo a olhar pelas ruas na espera de encontrá-lo e poder levar esta alegria comigo, assim como me vejo desiludida todas as vezes que chego em casa e espero um serzinho sair todo alvoroçado como sempre saia e a ele não sai… a vida é feita de ganhos e perdas, alegrias e tristezas. Cabe a nós viver intensamente cada momento e deixá-lo ir. Também me sinto culpada por este perda, pois, se realmente tivéssemos ficado como anteriormente seria feito, talvez isso não teria acontecido, mas, acho também que um novo amigo faria bem a todos nós! E como diz a Luana: não vale perder as esperanças, mesmo que ela, as vezes, se perca de nós! Te amo.

  6. Desejo a todos que se encontram enlutados neste momento muita paz e força.
    Se me permitem, aproveito para:
    1- Agradecer-lhe pela dica do Paulinho da Viola. Realmente um m belíssimo documentário.
    2- Compartilhar este artigo do Boff na esperança de ajudar de alguma forma:

    CUIDAR DO LUTO E DAS PERDAS

    Leonardo Boff

    Pertencem, inexoravelmente, à condição humana, as perdas e o luto. Todos somos submetidos à férrea lei da entropia: tudo vai lentamente se desgastando; o corpo enfraquece, os anos deixam marcas, as doenças vão nos tirando irrefreavelmente nosso capital vital. Essa é a lei da vida que inclui a morte.

    Mas há também rupturas que quebram esse fluir natural. São as perdas que significam eventos traumáticos como a traição do amigo, a perda do emprego, a perda da pessoa amada pelo divórcio ou pela morte repentina. Surge a tragédia, também parte da vida.

    Representa grande desafio pessoal trabalhar as perdas e alimentar a resiliência, vale dizer, o aprendizado com os choques existenciais e com as crises. Especialmente dolorosa é a vivência do luto, pois mostra todo o peso do Negativo. O luto, possui uma exigência intrínseca: ele cobra ser sofrido, atravessado e, por fim, superado positivamente.

    Há muitos estudos especializados sobre o luto. Segundo o famoso casal alemão Kübler-Ross há vários passos de sua vivência e superação.

    O primeiro é a recusa: face ao fato paralisante, a pessoa, naturalmente, exclama: ”não pode ser”; “é mentira”. Irrompe o choro desconsolado que palavra nenhuma pode sustar.

    O segundo passo é a raiva que se expressa: “por que exatamente comigo? Não é justo o que ocorreu”. É o momento em que a pessoa percebe os limites incontroláveis da vida e reluta em reconhecê-los. Não raro, ela se culpa pela perda, por não ter feito o que devia ou deixado de fazer.

    O terceiro passo se caracteriza pela depressão e pelo vazio existencial. Fechamo-nos em nosso próprio casulo e nos apiedamos de nós mesmos. Resistimos a nos refazer. Aqui todo abraço caloroso e toda palavra de consolação, mesmo soando convencional, ganha um sentido insuspeitado. É o anseio da alma de ouvir que há sentido e que as estrelas-guias apenas se obscureceram e não desapareceram.

    O quarto é o autofortalecimento mediante uma espécie de negociação com a dor da perda: “não posso sucumbir nem afundar totalmente; preciso aguentar esta dilaceração, garantir meu trabalho e cuidar de minha família”. Um ponto de luz se anuncia no meio da noite escura.

    O quinto se apresenta como uma aceitação resignada e serena do fato incontornável. Acabamos por incorporar na trajetória de nossa existência essa ferida que deixa cicatrizes. Ninguém sai do luto como entrou. A pessoa amadurece forçosamente e se dá conta de que toda perda não precisa ser total; ela traz sempre algum ganho existencial.

    O luto significa uma travessia dolorosa. Por isso precisa ser cuidado. Permito-me um exemplo autobiográfico que aclara melhor a necessidade de cuidar do luto. Em 1981 perdi uma irmã com a qual tinha especial afinidade. Era a última das irmãs de 11 irmãos. Como professora, por volta das 10 horas, diante dos alunos, deu um imenso brado e caiu morta. Misteriosamente, aos 33 anos, rompera-se a aorta.

    Todos da família vindos de várias partes do país, ficamos desorientados pelo choque fatal. Choramos copiosas lágrimas. Passamos dois dias vendo fotos e recordando, pesarosos, fatos engraçados da vida da irmãzinha querida. Eles puderam cuidar do luto e da perda. Eu tive que partir logo após para o Chile, onde tinha palestras para frades de todo o Cone Sul. Fui com o coração partido. Cada palestra era um exercício de auto-superação. Do Chile emendei para a Itália onde tinha palestras de renovação da vida religiosa para toda uma congregação.

    A perda da irmã querida me atormentava como um absurdo insuportável. Comecei a desmaiar duas a três vezes ao dia sem uma razão física manifesta. Tive que ser levado ao médico. Contei-lhe o drama que estava passando. Ele logo intuiu e disse: “você não enterrou ainda sua irmã nem guardou o luto necessário; enquanto não a sepultar e cuidar de seu luto, você não melhorará; algo de você morreu com ela e precisa ser ressuscitado”. Cancelei todos os demais programas. No silêncio e na oração cuidei do luto. Na volta, num restaurante, enquanto lembrávamos a irmã querida meu irmão Clodovis e eu escrevemos num guardanapo de papel o que colocamos no santinho de sua memória:

    “Foram trinta e três anos, como os anos da idade de Jesus/Anos de muito trabalho e sofrimento/Mas também de muito fruto/Ela carregava a dor dos outros/Em seu próprio coração, como resgate/Era límpida como a fonte da montanha/Amável e terna como a flor do campo/Teceu, ponto por ponto, e no silêncio/Um brocado precioso/Deixou dois pequenos, robustos e belos/E um marido, cheio de orgulho dela/Feliz você, Cláudia, pois o Senhor voltando/Te encontrou de pé, no trabalho/Lâmpada acesa/Foi então que caíste em seu regaço/Para o abraço infinito da Paz”.

    Entre seus papéis encontramos a frase: ”Há sempre um sentido de Deus em todos os eventos humanos: importa descobri-lo”. Até hoje estamos procurando esse sentido que somente na fé o suspeitamos.

  7. Ninguém descreve sobre a saudade mais que nopssos sentimentos, nossa dor.
    Mas este artigo transfere muita coisa da nossa alma.
    O grande poeta diz: que saudade é como se fosse espinho cheirando a flôr”:

  8. Ozaí, além de filósofo você é poeta. Seu texto é uma mergulho na alma de quem ama. Neste momento estou atravessando ausência/presença de meu grande amor, vitimado pelo alhzeimer. Como caminhar no silêncio, no olhar parado, na sombra de quem foi, mas ficou. Mesmo assim, preciso mais dele do que ele de mim. É apenas um corpo? Afirmo que não é. Talvez eu esteja vivendo a presença ausência de quem está de outra forma em outro lugar comigo.
    Lei seus textos frequentemente e sempre admiro sua capacidade de dizer o pouco dizem…. Um abraço da Nilda

  9. Caro Ozaí,
    Belo texto! Dizem que são os sentimentos fortes, como o amor, a dor, a forte alegria que produzem poesia. Esse texto me faz crer que sim. Temos que nos conformar de que na vida, e a todo tempo, temos ganhos e perdas. Deixar amigos ou ser deixada por eles realmente triste. abraço,

  10. O que transparece é uma bela amizade, e a saudade do amigo chega até nos como uma comovida homenagem àqueles que nos deixam.

  11. Querido Ozaí!!

    “In off” te escrevo.

    Acho que hoje, mais do que ninguém, compartilho de sua dor. Sei EXATAMENTE, do que falas.

    Em 23 de setembro 2012, não tem nem 5 meses, perdi meu companheiro, companheiro de vida e companheiro de todos os momentos, atitudes, lutas e sentimentos. Nunca houve em minha vida sintonia tão grande. Quatro anos de relacinamento, menos de um ano e meio de casamento, e ele se foi num final de tarde de domingo, dormindo…

    Hoje 3 de fevereiro, seu aniversário. Faria 58 anos, e de eevereiro a maio teríamos a mesma idade. Em maio,  eu seria de novo 1 ano mais velha… Detalhes, lembranças de uma etapa de nossas vidas mais que bem vivida. Uma etapa de superação e sucesso…

    “Fecho os olhos e tua imagem resplandece em minha mente. Então, embora ausente, sinto tua presença. Em silêncio pronuncio o teu nome!”

    Já se vão 5 meses, e ele ainda está presente. É real reconfortante, mas o silêncio (a que te referes) por outro lado, é desesperador…

    A vida segue, e eu “vou indo”, completamente sem rumo apenas aguardo. De uma coisa tenho certeza, Raymundo vive em mim, e ele, no tempo certo, vai se manifestar, vai me dar a mão, e vamos – juntos – caminhar.

    Gostaria de agradecer imensamente essa sua postagem, pois que me fez sentir profundamente a dor de minha realidade, uma dor imensa no peito, e finalemente, chorar compulsivamente, coisa que pouco fiz desde então.

    Sei da sua dor… E fique certo, um Amor verdadeiro é insubstituível.

    Um beijo grande. Força. TiTa

    ________________________________

  12. Reflexão dolorosamente linda, professor. Parabéns! A saudade fica mas a vida continua e você vai conseguir superar essa dor. Bom domingo.

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