Solidariedade premiada

A Universidade Estadual de Maringá adotou uma iniciativa inovadora: promover um concurso para estimular ações solidárias na recepção dos calouros. O curso mais solidário será premiado com a quantia de 3 mil reais. * É mais uma atitude que objetiva conscientizar os discentes sobre o significado do trote e a necessidade de evitar a violência, física ou simbólica. Trata-se, portanto, de uma ideia bem-intencionada. Quem sabe deveria ser premiada.

Mas não é contrasenso premiar a solidariedade? Esta tem uma dimensão moral e ética que, como afirma certa propaganda, não tem preço. A solidariedade é uma virtude humana que pressupõe o ato espontâneo de doar-se, desprendimento e altruísmo. O ato solidário contrapõe-se ao egoísmo, à competição entre os indivíduos. Ora, premiar a solidariedade não significa estimular a competitividade? Pode-se realmente afirmar-se solidária a ações motivadas pela expectativa de serem premiadas?

Se a solidariedade deve ser espontânea, cuja motivação é um valor moral e ético concernente ao cuidar humano do outro, como pensá-la nos termos de estímulos monetários? A ação solidária não deveria se abster de esperar recompensa? É possível a solidariedade autêntica desprovida do interesse egoísta? Será o altruísmo uma forma dissimulada do interesse egoísta, ainda que inconsciente?

Afirma o preceito cristão que o bem deve ser feito sem afetação, sem que a mão que pratica as boas obras seja vista pela outra mão. “Por isso, quando deres esmola, não te ponhas a trombetear em público, como fazem os hipócritas nas sinagogas e nas ruas, com o propósito de ser glorificados pelos homens. Em verdade vos digo: já receberam sua recompensa. Tu, porém, quando deres esmola, não saiba tua mão esquerda o que faz tua direita, para que tua esmola fique em segredo; e o teu Pai, que vê no segredo, te recompensará” (Mateus 6, 2-4). Quem faz o bem de maneira ostentatória e busca recompensa humana é um fariseu.

Que solidariedade é esta que espera o reconhecimento institucional e se vê motivada por uma recompensa monetária? Premiar a solidariedade não é o mesmo que efetivamente negá-la? Está de acordo com a conduta que se espera de um cristão? Observe-se que, segundo as palavras bíblicas, mesmo este nutre a expectativa da recompensa – embora n não dos homens, mas de Deus que vê suas ações e segredos. Ainda que seus atos sejam elogiáveis – o altruísmo, a devoção aos necessitados, etc. – será que é autêntico, na medida em que supõe a recompensa? Não é uma forma dissimulada de egoísmo? Será o humano incapaz de agir solidariamente de maneira autêntica e desinteressada? Ou será que, ainda que não manifeste, atue sempre interessadamente, seja pela expectativa de um premio de 3 mil reais ou por um bilhete de entrada no Paraíso?

Não questionemos a sinceridade dos que se imaginam santos num mundo de pecadores; nem duvidemos das boas intenções dos que agem pelo bem do próximo, ainda que possam ser premiados; também não lancemos dúvidas sobre os que tem ideias bem-intencionadas como esta de premiar os mais solidários. Não obstante, parece-nos uma contradição em termos imaginar que a solidariedade deva ser estimulada como uma espécie de competição que definirá o mais solidário. A solidariedade não pode ser mensurada. A quem cabe o poder de julgá-la? O menor ato solidário, desde que autêntico, não é tão importante quanto a grandeza de servir ao próximo? Aliás, outro preceito bíblico afirma o amor ao próximo como a si mesmo. A solidariedade tem preço? A proposta de premiar as ações solidárias expressa bem o espírito predominante e que rege as relações humanas em nosso tempo.

6 comentários sobre “Solidariedade premiada

  1. No geral os chamados servidores púbicos, em grande parte apresentam um estado indiferente, de mal humor, em uma relação equidistante. Ou seja, a face do Estado é a indiferença frente ao cidadão que mais precisa, que por sinal paga o salário dos ditos “servidores púbicos” Portanto é estranho, a proposta da univrsidade, uma vez que esses valores são formado no bojo da família e a escola como extensão, deve com exemplos consolidá-los através da compreensão da importância desses valores para a promoção da sociedade.

  2. Caro Prof.Ozaí, sempre grata por seus artigos ricos e que nos instigam sempre às grandes reflexões.
    Fiquei meio de boca aberta agora com esse modo de chamamento á solidariedade pela Universidade de Maringá.
    Para mim, o ato de nos doarmos de alguma forma à sociedade,às comunidades e aos irmãos, é uma prática humana como missão que deve ser cultivada no seio familiar. Pois é ali que são lapidadas as “jóias brutas “que Deus confia para a missão terrena. ..seres humanos para o mundo.
    Li em algum lugar, que,”o amor é a asa que Deus dá à alma para que ela possa subir até Ele”.
    Amor aqui é a configuração da bondade!
    Quem é bom trabalha e caminha nos endereços do Bem!
    E para incentivar o jovem à prática da solidariedade, para excluir os trores criminosos, existem outras formas, como por exemplo, destinar esse valor do prêmio para ações culturais efetivas nas comunidades,especialmente àquelas que vivem órfãs de ações contínuas pelo poder público ou levar os alunos à um dia de trabalho solidário,de doação voluntária às várias ações empoderantes que existem espalhadas pela cidade,como a Assoc.dos Amigos de paciente dos Câncer Infantil-ali verãoo que é sofrimento de famílias inteiras.
    Fraternalmente e luz na missão,

  3. Antonio
    Bom dia
    Particularmente sou contra trotes, cortes forçados de cabelos, pinturas, etc. aos que adentram aos cursos de graduação, respeito os que acham importante essa forma de comemoração e/ou recepção só que deveriam consultar os calouros, respeitando daí os que não quiserem aderir. Observo que na aprovação ao ingresso, geralmente também se faz uma “festa”, percorrendo ruas e avenidas, comemorando o direito ao acesso conquistado após a dedicação aos estudos, mas desconheço como se dá a adesão, presumo que voluntaria. Os Centros Acadêmicos e as instituições que recebem em seu seio os graduandos têm obrigação de garantir a livre expressão e cada um comemora e o faça da forma que lhe aprouver, mas para um país de analfabetos e com graves problemas na qualidade do ensino não vejo o que haja para comemorar. Talvez ao invés de se comemorar conquistas individuais se pudesse ver formas de ajudar de alguma maneira a comunidade. Alguns Diretórios Acadêmicos, Cursinhos, e Universidades já o vêem fazendo, o que entendo louvável e necessários se divulgar. Troca-se o trote por um gesto gratuito de ajuda a sociedade. No tocante a iniciativa premiada da instituição que te reportas obviamente o tema é controverso. Ouso particularmente divergir de tuas assertivas fundadas na moral judaico-cristã. No chão da fábrica se ouve várias vezes ao dia o tema colaborar com a empresa, dar idéias e sugestões para melhorar a qualidade dos produtos, reduzir custos, tornar o empreendimento mais competitivo, como se a empresa fizesse algo gratuitamente. Idéias não se dão de graça, nós pagamos por elas, aos comprarmos um livro, jornal, assinarmos a TV a cabo, a WEB, curso técnico, a escola, etc., portanto, quem quer minhas idéias e mesmo colaboração que pague. Não é justo, nem ético e muito menos moral que se dê de graça pelo que se pagou.
    Cordialmente
    Pedro
    Caxias do Sul, 11 de fevereiro de 2013.

  4. Solidariedade em um País como o nosso é, cada vez mais, tão imprescindível, que só nos resta esperar que não se torne moeda de troca.
    Aproveito para registrar que gostei muito do novo layout do seu blog.

  5. COMO DIRIA PORTIA (DISFARÇADA DE MAGISTRADO), A VIRTUDE NÃO PODE SER FORÇADA. A solidariedade que se paga não é, de fato, solidária, mas apenas uma estratégia de otimização de interesses individuais ou grupais. Há uma diferença sutil entre viabilizar a solidariedade por meio de recursos financeiros e “provocar” a solidariedade por meios fiduciários. Achei muito behaviorista (e neoliberal) a dinâmica proposta de “premiar” a solidariedade. Obrigado, Ozaí, por ser massa crítica de fato!…

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