Impressões de leitura – Cisnes selvagens

Cisnes selvagensAno passado li Cisnes selvagens, escrito por Jung Chang. [1] A obra resgata a história da avó e da mãe da autora, e, evidentemente, dela própria. O caráter autobiográfico, aliado à excelente escrita na tradução brasileira[2], faz com que a leitura flua tranquilamente e desperta o interesse a cada página. O leitor, a depender da idiossincrasia, visão de mundo e ideologia que professa, simpatizará ou não com o relato. Nenhuma novidade! Livros também são produtos de consumo, com a diferença que nutrem ideias. A depender do consumidor, o alimento pode ser saboroso ou provocar ânsia de vômito. O importante, porém, é manter uma postura crítica de equilíbrio. Como diria Maurício Tragtenberg, “antes os fatos, já nos ensinava Espinosa, nem rir, nem chorar, compreender. Mais ainda, denunciá-los e combatê-los, quando negam o humano. Pois, ante os fatos há argumentos” (FSP, 02.09.2982). Em outras palavras, permanecem os fatos históricos e estes sempre estão sujeitos à interpretação. De qualquer forma, concordemos ou não com a leitura histórica da autora, a obra nos oferece um painel histórico sobre da China Imperial, início do século XX, à China republicana e comunista – até a morte de Mao Tsé-Tung e a prisão do “Bando dos Quatros” (1976).

O período histórico é longo e a leitura da obra poderá estimular o estudo de outros livros sobre a história recente da China, com o objetivo de aprofundar o conhecimento. Em mim despertou o interesse em retomar a leitura das mais de 800 páginas de Em busca da China moderna: quatro séculos de história, escritas por Jonathan D. Spence. [3] Esta vasta obra foi um presente do saudoso Maurício Tragtenberg, oferecida no dia da minha qualificação do mestrado na PUC/SP, em 1995. Não recordo a data exata, mas guardo o presente com um carinho especial. A dedicatória expressa bem o estilo do amigo-mestre-orientador: “Ao Ozaí, no aguardo da tese, clara, sintética e abrangente”. Com bom humor, ele expõe um desafio praticamente inalcançável: como ser claro e sintético, mas abrangente? Não sei se atendi às expectativas, mas as palavras e o gesto marcaram-me indelevelmente.

A leitura de Cisnes selvagens também deixou suas marcas. É o tipo de obra que instiga a reflexão e contribui para a nossa formação intelectual e humana. Um livro vale a pena ser lido se acrescenta algo, se nos ensina e nos estimula a pensar não apenas as teorias, os fatos históricos, etc., mas, sobretudo, como o humano demasiado humano que emerge, quase que magicamente, das palavras escrita no papel. Uma obra que provoca a imaginação e nos faz mergulhar no relato dos dramas humanos não nos deixa incólumes perante a condição humana. Pois, por mais diferentes que sejam as culturas e as histórias dos povos, há algo de comum que nos assemelha. Na medida em que nos reconhecemos na humanidade expressada pelos personagens, seus dilemas e histórias de vida, gostemos ou não deles, nos humanizamos.

Como salienta Paulo Freire: “Os livros em verdade refletem o enfrentamento de seus autores com o mundo. Expressam este enfrentamento”. [4] São também uma forma de nos situarmos no mundo e enfrentarmos a realidade do presente, com o aprendizado sobre o passado e voltado para o futuro. Além de propiciar o acúmulo do conhecimento sobre a cultura e a história recente, uma história à qual estamos vinculados, apesar da distância e da diversidade cultural, a leitura desta obra também nos remete à reflexão sobre as utopias e a práxis humana que objetiva construí-las. Pois, por mais perfeitas que sejam as utopias, o material humano que se devota à causa e deseja realizá-las é imperfeito. É preciso, portanto, manter o olhar crítico e lúcido!


[1] CHANG, Jung. Cisnes selvagens: três filhas da China. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.

[2] A obra foi escrita originalmente em inglês e a tradução é de Marcos Santarrita.

[3] SPENCE, Jonathan D. Em busca da China moderna: quatro séculos de história. São Paulo: Companhia das Letras, 1995,

[4] FREIRE, Paulo. Considerações em torno do ato de estudar. Disponível em http://www.espacoacademico.com.br/033/33pc_freire.htm

3 comentários sobre “Impressões de leitura – Cisnes selvagens

  1. Excelente perspectiva de abordagem de leitor. Mas na verdade não se trata de “Impressões de leitura” e, sim, uma pequena aula de recepção literária, de literatura. Obrigada por esse momento.

  2. “Como ser claro e sintético, mas abrangente?”
    Ofereço-lhe uma possível resposta creditada à Leonardo Da Vinci e que mais me satisfez até este momento: (em tempo: esta é uma das questões que me pergunto há anos)
    “A simplicidade é o último grau de sofisticação”
    Ou seja, aceitando e enfronhando de corpo e alma na complexidade do que se pretende compreender, perdendo-se no caos inicial até conseguir tocar nas poucas premissas que verdadeiramente o sustentam. Isto é, na sua essência.
    Raciocinando, a partir daí você será “claro e sintético, mas abrangente” que, no meu entender, pode ser, também, uma outra excelente definição do que é a simplicidade.
    Hahaha…agora peço licença para terminar de lê-lo…

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