A Educação na Grécia Antiga (Notas de leitura)

8571392609A educação nas civilizações assírio-babilônica é centrada na religião, vinculada à função social dos sacerdotes. Estes eram depositários da formação escolar e o escriba – que escrevia em tabuletas de argila e sob o controle de um mestre – era formado através dessa experiência. No Egito, outra grande civilização na antiguidade, a educação também se centra no aspecto religioso: “Todo o saber – religioso e técnico – era ministrado no templo, pela casta sacerdotal que representava o grupo intelectual daquela sociedade hierárquica”. (67)* Também entre os escribas hebreus, a educação adquire caráter religioso, com a Sinagoga tornando-se o centro da vida religiosa e civil e locus de instrução. Sobressai-se a profissão do escriba que, sacerdotal ou laica, é socialmente prestigiosa e separada das profissões manuais.

Na Grécia Antiga ocorre a laicização, racionalização e a universalização da educação. A cultura grega, ainda que mesclada de elementos oriundos do oriente, adquire um sentido relativo à humanidade, isto é, “nem grega, nem egípcia, nem de outro grupo local, mas do próprio homem em geral, como sujeito do “gênero humano”. (72)

A Pólis tornou-se o centro da educação, ou seja, a educação confundia-se com a cidade enquanto “comunidade pedagógica”. “Um dos instrumentos fundamentais dessa educação comunitária é o teatro, a tragédia e a comédia, que é um espelho da comunidade e que enfrenta seus problemas de legitimação das normas e de descrição/avaliação dos costumes”, observa Gambi. (79) Na representação teatral, se expressa as contradições da Pólis e dos cidadãos, seus dilemas éticos e políticos.

Atenas e Esparta representam dois modelos de educação. Como relata Franco Gambi:

“Esparta e Atenas deram vida a dois ideais de educação: um baseado no conformismo e no estatismo, outro na concepção de Paidéia, de formação humana livre e nutrida de experiências diversas, sociais, mas também culturais e antropológicas. Os dois ideais, depois, alimentaram durante séculos o debate pedagógico, sublinhando a riqueza e fecundidade ora de um, ora de outro modelo”. (82)

Na educação ateniense, a cidadania exige uma preparação fundada na arte de falar, na oratória. Nesse contexto, os sofistas terão um papel importante a desempenhar. Eles são os ancestrais dos professores modernos:

“… com os sofistas é que se chegará a um ensino no sentido moderno, como transmissão de um saber técnico através de um itinerário de aprendizagem provado e programado, pelo qual o docente é pago, sendo reconhecido como um técnico que oferece no mercado seu próprio produto. As escolas sofistas são itinerantes, mas abarrotadas, voltadas para a formação do orador. Entretanto, com o nascimento e da escrita vem se delineando “a carreira educativa da criança grega”, que começa na família e continua na escola.” (99)

É na realidade histórica grega, na antiga Atenas, que nasce a figura do pedagogo: Paidagogos: o escravo que controlava e guiava o jovem aprendiz, rapaz (pais). Assim, surge a Pedagogia enquanto um “saber autônomo, sistemático, rigoroso; nasce o pensamento da educação como episteme, e não como éthos e como práxis apenas.” (87) A educação se torna techne da formação humana (pela linguagem).

A educação na Grécia Antiga coloca os pilares da moderna pedagogia ocidental, da sua tradição educativa. Estes pilares constituem os seguintes aspectos:

“1. a noção de Paidéia, que universalizou e tornou socialmente mais independente e finalizado para o sujeito pessoa o processo de formação, entendido como um formar-se universalizando-se e desenvolvendo a própria humanitas, por meio de um comércio estreito, constante e pessoal com a cultura e sua história; 2. a pedagogia como teoria, tornada autônoma por referentes históricos contingentes e destinada a universalizar e tornar rigoroso… nasce um saber da educação, no sentido próprio, com todos os riscos de abstração, de teorismo, de normativismo que isto comporta; 3. a problematização da relação educativa, que supera o nexo pedagogo-pais e docente-discente, relação autoritária e formalista, abstrata e geralmente impessoal, para, ao contrário, delinear essa relação como eminentemente espiritual, quase um segundo nascimento, que faz do “mestre” o interlocutor fundamental de um processo de formação, enquanto o torna íntimo e envolvido em primeira pessoa nesse processo, como foi sublinhado por Sócrates…” (101-102)

Impõe-se o carisma do mestre, a imitação no processo educativo e o exemplo a ser seguido.


* Todas as citações são de: GAMBI, Franco. História da Pedagogia. São Paulo, Editora da UNESP, 1999.

6 comentários sobre “A Educação na Grécia Antiga (Notas de leitura)

  1. Prezado professor Antônio Ozai. O presente livro de Franco Gambi é na verdade um grande manual de história da educação. Ao longo de todo o seu livro, o presente autor aparenta não estar preocupado em realizar uma análise aprofundada da história da educação. Pois ele procura passar por diversas civilizações e algumas questões que ele propõe i infelizmente ficam em aberto.

  2. Achei ótimo o texto. Saber sobre a história do passado, na qual refleti no presente de hoje e refletirá no futuro de amanhã.

  3. Acho que o papel do mestre aos moldes antigos deixou marcas no oriente e no ocidente. Acredito ser interessante formamos para sermos os mestres de nós mesmos. Pra que mestre? A imitação faz parte da constituição da própria fala, de certa forma nos convencionamos pelo modus imitativo, mas é preciso a tal da alteridade, para isso é preciso ter mestria em relação a um texto PAI.

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