O amor incondicional é possível?

É possível amar incondicionalmente? Invariavelmente, as juras de amor são acompanhadas do desejo e da exigência de ser amado. O amor pressupõe reciprocidade. O amor exige amor e cuidar recíproco. Claro, há o amor não correspondido, mas ainda que sobreviva à ausência do ser amado, mesmo que seja chamado de amor, o nome mais propício é sofrimento. “Em alemão, paixão é Leidenschaft. Leiden é o sofrimento. Na paixão, de fato, também há sempre um sofrer”, afirma Alberoni.[1] Posso continuar a amar, e neste sentido é incondicional. Mas a recusa do amor e/ou a impossibilidade de realizar-se o transforma em sofrer, angústia e dor. Pois o amor exige materializar-se reciprocamente. Se é impossível, tende a esvaecer-se. Permanece como uma doce lembrança que exige o esquecimento e lança o indivíduo numa luta interna intensa.

O amor é condicional, possessivo! “É típico do amor querer sempre mais a mesma pessoa, aspirar a uma fusão total que lhe escapa”.[2] O amor caminha pari passu com o ciúme, o desejo de exclusividade. “O ciúme pede, como o antigo Deus de Israel: não terás outro Deus além de mim”.[3] O sentimento exacerbado de posse desconfia de tudo, é fruto da insegurança. Daí a necessidade de controle. Como escreve Alberoni, “há amores possessivos, amores angustiados, que se reduzem quase que exclusivamente ao controle físico e mental do outro. Há amores-ódio, amores-poder em que o amante é o carcereiro do amado, preocupado apenas com que ele possa evadir-se da prisão. O carcereiro teme os amigos porque estes são janelas por onde o prisioneiro vê a liberdade, e por onde pode escapar. Começa, então, uma sutil luta contra a amizade”.[4] O amor-paixão é êxtase, mas também pode ser cárcere!

Por mais que afirme a liberdade e a incondicionalidade do amar, este amor é exigente, impõe condições. Proclama-se incondicional, mas não suporta a ausência; afirma-se permanente, mas ressente-se; jura não esquecer, porém a dor o impulsiona a debater-se nas águas revoltas do oceano das lembranças. Enfim, o amor revela-se incondicional. Ele quer o outro, necessita, exige!

juluol

Não obstante, há outras formas de amar! Pensemos no amor da mãe e do pai pelos filhos. Será incondicional? A mãe e o pai amam desinteressadamente? Um dia, afirmei à minha filha que a amava incondicionalmente. Ela argumentou que os pais amam, mas não há ausência de interesse; eles esperam algo dos filhos. Quem sabe a proteção e o cuidado na velhice ou simplesmente serem correspondidos com afeto. Ela me fez refletir!

O que os pais querem dos filhos? O que esperam deles? Continuam a amá-los ainda que eles decepcionem e se distanciem? O amor de mãe e pai resiste à ausência de afeição, ao esquecimento e à rejeição? Ainda que sob o risco da redundância, não esqueçamos que pais e mães compartilham a condição humana com os filhos; são carentes e propensos a sofrer. Desejamos que nossos filhos sejam felizes; que encontrem seus próprios caminhos e construam suas vidas da melhor forma possível. Então, o amor paterno e materno pode ser incondicional, isto é, amar sem nada esperar em retribuição, sem interesses e exigências de reciprocidade. Pois, ainda que a minha filha se afaste de mim e não demonstre afeição, continuarei a amá-la. Ainda que ela trilhe sendas desconhecidas e arriscadas, não a abandonarei. Amo-as incondicionalmente e ponto!

Mas a reflexão me fez ver que nem sempre o amor de pai e mãe é incondicional. Há pais e mães que criam os filhos como seus apêndices e subordinam a vida deles. Agem assim em nome do amor aos filhos – e não nos cabe duvidar deste sentimento. Mas, nestas condições, é um amor condicionante, egoísta, e, no limite, chantagista e opressivo. Em suma, talvez o amor incondicional seja possível, mas não podemos generalizar!


[1] ALBERONI, Francesco. A Amizade. Rio de Janeiro: Rocco, 1992, p. 10.

[2] Idem, p. 64.

[3] Idem, p. 55.

[4] Idem, p. 114.

14 comentários sobre “O amor incondicional é possível?

  1. O amor é o sentimento mais revolucionário da humanidade. É com amor e por amor que se enfrenta as maiores batalhas da vida, que se supera os maiores obstáculos encontrados na caminhada. É o amor que impulsiona as conquistas e motiva a solidariedade humana.

  2. Creio que é possível sim o amor incondicional. O amor dos pais e do poeta. Escrevi em um dos meus poemas, cujo título é O AMOR E O POETA: O amor comum é carnal/ pode ser até carnaval/ o do poeta é corpo, espírito e alma/ é tridimensional.
    Eis o nosso poema na íntegra
    O AMOR E O POETA

    O poeta ama diferente,
    Ama por amor
    Ama o amar da mente.
    Come, bebe, degusta
    Cada pétala de amor…
    E tem o amor freqüente,
    Com unhas e dentes,
    Agarra-se ao primeiro
    E ao último fio de amor.

    O amor comum é carnal
    Pode ser até carnaval,
    O do poeta é corpo, espírito
    E alma, é tridimensional.
    A poesia é alimento
    0 amor também,
    Têm perfume e têm sabor,
    São proteínas que se come
    Tenha ou não fome.

    Autor: Gaudêncio Leal

  3. Os belos exemplos citados referem-se ao amor que doa, incondicionalmente, o máximo de si para outrem, para a felicidade, satisfação plena do outro, pois estamos acostumados a ver amor apenas no amor. Se levarmos em conta o clássico exemplo da poderosa águia que sem pena, temor ou apego, joga seu filhote do precipício abaixo para que este aprenda a voar, pois já é capaz de fazê-lo, poderemos pensar numa outra, ou na verdadeira forma de ver, e definir, receber, procurar e encontrar o amor. Segundo reflexões sobre os ensinamentos de Mokiti Okada, líder espiritual da Igreja Messiânica Mundial, com sede no Japão, a humanidade veio recebendo até hoje apenas 50% do amor de Deus, considerando os problemas e as adversidades como ausência desse amor. O antigo Deus de Israel não era (é) ciumento apenas dava ou deu aos seus seguidores a verdadeira ciência das coisas: não existem outros Deuses, pelo menos não com a mesmo poder do Deus de Israel, o supremo Deus segundo Mokiti Okada. Inspirada por estes ensinamentos e pela poesia de cecília Meireles escrevi a seguinte poesia:
    Na dimensão dos deuses o amor explode, no sentido literal da palavra,
    explode causando desmoronamentos,rompendo barreiras,derrubando os pedestais, percebemos-nos simples mortais,
    outrora iludidos em negros pensamentos, estilhaçam-se as asneiras que embaçavam o translúcido espelhar de nossas almas perenes, temos nossas entranhas reviradas, nossas vísceras espalhadas para que possamos ver o que somos e para quê somos, então nada mais somos, apenas frutos do amor, do amor que tivermos dado. Longe da dimensão dos deuses nos arrogamos poderes, prendemos a inúteis deveres, pequeninos afazeres, na ilusória impressão de que ao cumpri-los tenhamos razão, mas uma vez alcançando-a nos percebemos sós, então voltamos o olhar para o dever maior, o dever de amar, somente amar. De volta à dimensão dos deuses podemos calar e mesmo assim sermos ouvidos, pois somos capazes de sentir a dor do outro como sendo a nossa. Na dimensão dos deuses tudo é amor, resplandece amor, até a dor.

  4. Excelente reflexão! Minha opinião quanto ao amor é um pouco na linha do Raul Seixas: “O Amor só dura em liberdade; Quando lhe jurei meu amor eu traí a mim mesmo… O Amor segundo os filósofos tem várias visões… acredito que temos uma eterna solidão e desamparo no qual reflete a forma como se ama ou como se coloca esse amor no ser amado, daí o problema! pois precisa-se de muita terapia e auto conhecimento para que não se projete no ser amado suas neuras. Quanto mais o ser humano for livre e consciente em todas as suas esferas mais ele pode amar e ser livre para deixar o outro amá- lo .

  5. Ééé, o amor! Gostei do tom do escrito. Em Platão, pela boca de Aristófanes, a busca do amor começou quando os deuses dividiram os andróginos em duas metades. Daí sermos condenados a bucar a outra metade – a alma gêmea- para tentarmos a completude. Mas isso seria impossível, uma vez que todo encontro [reencontro] é sempre faltoso, ou marcado pela suspeita de não ser nossa alma gêmea. Feliz aquele que vive na ilusão de ter encontrado sua alma gêmea. abraço. Raymundo. PS: bacana ver um sociólogo se interessar pelo amor. Leandro Konder tb fez uma obra “tardia” sobre o amor…

  6. Boa-tarde, Prof. Antônio,

    Devo confessar-lhe algo, estimado professor: gosto muito dos seus textos e sempre procuro lê-los com muita atenção, pois são fontes de soberbo conhecimento. Mas, me atraem também, os comentários inteligentes dos leitores. É uma grande honra postar um comentário aqui.O Sr. Pedro (deve ser professor também) sempre com suas opiniões tão coerentes e bem colocadas.Carolina Assis nos dá generosamente, uma aula em cada uma de suas participações. Obrigada, garota preciosa.O Sr. Francisco nos conta uma história de puro amor e profunda dedicação.Essa mãe que cuida de seu filho com tanto carinho e apreço, me comoveu às lágrimas e o relato foi muito feito, com muita sensibilidade. Muito grata a todos.
    Nunca consegui entender um “certo amor” e, coloco a minha dúvida para apreciação dessas mentes inteligentes e esclarecidas. No meu relato não estarei julgando ninguém, só nunca consegui entender o acontecimento. Vamos lá:
    Tive um familiar, ele já falecido, que foi um rapaz de grande beleza física, muito charme, inteligência e sedução. Como se dizia no meu tempo de primeira juventude, “choviam garotas na horta dele.” As meninas, quando descobriam que ele era meu parente, se tornavam minhas “melhores amigas.” Ele namorou uma dessas moças por cerca de um ano e pouco e por pressão da própria moça e da sua família, eles colocaram alianças na mão direita, noivaram. Então, começou o sufoco para apurar o casamento, que deveria ser logo. Ela era uns três ou quatro anos mais velha que ele (algo, que acredito não tem a menor importância). Já havia sido noiva. De repente, o bonitão resolveu terminar com tudo e abortar o tal casamento. O rapaz tinha 17 anos. Nem terminara o nível médio e tinha um emprego modesto. Embora, Eu tivesse uns 15 anos de idade, achava tudo aquilo um absurdo completo: a pouca idade dele e a inércia dela, não estudava, não trabalhava e morava na casa de um irmão. Já naquela época, eu pensava o casamento, como uma grande parceria, logo achava aburdo todas as responsabilidades econômicas cairem sobre os ombros dos homens. Resumindo: a moça fez um escândalo tão grande na casa do rapaz, postou-se de joelhos aos pés dele, jurando amor eterno, que o amaria por toda a vida e, se ele não casasse com ela, se mataria, porque a sua vida não teria mais razão. Depois de muita chantagem de todo o tipo da moça e da família dela, casaram,-se no ano seguinte.Após o matrimônio, ela transformou-se completamente. De bonitinha e bem cuidada, em uma monstra gritona, vulgar, grosseira e deselegante. Cobrava tudo do infeliz. Nenhum lugar servia para a beldade morar. Ela e os filhos tinham as mais diversas doenças, viviam em consultórios médicos. Fazer algo em casa, nem pensar. Menos ainda, trabalhar fora. Correram os anos e quando os filhos já eram adolescentes, ela colocou a mala dele na porta e exigiu uma gorda pensão, um automóvel, uma boa casa com todo o conforto e inclusive telefone.(o que era meio raro no RS naquela época de CRT) só para assinar o divórcio. E então….eis o grande amor eterno…será que alguém ainda cai neste golpe??? Acho difícil.Não acredito muito neste amor incondicional, que ama sem nada pedir em troca. Acredito que ninguém tem a obrigação de amar ninguém. Que deve ser recíproco, cristalino, vindo do fundo d’alma. Nada de forçar a barra.Quando lembro desta história e da cena da moça ajoelhada…seria cômico, se não fosse tão trágico. Várias pessoas infelizes. Para que complicar tanto?? Presenciei outra história de generosidade e AMOR, que creio chega próximo a ser incondicional. Nos anos 70, uma colega de trabalho amava apaixonadamente, outro colega nosso. Torcíamos pelos dois.Mas,…ele não a amava, gostava de outra moça. Certo dia, a minha colega falou para o rapaz procurar a moça que ele amava, se declarar, falar com a família dela, lutar por ela. Deu tudo certo para ele, que acabou casando com a tal moça.A colega chorava baixinho, sempre que via o seu amado, seus olhos se enchiam de lágrimas, Ela nunca se queixou ou comentou alguma coisa com ele ou com ninguém. Mudou de emprego, de cidade, foi estudar. Anos depois encontrei-a. Nunca se casou, entretanto parecia muito feliz com seu trabalho de psicóloga. Adotou duas crianças e continuava sendo a mesma pessoas querida de sempre. Sorrindo me disse que era realizada com a felicidade do seu ser amado.Perdão pelo egoísmo de escrever tanto. Abraço e que todos/as tenham muito amor em suas vidas. As fotos são lindas.Abraços de amor tranquilo: A AMIZADE FRATERNA.

    • Obrigado pela referência, srª Vera Linden.
      O importante é que cada um de nós tem uma história ou exemplos de amor verdadeiro, que nos fazem concluir que ele de fato existe e não é apenas platônico.
      Desta forma, acredito que possamos reavivá-lo, colocar-lhe em prática, ser o nosso cotidiano.
      As famílias têm sido o baluarte desse amor incondicional. Por acaso existe maior demonstração de coragem que os pais assumirem o sustento, a educação e a formação acadêmica de seus filhos?
      Também não vejo comparação de um amor tão grande e significativo do que aquele que reúne a vida de um casal por décadas.
      Estou casado há 43 anos com a mesma mulher. Temos três filhos homens, três netas e dois netos. O aumento da família com esses anjos em formas de crianças, igualmente ampliou o amor que sentimos entre nós, ao mesmo tempo que nos propiciou que nossos sentimentos se alastrassem para outras pessoas, tornando-nos mais compreensivos, tolerantes, amistosos e benevolentes.
      Sim, o amor existe e não somente de um homem por uma mulher, mas quando ele se expande às demais pessoas que tanto necessitam de ajuda, afeto, carinho e solidariedade.
      Somos agentes de felicidades, srª Vera, basta que tomemos consciência desta função e poder que possuímos para estender tal magia pelo menos aqueles que estão próximos de nós e, assim, obtermos harmonia, congraçamento, alegria, e sempre com as bênçãos divinas, haja vista que esta é a nossa obrigação!
      Um respeitoso abraço à senhora.
      Felicidades junto aos seus para todo o sempre.
      Francisco Bendl

  7. Antonio
    Boa tarde
    O texto é inquietante. O tema já foi e é objeto de milhares de livros e centenas de filmes, isso para ficarmos nos tempos mais atuais, por isso não será aqui esgotado, quanto muito terá comentário de lampejo. Para mim o amor simplesmente acontece, não tem limites, nem barreiras. Muitas vezes é impedido por outras forças, sofre restrições, mas mesmo na saudade, no seu momento pretérito – há seu tempo – foi amor. Pode que tenha sido momentâneo, passageiro e também duradouro, não é exclusivo, me parece que é essencialmente inclusivo (talvez esteja confundindo com perdão?), busca a todos. Não é um fim (talvez seja), mas uma possibilidade, e nas minhas incertezas uma construção. Inveja, ciúmes, possessão, ódio, raiva, coabitam, coexistem, somam-se e afastam-se, às vezes (muitas vezes) mesclam-se e confundem-se, obviamente perniciosos ao amor incondicional, mas ainda presentes no ser humano, limitado e limitante. A renúncia, o desapego, o abrir mão também pode que sejam gestos de amor. O amor teve e terá múltiplas definições, andará (acho) mais para o irracional e espontâneo do que pela lógica ou o bom senso, mas aí que reside seu cerne, baseia-se na improbabilidade, na incerteza, na espontaneidade, na dúvida, supera e suplanta as possibilidades das coisas e atos mensuráveis. O amor felizmente não é só humano, perpassa toda a natureza, pelo menos a que conhecemos, só não iluminou ainda de todo os seres humanos que insistem racionalmente em dominar o próximo, quando deveriam aproximar.
    Cordialmente
    Pedro
    Caxias do Sul, 14 de abril de 2013.

  8. Ozai meus PARABENS!! Você foi preciso nas descrições…!! Esse é o AMOR que sempre senti e vivi pela minha linda morena e esposa, GRAÇA… Por minhas FILHAS; pela minha MÃE e meu PAI… Até à morte!!!!!!

    Negreiros

  9. Sim, existe o amor incondicional.
    O maior dos exemplos vem de Cristo, que se imolou para nos deixar um legado de amor ao próximo como pressuposto à convivência harmoniosa, justa, tolerante, compreensiva, solidária.
    Mas eu conheci uma senhora – que aproveito este espaço democrático para saudá-la e referenciá-la – que foi para mim o modelo de amor absoluto, muito maior que a caridade que se aproxima deste sentimento. Caridade e amor se confundem muitas vezes, no entanto, neste caso, o amor se notabilizava, se mostrava na sua essência, no seu poder incomparável.
    Fui motorista de táxi por muitos anos, e nas minhas andanças pela capital dos gaúchos, conheci uma senhora que tinha um filho com VINTE E CINCO ANOS em estado vegetativo.
    Este ser era cuidado por ela vinte e quatro horas por dia, haja vista sofrer de refluxos e, nessas ocasiões, deveria se correr para levá-lo ao hospital antes que se sufocasse.
    Durante seis anos acompanhei a vida desta mulher que deixou a sua de lado para se dedicar a uma pessoa que não teria futuro, que não poderia lhe retribuir o tempo, a paciência, as horas concedidas à criação e cuidados desta vida que ela e o marido haviam trazido para este mundo.
    Naturalmente o pai não suportou o calvário ao ver seu filho em tamanho estado de dependência e saiu de casa, abandonando a esposa e deixando-a sozinha quanto à responsabilidade de alimentar, limpar, dar banho, trocar de roupa, remédios nos horários determinados, percorrer hospitais de madrugada em busca de socorro, e fazer o seu filho sorrir volta e meia.
    Ela fazia doces e salgados para vender, de modo a ter uma renda para sobreviver e sustentar o seu filho dependente.
    Comprei dela várias vezes as suas especialidades, que tinham sabores incomparáveis porque produzidos com afinco, determinação, necessidade, esmero e higiene, pois ela sabia que a freguesia lhe seria muito importante, razão pela qual seus quitutes deveriam ser saborosos, irretocáveis e diferentes.
    O mais surpreendente quando ela andava no meu táxi – além de levá-la ao médico com o filho no colo, eu também fazia as entregas das encomendas quando me encontrava à disposição, ou seja, com o táxi desocupado – era o seu sorriso contagioso!
    Uma mulher alegre, que não se queixava da sua existência, ao contrário. Dizia-me que agradecia a Deus esta tarefa porque se sentia útil, que a sua vida tinha uma ocupação importante, sem dúvida, mas que lhe exigia testar o seu amor, e se ele era verdadeiro ou apenas efêmero, fugaz ou meramente interesseiro.
    Aquela mulher não era bonita. Ela era comum, mas não feia. Feições agradáveis, magra, entretanto, meus olhos jamais viram beleza feminina igual em bondade, em esplendor, em carinho. Quando ela sorria, eu via um encantamento no seu rosto que, se meu casamento não fosse sólido, eu teria me apaixonado por aquela mulher perdidamente, pois eu a queria fazer feliz!
    O seu sorriso me mostrava o contrário. Ela não precisava de ninguem. Na verdade, vim a perceber depois que nós é que necessitávamos de uma pessoa com tais predicados, com tal força dentro de si para enfrentar as vicissitudes da vida, os percalços do destino.
    Sim, eu conheci o amor incondicional, verdadeiro, desinteressado, único.
    Agradeço muito a Deus ter diividido parte do meu tempo com uma pessoa exemplar, com uma mulher que me proporcionou também valorizar mais a minha esposa, os meus filhos sadios, a minha vida sem limitações.
    Três anos após eu ter me aposentado fui procurá-la para lhe encomendar alguns doces e salgados. Levei a minha mulher para conhecê-la. Infelizmente ela havia mudado de endereço e, a vizinhança, desconhecia para onde ela tinha ido.
    O filho morrera, foi a informação que me deram.
    Um pedaço de mim ficou naquele prédio que não tinha mais a sua presença, mas o coração transbordava de esperança, de crença no ser humano, de que ainda somos capazes de amar!

  10. O amor é o mais belo dos deuses afirma Platão, via Diotima, no Banquete. A amizade é um dos aspectos estudados por ele tb. em Lísis, com o amigo primordial. São óticas que tendem à idealização dos afetos, depois cunhados pelos cristãos como Ágape, Philia e Eros. Todos esses elementos convivem ainda hoje. O amor, por outro lado, com outras linhas teóricas não existe, é pura abstração convencionada socialmente,logo nada seria incondicional. Mas para seguir a contradição, paradoxal de Camões, por exemplo, o amor é incondicional mesmo. O amor aos filhos é algo visceral ao próprio corpo, amamos, cuidados, a principio, como parte de nós mesmos, tornamo-nos imortais com os filhos, acabamos por preservá-los com amor. Mas nossos filhos não são nossos filhos, são filhos da vida. Quando pequenos dependem mais dos pais para depois seguirem na construção do próprio caminho. Acredito no amor incondicional, só quem tem filho sabe disso, mas não dá para não permitir a construção de um caminho que será só dele. Digo isso mas tenho muitas saudades de filha pequena, ela esta crescendo o que é muito bom, mas fica a nostalgia, a saudades…

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