Sonhos, desejos e esperança!

principio_esperanca_150A Utopia habita em indivíduos concretos que pensam e sentem, sofrem e se alegram, lutam e, sobretudo, nutrem a esperança. Somos capazes de imaginar o devir, de termos “sonhos diurnos”. A consciência antecipadora é própria do humano. Somos animais ansiosos, seres que se angustiam antecipadamente. Imaginamos o vir-a-ser ainda que este seja apenas possibilidade remota. Mesmo quando este se apresenta enquanto possível concreto, ficamos a imaginar “como será”, “como reagiremos”, se confirmará ou não as expectativas. De tanto pensar, sofremos por antecipação; mas também nos alegramos com a possibilidade de

Enquanto o futuro não se concretiza, mas permanece em gérmen dentro de nós, sonhamos e desejamos. Somos seres desejantes. Desejar é querer. “Não há querer que não tenha sido precedido de um desejar”, afirma Bloch.* O querer pressupõe agir, indica um querer fazer. “Desejos nada fazem, mas eles dão a forma e retém com especial fidelidade o que deveria ser feito” (p. 51). O desejar ativo anseia, mas também pode ser angustiante e prisioneiro do medo. A esperança é expectante, opõe-se ao medo e à angústia; ela é “a mais humana de todas as emoções e acessível apenas a seres humanos. Ela tem como referência, ao mesmo tempo, o horizonte mais amplo e mais claro” (p. 77).

A esperança é um sonhar acordado. Os “sonhos diurnos” alicerçam-se em carências e na expectativa de dias melhores. É um sonhar consciente da realidade, mas insatisfeito diante dela. É um sonhar que almeja superar o que é e instituir o que pode ser. A possibilidade do novo está inscrita no ser, gesta-se no presente. A história é aberta e prenhe de possibilidades. Seu fundamento é o real materialmente concreto e contraditório. “O sonhar desperto, ou seja aberto para o mundo, sabe não se abster. Ele se recusa a se saciar ficticiamente ou ainda espiritualizar desejos. A fantasia diurna, assim como o sonho noturno, tem os desejos como ponto de partida, mas vai com eles até o fim. Quer chegar ao lugar da realização”, escreve Bloch (p. 97).

A esperança é militante, é um “afeto prático” que desfralda bandeiras. As utopias nutrem-se da esperança, a esperança é utópica. Mas utopia concebida em sua concretude, enquanto possibilidade real fundada num mundo de carência e no desejo de superação. Não é um sonhar fantasioso, desvinculado da vida real. Como ressalta Bloch: “O ponto de contato entre o sonho e a vida, sem o qual o sonho produz apenas a utopia abstrata e a vida, por seu turno, apenas trivialidade, apresenta-se na capacidade utópica colocada sobre os próprios pés, a qual está associada ao possível” (p. 145). A realidade não é estática, mas movimento contraditório em direção ao devir.

Os sonhos são instigantes. Iludem-se os que racionalizam em demasia e desconsideram a capacidade humana de sonhar, de desejar navegar por águas desconhecidas, atracar em novos portos e explorar territórios e países imaginários. A vida não se reduz à mediocridade, mesmo no mísero cotidiano o humano sonha. A vida humana tem uma amplitude que extrapola os limites do mero reproduzir-se. Sonhar e desejar talvez sejam o mais essencial ao viver. O ser humano até precisa de certa dose de ilusão, necessita superar o domínio do mero instinto animal. O humano é um ser em construção, social e historicamente. “O que caracteriza o amplo espaço da vida ainda aberta e ainda incerta do ser humano é a possibilidade de assim velejar em sonhos, que são possíveis sonhos diurnos, muitas vezes do tipo totalmente sem base na realidade. O ser humano fabula desejos”, observa Bloch (p. 194).

O mundo é inconcluso, aberto à transformação. O futuro é uma construção humana nutrida pela esperança! A efervescência utópica é própria do humano!


* BLOCH, Ernst. O princípio esperança. Rio de Janeiro, EdUERJ; Contraponto, 2005 (Vol. 1), p. 51. Todas as citações são desta obra.

15 comentários sobre “Sonhos, desejos e esperança!

  1. Mesmo que não sonhe, o homem transforma-se. O sonho quando realizado passa a ser o cotidiano daquele que o sonhou então, esse “mísero cotidiano” do hoje, é nada mais que o resultado do que fora sonhado, assim sendo os sonhos podem ser tão instigantes quanto míseros.

  2. O ponto central de O Princípio Esperança é, de acordo com Suzana Albornoz e Eric Hobsbawm, a espiral de um sistema aberto, ou seja, do homem ainda em formação e da História como um processo aberto, compatível com visões cíclicas de mudanças, rupturas, avanços ou mesmo regressões e incompatível com a ideia de progresso contínuo. Este pensamento pode ser sintetizado na conhecida fórmula “S ainda não é P”, sujeito ainda não é predicado. O componente dialético de Ernst Bloch, apesar de certa influência de Hegel, não é de forma alguma idealista, puramente contemplativo; ele está repleto de uma carga revolucionária materialista.

    As utopias sociais, em grande medida suplantadas, romantizadas apenas como abstração por uma espécie de ditadura racionalista, herdada do iluminismo e que perpassa até mesmo o discurso cientificista do marxismo (vulgar), ganham status de utopia concreta no pensamento blochiano. Para romper com o saber puramente contemplativo e idealista das utopias, Bloch as articula com a filosofia da práxis de Marx e com a ontologia da “consciência antecipadora” ao que “ainda-não-veio-a-ser”. Nesse processo, o homem compreendido como um ser ainda em formação é remetido em direção do futuro, ao novum, ao devir. O impulso ou interrupção que nos move necessariamente rumo ao novo é abordado por Bloch de uma forma bastante peculiar e distinta às pulsões freudianas; a fome, as profecias, os movimentos messiânicos e escatológicos são os motivadores das irrupções históricas e cuidadosamente articulados às utopias.

    Obviamente a ousadia do pensamento de Ernst Bloch não agradou a todos. Sua visão de mundo, seu sincretismo entre judaísmo e cristianismo e sua tentativa de estabelecer uma ponte hermenêutica entre marxismo e religião, messianismo e política, provocaram a irritação das mais variadas ortodoxias. O marxismo oficial stalinista rapidamente acusou Bloch de “revisionismo”; desagradou também os representantes da igreja católica oficial, pela defesa das correntes erráticas e protestantes; igualmente o tradicionalismo judaico, por causa dos “desvios” de Bloch à cristologia e na questão da imagem tradicional de Deus.

    Contra estas “contradições” o pensador dialético certamente responderia da seguinte maneira: “O que caracteriza o poder e a verdade do marxismo é justamente o fato de ele ter dissipado a nuvem que envolvia os sonhos para frente sem ter apagado as colunas de fogo que neles ardiam, dando-lhes, ao contrário, força e concretude”. Num sentido semelhante, Arno Munster cita uma conferência em 1968, intitulada “Karl Marx, o andar ereto e a utopia concreta”, onde o filósofo da esperança salientava acerca dos desvios da social-democracia e do stalinismo, que “o marxismo corre menos riscos por parte de seus inimigos declarados do que por parte as ações de seus amigos”.

    Bloch e Walter Benjamin são, de acordo com Enrique Dussel, os grandes inspiradores teóricos da Teologia da Libertação na América Latina. Nesse sentido, conhecemos a práxis antes da teoria, tendo em vista que a intelligentsia – antropofágica como diria Pierre Furter – consumiu Lukács, Gramsci, Benjamin… e agora está começando a degustar esse erudito monumental. Acho que Bloch veio para ficar e com ele um “novo” materialismo histórico, menos economicista e mais cultural. Acho que teremos muito o que conversar pessoalmente sobre Bloch, professor Ozaí, afinal o P.H. tem só 1500 páginas…

  3. Em Bloch “A esperança é um sonhar acordado … é militante, é um “afeto prático” que desfralda bandeiras” …. por isso a esperança tem a dimensão do infinito ….

  4. Antônio
    Bom dia
    Li alguns livros de Ernest no inicio dos anos 80, quando estudante (graduação) de Filosofia. Na época tive a impressão – o pouco que lembro – que havia a difusão de suas idéias, pelo menos na Licenciatura, por aproximar (hipótese) marxismo e teologia, mas confesso que não tenho certeza quanto a isso. As experiências políticas que tive “me’ tornaram um cético, por isso vejo com reserva as utopias. Acho que os problemas sociais dos anos 70 e 80 em muito se agravaram, sobremodo no Brasil de 2013, e as utopias foram utilizadas com o fim único de alienar ainda mais a população. É corrente o discurso: “quando”, “no futuro”, “no dia”, “a cada passo que se dá a utopia fica no horizonte a nos guiar para outro…” e com isso tudo, se adiam as coisas para um porvir que nunca chega, nem ao menos em parte. Partilho por outro lado da idéia objetiva de se fazer hoje o possível e na medida de nossas forças, para que hoje mesmo se busquem soluções e alternativas e o que nos move para isso não é a utopia e sim nossas convicções, idéias, conceitos, experiências. As coisas do mundo tem solução sim, não compactuo com a idéia do que não tem solução solucionado está. Podemos não ter a solução no momento mas me movo no campo prático da experiência pretérita, que nos indica sempre essa possibilidade. A ciência tem limites hoje, mas a pesquisa, o desenvolvimento de experiências, o fortalecimento dos estudos, já demonstrou (demonstraram) que gradativamente vamos obtendo conquistas. O alienado é na integra manipulável, enquanto que o ciente se frustra em ver a passividade, diante do caos social estabelecido.
    Abraços
    Pedro
    Caxias do Sul, 02 de junho de 2013.

    • Caro Pedro,

      bom dia.
      Compartilho do seu ceticismo, por isso o tema da utopia é tão caro para mim.
      O mundo muda, apesar da passividade e mesmo do nosso ceticismo. Ernst Bloch escreve contra o pessimismo e por um “otimismo militante”. É instigante!

      Obrigado por ler e sempre comentar. Seus comentários contribuem com a reflexão.
      Abraços e ótima semana,

  5. Seu otimo post (como sempre), me faz pensar que as caracteristicas do ser humano, que o diferenciam do animal, e que vêm caindo uma por uma ultimamente, talvez se possam reduzir a duas: desejar e esperar. Pelo menos até prova em contrario (quem sabe um dia um neurocientista escreva um livro sobre “Sonhos e desejos de um tamandua” – admitir que animais sofrem, por exemplo, ja é consensual).

    • Regina,

      bom dia.
      Obrigado por ler e comentar.
      Bem, talvez nos diferenciemos dos demais animais apenas por estes aspectos, mas o humano em geral é muito arrogante. Outro dia, assisti a um documentário sobre esta relação de crueldade e arrogância entre o ser humano e os aminais não-humanos. Chama-se “Terráqueos”. Talvez o humano, em geral, ainda precise ser convencido de que os animais sofrem.

      Abraços e ótima semana

  6. Conheci verdadeiramente BLOCH este ano e posso dizer: “Por que ele não se apresentou antes?!”….srsrs. Excelente!!!!

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