O Marxismo é Utopia?!

“Sem a função utópica, as ideologias de classe teriam chegado a ser meramente ilusão passageira, e não modelos na arte, na ciência e na filosofia”  Ernst Bloch[1]

engels-buber-blochPara muitos, a pergunta não procede. Mas, como diria um personagem irritante de um programa humorístico sem graça, “Perguntar não ofende”. Isto não impede que os guardiões da ortodoxia e os neófitos mais fervorosos sintam-se ofendidos com a simples menção ao caráter utópico do marxismo. A rejeição contundente não admite formular a questão, menos ainda o esforço intelectual da reflexão. “O marxismo é ciência”, afirmam categoricamente. Encerra-se, assim, qualquer possibilidade de diálogo.

A pergunta não é provocação nem objetiva ofender os ideólogos mais susceptíveis. Trata-se apenas de uma reflexão estimulada pela experiência de vida e do desejo de compartilhar, com a esperança de instigar o diálogo e aprofundar o estudo sobre as Utopias, Ideologias e Religião. O pressuposto é que as utopias e ideologias, embora generosas em suas promessas, contém aspectos autoritários em gérmen. Nesta perspectiva, pretende-se analisar o pensamento utópico, as ideologias e a relação entre estas e os ritos e práticas de caráter religioso, ou seja, se e em que medida, as ideologias apresentam traços que as configuram enquanto religiões profanas. Se a pergunta sobre o utopismo do marxismo parece provocativa a alguns, imagine, então, aventar a hipótese de que este apresenta componentes religiosos.[2]

Marx e Engels beberam em fontes que jorravam ideias e práticas utópicas de autores como Charles Fourier, Robert Owen, Saint-Simon e outros. Esta influência histórica é assumida pelos pais fundadores do marxismo – embora Marx tenha recusado a alcunha de “marxista”. [3] Engels, em Do socialismo utópico ao socialismo científico[4], reconhece os aspectos positivos dos pensadores utópicos e faz a crítica demolidora dos seus fundamentos. Seu argumento consolida a “verdade” do caráter científico do socialismo marxiano, pretensamente superior ao socialismo pré-marxista. Cristaliza-se, assim, uma concepção positiva do socialismo contraposta aos socialistas que antecederam Marx e Engels.[5] O novo socialismo “científico” teria superado e relegado o utopismo às brumas do passado. O socialismo utópico passou a ter uma carga negativa e pejorativa.[6]

A hegemonia do marxismo comprometeu a noção de Utopia. Na medida em que se afirma enquanto ciência do proletariado, contraposto à ciência burguesa, o devir passou a ser interpretado e explicado cientificamente, isto é, como resultante de leis gerais da evolução das sociedades. Se o capitalismo suplantou o feudalismo, a partir das contradições deste, necessariamente será suplantado. É ciência!

Na época da Segunda Internacional, o cientificismo fundiu-se com o evolucionismo de inspiração darwinista e o socialismo passou a ser concebido enquanto resultado inexorável das contradições do capitalismo. A fé no advento da nova sociedade expressou-se na práxis reformista da social-democracia, mas também no determinismo ortodoxo dos revolucionários. De um lado, a Utopia deu lugar à luta pela conquista de melhorias e reformas no presente; por outro, foi substituída pela certeza científica, porém revolucionária, de que a sociedade avançava inexoravelmente para o socialismo. Daí a dificuldade do marxismo assumir o legado e caráter utópico. Não obstante, autores heterodoxos resgataram o significado da Utopia concreta enquanto possibilidade da construção do vir-a-ser. [7] Se a Utopia é o devir, o futuro sonhado no presente, o princípio da esperança nutrido pela práxis humana, então, o marxismo é utópico! Ou não?!


[1] BLOCH, Ernst. O princípio esperança. Rio de Janeiro, EdUERJ; Contraponto, 2005 (Vol. 1), p. 155.

[2] A propósito, sugiro a leitura de O marxismo é religião?, publicado em 19.05.2012.

[3] Ver: HAUPT, Georges. Marx e o marxismo. In: HOBSBAWM, Eric J. (Org.). História do Marxismo, Vol. I. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1980, p.347-375.

[4] Editora Global, 1980.

[5] Sobre o socialismo pré-marxista, ver: HOBSBAWM, Eric J. Marx, Engels e o Socialismo Pré-marxiano. In: HOBSBAWM, Eric J. (Org.). História do Marxismo, Vol. I. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1980, P. 33-66.

[6] Para a contraposição ao argumento de Engels, sugiro a leitura de: BUBER, Martin. O Socialismo Utópico. São Paulo: Editora Perspectiva, 1971. Ver Martin Buber e o conceito de Socialismo Utópico, de 28.10.2012.

[7] Sugiro a leitura de Sonhos, desejos e esperança!, publicado em 01.06. 2013.

8 comentários sobre “O Marxismo é Utopia?!

  1. Ozaí agora que abri o debate atual sobre as utopias marxistas. É difícil e apaixonante essa discussão. As paixões tendem ás idealizações, logo às utopias. Acredito, que o devir é uma idealização necessária, na medida em que nos impulsona o questionamento, à mudança de paradigmas.

    abraços,

  2. Descartes se esforçou para descobrir uma base para o conhecimento seguro,iniciou uma verdadeira revolução. A verdade revelada que manteve uma autoridade objetiva exterior à humana, começa a perder a sua validade e a sujeitar-se à afirmação pela Razão. A dicotomia entre a substância pensante e a substância externa emancipou o mundo material da sua associação à crença religiosa. Agora a ciência estava livre para analisar o mundo, sem que as crenças e dogmas teológicos a restringisse nesse caminho. Para Espinoza, a felicidade é a capacidade de conseguirmos muitos e bons encontros. Bons encontros são exatamente aqueles que potencializam a nossa capacidade de existir. E o exercício para nos afastar cada vez mais daquilo que nos leva à tristeza é, em última análise, o exercício da imaginação.Isso porque os objetos emocionalmente competentes podem tanto estar presentes concretamente a nós, bem como podem estar presentes apenas enquanto recuperação da memória. Isso é irrelevante enquanto resultado, pois existente em realidade ou em imaginação, o efeito no corpo é o mesmo. Espinosa nos ensina como nos livrar daquilo que ameaça em nós a potência de existir e a “ pedra fundamental” de um sistema ético, que prescreve a união e a concordância entre todos como meio de fortalecimento mútuo. “ Se dois indivíduos de natureza igual se juntam, eles compõem um indivíduo duas vezes mais potente do que cada um deles considerados separadamente o outro na construção e manutenção de um “estado forte e democrático”.: (ÉTICA. Parte III proposição 28 e Demonstração). A biologia nos empurra ao encontro com os outros no sentido de “existirmos juntos”, fortalecendo ainda mais o nosso “conatus social”. O social (o Estado) se transforma num grande corpo, constituído de muitos outros indivíduos, como lembra-nos Espinosa quanto à organização da natureza. Assim também se transformaria a grande coletividade que, constituída de muitos outros indivíduos, tornar-se-ia um só e o mais potente dos corpos – o “corpo social”.
    Por causa do fanatismo e também do grande temor de que fossem abalados os fundamentos sagrados da sociedade, Espinosa o grande mestre, que foi educado na cultura e religião judaica, sofreu a acusação de anti-semitismo. No verão de 1656, a Sinagoga de Amsterdão puniu Espinoza com o chérem ; Espinosa foi excomungado.

    Seguiu-se então a mentira.: “É preciso mentir como um demônio, escrevia Voltaire. Os filósofos elaboraram uma doutrina abstrata, impressionando os espíritos menos críticos. O socialismo universal! Cabendo as organizações profanas prosseguir…. O sonho messiânico da cidade ideal passou a ser obsessão…. Karl Max edificado, produzido, pelo judaísmo e respeitando antigos princípios…:: os chefes das massas violentas são reis, mas o dinheiro é deus; os demagogos dominam as multidões, mas os financeiros são senhores dos demagogos, e, em último recurso, a riqueza difusa do país, os bens rurais, e os bens imóveis, pagam, ENQUANTO DURAM, as custas do movimento, porque, o regime demagógico favorece às intrigas da finança e da revolução.

    Lembremos então, do grande mestre Espinosa que foi condenado com o chérem : Espinosa desejava ao indivíduo que, com o auxílio do conhecimento e da razão, reflitisse sobre sua vida, na perspectiva da eternidade e na perspectiva da imortalidade de cada um. O resultado de todo esse exercício mental, será a liberdade, uma liberdade radical, traduzida pela redução da dependência em relação aos objetos que eventualmente nos escraviza. Só o conhecimento das afecções da mente e o exercício sistemático do uso da razão possibilita-nos atingir o equilíbrio necessário para vivermos felizes, para atingirmos a beatitude, da qual fala o filósofo . (ÉTICA. Parte IV. Proposição XLVI. Demonstração).

  3. Vivemos num período de hegemonia do capital. Todavia, como afirmou Hobsbawm, a história sempre tem um epilogo… A concepção de história imutável, linear e mecânica rumo ao “progresso” é evidentemente um mito das ciências sociais de cunho positivista. Mas que perpassam o senso comum como um axioma inevitável. Nesse contexto sócio-cultural as pesquisas que visam o amanha, sim, a história do futuro (como no título do célebre livro do Pe. Antonio Vieira), os sonhos concretos e não abstratos de um devir melhor, não precisariam de justificativa, este sim deveria ser o axioma. Como afirmou Ernst Bloch, no terceiro volume do Princípio Esperança, a utopia quando relacionada ao materialismo histórico ganha “algo sobre seus pés”, é uma dialética na qual “se pode caminhar” diferentemente das utopias abstratas de caráter hegeliano.

    Sobre a necessária provocação do autor sobre Marxismo e religião, há um debate que corresponde ao tamanho da provocação. Não vejo o Marxismo como uma religião secularizada, ou espécie de teologia como alguns autores tentaram pintar o barbudo, contrapondo alguns autores que insistem em ver certo idealismo em suas primeiras obras, é o caso de Robert Tucker: “Karl Marx, filosofia e mito”. Ser um discípulo de Hegel, não significa ser necessariamente idealista, mas compreender a história de forma dialética. Por outro lado, concordo com a afirmação do professor José Carlos Reis de que o “iluminismo transformou a profecia em utopia”, secularizando-a. Os desdobramentos dessa aproximação todos conhecemos na “Teologia da Libertação”, pois como afirmou Frei Betto, “Marxistas e cristãos têm mais arquétipos em comum do que supõe a nossa vã filosofia”. Vale também citar uma passagem de Dom Helder Camara: “Quando eu pedia às pessoas que ajudassem os pobres, era chamado de santo. Mas quando fazia a pergunta: por que existe tanta pobreza? Era chamado de comunista”.

    Essa dimensão, que se poderia chamar de “uma teologia profana”, que faltou ao marxismo ortodoxo do século XX, foi usada descaradamente pelo nazismo e seus ideólogos. Bloch vai tentar demonstrar na “Herança deste tempo”, como o nazismo soube capitalizar este passado subjacente, meio mítico e inconsciente, ao passo que a esquerda em geral e, sobretudo, o partido comunista alemão, se enganaram ao desprezá-lo. O nazismo, segundo Bloch, triunfou porque a esquerda alemã, inclusive o Partido Comunista Alemão, baseou a sua política sobre uma visão simplista da evolução histórica. Imaginavam que se inaugurava, em particular depois do duplo impacto da derrota militar imperial e do êxito bolchevique russo, um novo período que era só necessário consolidar para que a República de Weimar caminhasse forçosamente para a instauração de um paraíso socialista. (FURTER, 1974,p. 60).

    Os nazistas podiam assim aspirar à sucessão do movimento revolucionário de esquerda, capitalizando as aspirações frustradas. Ainda mais, podiam se afirmar mais revolucionários do que os “vermelhos”! A propaganda nazista orquestrou a jamais vista mistificação cultural, intelectual e política, enganando a cristãos e a socialistas, a cientistas e filósofos (que se pense nas primeiras atitudes de Heidegguer), a pedagogos (O. F. Bollnow) e a artistas. Esta identificação ainda hoje permite a certos inconscientes equipararem a “revolução” nazista com a libertação marxista. Portanto, o nazismo conseguiu a convergência dos mais diversos tempos existentes na sociedade alemã no começo do século. Quais eram esses tempos: 1) Havia, primeiro, os tempos míticos. O “tempo periódico” ou “recorrente” de uma população apegada às suas crenças arcaicas, que se expressarão, por exemplo, no mito da “terra e sangue”. 2) O “tempo messiânico” que se expressa na Alemanha durante muitos séculos pela espera do herói político. 3) O “tempo apocalíptico” que afirma que surgiria e se instalaria na Europa o Terceiro Reino, o paraíso do Espírito Santo e da Felicidade. Mito que atravessou não só toda a Europa, como também os séculos desde Joaquim de Fiore, até Hitler com o seu grotesco e trágico Terceiro Reich. 4) Tempos puramente sociais como o “tempo recessivo” caracterizava a visão de mundo da pequena burguesia, que se encontrava naquela época em recessão econômica e de inflação, esmagada por uma proletarização de fato à qual só poderia opor uma exaltação moralista das suas impossíveis virtudes. 5) Havia também o “tempo vazio”, o tempo zero, das grandes massas urbanas. As massas esperavam sair de sua condição miserável de lumpenproletariat para tornarem-se bons cidadãos, isto é, pequenos burgueses aceitos e integrados. 6) Havia enfim, o “tempo processivo” que valorizava as mudanças – mas de maneira formal somente. Ignorava as opções, as escolhas e as decisões que cada mudança devia na realidade implicar. Este tempo era o último traço do “tempo revolucionário socialista”. (Cf. FUETER, 1974, p. 63, 64, 65).

    A força do nazismo veio da sua capacidade de unir todos estes tempos numa visão sintética do “Terceiro Reich” em que todos teriam acesso a felicidade.

    Logo se vê que a problemática do tema, proposto pelo professor Antonio Ozaí é bastante complexa e necessária. Estarei acompanhado de perto e com enorme interesse os resultados do grupo de estudos.

  4. Se marxismo for um horizonte crítico para desnaturalizarmos as relações sociais baseadas na desigualdade e a lógica de classe que permeia a configuração das instituições, será sempre atual enquanto praxis histórica. Se por “utopia” entende-se devir, este não é evolutivo-linear, mas histórico-dialético. O evolucionismo normatiza o futuro; uma abordagem histórico-dialética complexifica muito mais a relação entre experiência e horizontes de expectativas, pois tais horizontes mudam à medida que novos presentes vão sendo socialmente configurados. Vejam a sutileza filosófica da Teses contra Feuerbach.
    O fundamental é não normatizar o “fim da história”, seja lá por qual viés for. A filosofia marxista, para ser coerente com a dialética histórica de seu materialismo filosófico, deve necessariamente se renovar e se refinar com as novas materializações da sociedade no tempo. O marxismo não se esgota em Marx ou na geração da segunda internacional.

  5. Me ocorre em fim de leitura até que ponto o cientificismo do século XIX nao teria deixado marcas indeléveis na visao de mundo daqueles que mais lutaram e mais morreram em defesa da classe operaria dos duros tempos da revoluçao industrial, marcas essas guardadas como reliquias ideologicas. Em todo caso, a epigrafe escolhida, linda e impactante, é que para mim vem trazer novas luzes à ideologia do proletariado, contrariamente à poeira acumulada sobre a oposiçao entre “ciência burguesa” e “ciência proletaria”, que aplicada rigorosamente, por exemplo, tornou tao melancolido o final daquele maravilhoso estudo que é a “Historia da riqueza do homem”.

    • Regina,

      boa tarde.
      Obrigado por ler e comentar.
      Suas palavras são instigantes e, acredito, tocam na questão central. Parece-me que a ciência e a Razão tornaram-se paradigmas que influenciaram, e muito, os que almejavam transformar o mundo. Inclusive, desde F. Bacon, com a obra “A Nova Atlântida”, podemos vislumbrar uma “utopia técnica”. Gostei da lembrança de “História da Riqueza do Homem”. É uma das obras da minha formação.

      Obrigado.
      Abraços e ótima semana

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