Marxismo, ideologia e religião

entre-mito-e-politica-jean-pierre-vernant-frete-gratis_MLB-F-4563739148_062013*Jean-Pierre Vernant (1914-2007), intelectual de formação marxista, jovem comunista da Resistência Francesa durante a Segunda Guerra Mundial e membro do Partido Comunista Francês no pós-guerra, diferencia o “marxismo de Marx”, uma “metodologia crítica indispensável para colocar corretamente questões de história”, do marxismo como “catecismo revisto e corrigido, às vezes censurado, ao qual foi reduzido, primeiro para justificar determinada prática política, em seguida para justificar um sistema de Estado burocratizado e de governo autoritário”. Este marxismo de catequese, a palavra transformada em dogma, verdade sagrada e absoluta, “aparece como um substituto da religião trazendo a seus fiéis certezas e respostas prontas, o que evita que eles pensem em perguntas embaraçosas. Entre os dois, a diferença talvez seja da mesma ordem que entre mito e razão” (p. 56).[1]

O marxismo religioso pressupõe mais do que adesão, exige a conversão, ou seja, a introjeção acrítica da ideologia à maneira religiosa. Neófitos e prosélitos da fé profana amparam-se em livros elevados à categoria de sagrados, em autores e líderes cujas palavras são inquestionáveis; autoridades que, a exemplo dos profetas, denunciam os males do presente e anunciam a mensagem escatológica do paraíso na terra. Eles falam pelos livros, e, em seu nome, estabelece-se cultos e rituais.

Se a religião representa o que há de mais simbólico no homem, o tratamento religioso da ideologia secular implica em desenvolver uma concepção transcendente da realidade. “A religião consiste em afirmar que, por trás de tudo o que se vê, de tudo o que se faz, de tudo o que se diz, existe outro plano, um além. É o símbolo em ação” (p. 64). A ideologia, na medida em que assume um caráter escatológico, também se coloca, no plano do simbólico, para uma ação que visa o “além”, um objetivo final que está para além da realidade social vivenciada pelos homens e mulheres concretos do presente. É o futuro incerto, mas inscrito no pensamento dos que agem como demiurgos do novo mundo.

A ideologia como religião é maniqueísta e messiânica. Estabelece-se diante da idéia de que existe o bem e o mal, e que o mal é encarnado pelo Outro (classe social, grupos, indivíduos, adversários, inocentes úteis que fazem o jogo do inimigo, solapam o bem e alimentam o mal etc.). O complemento deste maniqueísmo é a idéia de que cumprimos uma missão salvadora e libertadora. Vernant, ao rememorar a sua militância comunista à época da juventude, afirma que, para alguém da sua geração, “ser comunista era pensar que estávamos entrando num período de confrontos decisivos contra as forças do mal. Não era apenas o destino individual que estava em jogo, mas o de toda a humanidade” (p. 468-469).[2]

Esse caráter redentor – “estar aqui pela humanidade” ou por uma classe social cuja missão é redimir a humanidade – revela uma certa fé ingênua. “Havia de minha parte muita ingenuidade, uma ingenuidade humana e intelectual. Eu vivia nos livros, e acreditava também que as teorias marxistas, as teorias revolucionárias deveriam inscrever-se necessariamente na ação daqueles que as adotavam” (p. 469). A teoria transforma-se em doutrina justificadora da ação. Se a realidade é incompatível com a doutrina, azar dela.

O fanatismo é outro traço religioso da ideologia. Ele se traduz no “culto ao líder”, na fidelidade cega à liderança e à ideologia encarnada por ela. É sintomático que, a despeito dos fatos históricos, personagens como Stalin ainda encontrem defensores e seguidores. É mais uma das características da ideologia enquanto religiosidade. A fé religiosa não admite a dúvida e, ainda que confrontada com a realidade, mantém-se firme e convicta. O marxismo religioso adota procedimento semelhante. Como atesta Vernant: “O que foi chamado na época de Kruchev, de “culto da personalidade’ fazia da pessoa de Stalin no topo do Estado, na URSS, uma entidade com valor propriamente religioso, sacramental, e foi transposto até mesmo para a França – com algumas nuanças” (p. 480). O culto ao líder foi um dos alicerces do stalinismo, mas a idolatria transcende a figura de Stalin. A ideologia não prescinde do culto aos ídolos, sejam eles quem forem. Não é por acaso que os diversos ismos em que se dividem os marxismos originam-se de nomes próprios!

Um dos aspectos vinculados às religiões é o medo. Não é apenas o temor da condenação e tudo o que representa não ser salvo. Paradoxalmente, o crente ama e teme a divindade; aceita e voluntariamente submete-se. Os sacerdotes, e outros que falam em seu Nome, nos lançarão diante do horror que ameaça consumir o corpo e alma. Em nome Dele, e para evitar o terror das trevas, muitos estão dispostos a fazer cruzadas e combater as heresias, nem que seja preciso consumir no fogo corpos e almas.

Ideologias também sacrificam os seus hereges no altar da ortodoxia secular, condenam as ideias exterminando os corpos que as abrigam e, assim, reproduzem a inquisição em suas formas de tortura e morte. Se o herege religioso é condenado ao inferno, a heresia política expressa o pecado ideológico imperdoável. Num caso, o terror religioso; no outro, o terror político. Ambos exigem fidelidade absoluta. Mas é um terror incorporado e legitimado ideologicamente. É ingenuidade, ou desconhecimento, acreditar que regimes políticos se sustentam apenas pela repressão. A própria massa é usada pelo e para o terror. “Terror das massas significa que as massas são ao mesmo tempo sujeito e objeto desse terror”. Muitos foram vítimas e o medo se impôs a todos. Contudo, Vernant observa que as massas “também foram sujeito desse terror pois, junto com a passividade, era acompanhado por uma espécie de participação, pois os discursos oficiais davam a entender que o inimigo estava em todo lugar, que era preciso proteger-se dele com os procedimentos da “democracia de massa”, ou seja, notadamente, com a denúncia, o que permitia que as massas colaborassem com o terror pendurado sobre suas cabeças. Esse fenômeno extraordinário do terror interiorizado faz com que os homens da minha geração, na União Soviética, permaneçam marcados por esse medo, medo que fazia com que não pudessem falar, nem mesmo consigo mesmos” (p. 480).

Nestas condições, há espaço para uma relação de cunho religioso entre governante e governados, pensamento e ação. A URSS aparecia aos militantes como uma espécie de Jerusalém sagrada, Meca ou a utopia milenar realizada. Ela “representava para nós o socialismo realizado e, apesar da contradição nos termos, a utopia encarnada, a utopia que se tornou Estado. Éramos uma espécie de grupo religioso de tipo milenarista, com tudo o que isso implica em termos de fé, com a diferença de que os novos tempos já haviam chegado” (p. 482). Isto também era encarnado na relação fideísta com o partido. Via-se este como uma espécie de “contra-sociedade, e eu diria até como família, ou, como seria mais exato, como fraternidade. Era de fato o que sentíamos” (Id.).

Neste contexto, a ideologia marxista assume caráter religioso e irracional: “Não só porque era incrivelmente simplificadora, mas também e principalmente porque excluía todo esforço de reflexão pessoal, toda atitude crítica, toda mobilização da inteligência. Era ensinada como uma espécie de credo, uma bíblia à qual era preciso aderir, e essa bíblia tinha poucas relações com a vida concreta dos jovens aos quais se impunha esse castigo. Logo, para eles, a verdade “científica” e o ensino eram ao mesmo tempo algo muito rasteiro, sem relação com sua realidade, em que deviam acreditar ainda assim como um dogma sem questioná-lo” (p. 498).

O homem é anulado. Só lhe resta submeter-se ou desempenhar um papel religioso em relação ao partido, ao líder. Fora disso, é o inferno: “Costumo dizer que o sistema totalitário é aquele que faz com um homem sentado no banheiro, na solidão oferecida pela porta fechada e trancada, é tomado pela angústia, pelo terror e por um intenso sentimento de culpa se de repente ocorre-lhe uma idéia subversiva ou insólita. Em um sistema totalitário, com efeito, aderimos a nosso medo, tornamo-nos lisos, sem nenhum lugar em que possamos nos agarrar e de onde possamos recusar” (p. 508).

Há numerosas formas de expressar e vivenciar a crença ideológica e autoridades a definir qual a leitura ortodoxa sacramentada: “Mas como as formas de ler estabelecidas por essa autoridade eram mutáveis segundo as circunstâncias políticas, os modos de crença podiam variar segundo os indivíduos. Conheci bons comunistas, para começar eu mesmo, totalmente incrédulos no campo da ideologia, depois da guerra assim como o foram antes da guerra, mas que, entretanto, permaneciam completamente fiéis no plano político” (p. 510). Havia os irremediavelmente crentes, os que se recusaram, a despeito de todas as evidências, a abandonar a “igreja”, aqueles cuja crença “ia além do último suspiro” e que desejavam o enterro oficial no seio da “Igreja” (Id.). A experiência de Jean-Pierre Vernant mostra o quanto, sob determinadas circunstâncias históricas, a ideologia transubstancia-se em religião, ainda que afirme-se ateísta e vincule-se ao mundo profano. O mesmo pode ser observado no relato de Eric. J. Hobsbawm.[3]


* Para a reflexão sobre o tema sugiro também a leitura de O marxismo é religião?, publicado em 19/05/2012; e, O marxismo é utopia?!, de 06/07/2013.

[1] VERNANT, Jean-Pierre. Entre Mito e Política. São Paulo: Edusp, 2002. Todas as citações são desta obra.

[2] Sugiro a leitura de HOBSBAWM, Eric J. Tempos interessantes: uma vida no século XX. São Paulo: Companhia das Letras, 2002, em especial, o significado de “ser comunista” relatado por ele. Ver O marxismo é religião?, publicado em 19/05/2012.

[3] Idem.

6 comentários sobre “Marxismo, ideologia e religião

  1. Parabéns pelo texto professor! Nada como um marxista lúcido, capaz de autocrítica. Uma das coisas mais desanimadoras dos tempos nos bancos universitários foi me deparar com o “culto” ao marxismo. Qualquer um que se opunha a ele, era taxado de reacionário, alienado, etc. Talvez o próprio Marx tenha tido certa culpa, ainda que não deliberada, por seu estilo literário. Um artigo sob tal perspectiva seria ótimo.

    • Eduardo,

      bom dia.
      Obrigado por ler e comentar.
      Concordo que o estilo do próprio Marx contribui para a prática da exegese e, consequentemente, a disputa sobre a “verdadeira interpretação” e o “verdadeiro marxismo”. O Pierre Bourdieu tem uma ótima análise sobre isto. Sugiro a leitura de: P. Bourdieu. A economia das trocas lingüísticas: O que fazer quer dizer. SP: EDUSP, 1996, especialmente “O discurso da importância – algumas reflexões sociológicas sobre o texto “Algumas observações de ‘Ler o Capital’”; pp.159-176.

      Obrigado pela sugestão.
      Abraços e tudo de bom

  2. Salve professor! Excelente texto.
    Uma professora, Maria Ribeiro do Valle, com quem tive a satisfação de iniciar meu aprofundamento na obra de Marx, na Unesp Araraquara, fazia uma distinção que julgo extremamente apropriada: é preciso que saibamos diferenciar, inicialmente, o que é o pensamento “marxiano” (Marx, ele mesmo) e o que são os pensamentos, ou linhas, marxistas.
    Logicamente, não seria justo simplesmente descartar tudo o que não é marxiano, mas é necessário cuidado ao lidar com leituras, interpretações a apreensões das diversas formulações marxistas, para não corrermos o risco de nos tornarmos “papagaios” que reproduzem distorções e, também, estupidez em forma de discurso ideológico vazio e sem aplicação na realidade.
    Dizer algo como “os índios deveriam ser todos civilizados, pois já foram atropelados pela roda da história” é um exemplo dessa estupidez. Sim, há “marxistas” a defender tal prática e a dizer que a manutenção de tais “culturas exóticas” cria espécies de “zoológicos” culturais e sociais. Estes mesmos “marxistas” também se prestam tachar a defesa de tais culturas como uma atitude reacionária. Em última análise, pergunto: Quem seriam os reacionários, em tal circunstância? Como fica a autodeterminação dos povos? Existem povos que possam ser considerados mais “povos” do que outros? A “terraplanagem” de uma cultura en nome da inexorável “roda da história” não seria a prova, ou no mínimo a evidência, de que certos “marxistas” estejam considerando o “progresso”, a “ciência” e a “modernidade” a partir de uma ótica, bem dizer, religiosa?

  3. Penso que não podemos ficar presos a instituições ou a vanguardas que se intitulam donas da verdade. Considero fundamental a organização e a vida social. A liberdade, a igualdade e a solidariedade precisam caminhar juntas. A religião e a ideologia são entraves a isso, bem como as classes sociais e o Estado. A questão em aberto é como conseguir superar o capital para alcançar esses objetivos e chegar a autogestão. Não acredito que isso seja possível dentro do modo de produção capitalista, com comunidades isoladas ou comportamentos individuais. Sem dúvida, não basta extinguir a mais valia e tampouco o Estado. É preciso desde o nascedouro de qualquer organização constestatória, questionar e lutar contra relações de poder autoritárias. Nossa condição histórica, social, não pode ser entendida como “natureza humana”. E justamente por ser histórica e social essa condição humana é sempre mutável. Nossa busca, pensando a realidade como contraditória e sempre em superações, entendo ser no sentido de educação crítica constante, onde o educador se educa educando. A aposta é nas organizações com participação crescente, direta e qualitativa dos indivíduos, lutando contra os donos do poder e do capital, como também contra os resquícios de autoritarismo dentro de cada um de nós. Não existe receita, a realidade não é dada, está sendo construída. Por isso, no momento eu estou concordando com algumas coisas da obra de Marx, de Proudhon, de Bakunin e discordando de outras. Nesse sentido, no momento penso que estou na condição de marxista sem dogmas. Portanto, heterodoxo, como diria o saudoso Maurício Tragtenberg.

  4. Antonio
    Bom dia

    A Crítica a Marx e a sua doutrina o Marxismo, inventada ou não por ele, mas com milhões de seguidores, já fora objeto de acoima no debate travado no seio do Movimento Operário ainda no Século XIX. Mesmo alguns marxistas, embora minoritários, efetuaram durante todo o Século XX criticas a forma centralizadora e monocrática das decisões tomadas no seio do Partido, ou na administração de Estados. A ditadura do partido único se sacralizou com a doutrina bolchevista e ainda se mantém na rédea de vários Estados em pleno Século XXI, não aceitando qualquer forma de dissidência. O grave dessa situação é que esses Estados autoritários no momento inclusive auxiliam na manutenção de governantes sanguinários com os quais travam lucrativos negócios. Mesmo o Brasil mantém relações comerciais de magnitude com a ditadura chinesa. Negar a influência do marxismo em diferentes áreas do conhecimento é miopia e atitude singela. Nossas academias inclusive vivem a luz de uma realidade dicotômica, ou seja, de um lado os que se intitulam liberais controlando a maioria das instituições e por outro mestres e doutores inspirados nas idéias da ditadura do proletariado que supostamente pregam a derrubada das amarras neoliberais. Nós imodestamente em contraposição ao bolchevismo e ao neoliberalismo seguimos lutando por uma sociedade plural, horizontal, sem ditaduras, sem partidos, sem igrejas e sobremodo sem Estado. Política para nós ainda se faz, como sempre se fez no seio da sociedade, na desobediência civil, no não pagamento de impostos, no boicote as indústrias da morte, na luta contra a escravidão, nos movimentos difusos que assegurem sobremodo a pluralidade de idéias e movimentos.
    Caxias do Sul, 11 de agosto de 2013.
    Pedro

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