A força do hábito!

“… o longo hábito de não pensar que uma coisa seja errada lhe dá o aspecto superficial de ser certa, e ergue de início um temível brado em defesa do costume. Mas o tumulto não tarda em arrefecer. O tempo cria mais convertidos do que a razão” (Thomas Paine)[1]

“Old Habits Die Hard” (Mick Jagger)

Por que é tão difícil mudar os hábitos? Por que nos apegamos desesperadamente aos costumes e às tradições? Por que tememos o novo? A necessidade de segurança é uma resposta possível. O hábito, os costumes e as tradições representam o porto seguro, o conhecido e vivenciado que resiste ao passar do tempo. Produzem certezas, nutrem a segurança ontológica necessária ao indivíduo.[2] Esta diz respeito ao sentimento que temos sobre a continuidade das coisas e das pessoas; um sentimento inculcado desde a infância e que se vincula à rotina e à influência do hábito. A necessidade de “segurança ontológica” produz novo ambiente de confiança.[3]

A confiança é fundamental para o sentimento de segurança, os hábitos suprem esta necessidade. A rotina é um poderoso freio às transformações sociais e individuais. Revoluções promovem rupturas nos hábitos, solapam as tradições e os costumes. Mas as profundas alterações econômicas e políticas estruturais não mudam necessariamente a forma de sentir e pensar das pessoas. A tradição persiste, o material humano que tem a missão de construir o mundo novo, o novo homem e a nova mulher trás em si o velho mundo, as velhas crenças, valores e costumes. É muito difícil consolidar o novo. As tradições são reinventadas, o desejo de ordem alimenta a institucionalização do que se pretende novo.

O caos gera insegurança, a revolução dos hábitos, costumes e tradições necessita reinstituir a segurança do ser no mundo. Não é possível simplesmente rejeitar o passado, apagar de forma voluntarista as crenças e valores que constituíram os seres humanos construtores da nova ordem. As soluções autoritárias mostram-se insuficientes. O sacrifício de vidas, o sangue humano que fertiliza o solo das utopias autoritárias é jorrado em vão. O holocausto exigido pela Revolução revela-se incapaz de cumprir a promessa do paraíso na terra!

Por outro lado, a necessidade de segurança expressa a contradição dos processos revolucionários. A partir de certo estágio, a revolução torna-se conservadora, institucionaliza-se e consolida novos hábitos. A ordem deve reinar novamente! O futuro precisa ser protelado em nome das necessidades prementes. Claro, persiste a retórica revolucionária, necessária para legitimar ideologicamente a nova ordem instituída. Mas a prática cotidiana se impõe e a rotina social e política burocratiza-se. Eis o dilema dos arquitetos de novas sociedades, construtores utópicos dos novos mundos.

É também um dilema individual. Nos debatemos entre o desejo e o medo de realizá-lo, entre a realidade e a possibilidade. Almejamos o novo, mas precisamos desesperadamente nos sentir seguros. Queremos navegar por novos mares e caminhar por novos territórios, mas nos apegamos ao porto seguro. Queremos o futuro, mas nos prendemos ao passado e ao presente. Somos inconformistas, mas a necessidade de segurança nos lança nas malhas do conformismo. Nos atiramos com toda a força nas veredas das rupturas, mas a força do hábito se impõe. Somo seres divididos, angustiados diante das incertezas; seres em dúvida, sem certezas absolutas, cindidos entre a ruptura e a tradição, a busca do novo e o apego aos velhos hábitos incrustados em nosso ser. Sorte tem os conformistas, sempre tão seguros e plenos de certezas. Sorte dos inconformistas que se protegem em fortalezas imaginárias e parecem imunes à realidade, necessariamente contraditória.


[1] PAINE, Thomas. Senso Comum e outros escritos políticos. São Paulo: IBRASA, 1964, p. 3.

[2] Ver GIDDENS, Anthony. As conseqüências da modernidade. São Paulo: Unesp, 1991.

[3] Retomo a reflexão Modernidade e Segurança Ontológica, publicada em 06/10/2007.

 

6 comentários sobre “A força do hábito!

  1. O velho e o novo talvez seja o exercício da inquietude humana, que em alguns momentos de nossas vidas vão ser praticados nos levando a um outro momento.

  2. Revolucionar pode ser a tentativa de ser o futuro conservador que vai salvar o mundo. O escrito provoca tanto a reflexão quanto a autoreflexão. Continue nos provocando, professor.

  3. Tal vez tenhamos errado na ideia de ser revolucionario….talvez a verdadeira revoluçao nao seja tanto propiciala , nem alcalça-la mas sim ter a posibilidade de avisora-la. uma revoluçao mais para dentro que para fora…penso em GANDI…

    E PENSO NA MULHER QUE VI ONTEIM DORMINDO NUMA CAIXA DE PAPELAO AQUI EM MARINGÁ E SOMENTE PAREI PARA FALAR COM ELA POR CAUSA DO DESAPARECIMENTO TRAGICO DO NOSSO VIZINHO QUE ME FEZ REPENSAR EM COMO NOS, ESTAMOS DESHUMANIZADOS E COMO JA NAO NOS IMPORTAMOS COM OS OUTROS…..VI ELA CHORAMDO …MAS EU NAO PAREI POR QUE ELA ESTAVA CHORANDO OU POR QUE ESTAVA DENTRO DE UMA CAIXA …..CHEGUEI A CONCLUSSAO QUE NAO EXISTE REVOLUÇAO FORA DA GENTE.

  4. Antonio
    Bom dia

    Talvez o conflito entre o novo e o costumeiro seja algo próprio da natureza humana. A mesma sede por segurança (conservadorismo, tradições, hábitos as vezes nada salutares como o álcool, o açúcar, o tabaco, a automedicação) move o homem rumo ao desenvolvimento de novas tecnologias, novos produtos, novos confortos, os quais em pouco tempo também se tornam obsoletos. Não quis “me” desfazer ainda da “velha” televisão de 21” e do aparelho de DVD. Há seu tempo eram o que de mais moderno havia. Embora dê pro gasto a TV de LED com Hi-Fi, comprada a poucos meses, com certeza já caminha acelerado para a reciclagem. Já é realidade a substituição dos computadores binários pelos quânticos. O “poblema” todo ainda é o do acesso, milhões tem sequer o que comer enquanto outros habitualmente desperdiçam toneladas de alimentos. Os povos paleoameríndios (cito esses por estarmos mais próximos) mostram tradicionalmente uma convivência mais regrada com o meio ambiente, coisa que o “civilizado” culto, especializado e abençoado pela revelação teima estupidamente em ignorar. O novo, portanto nem sempre é útil, como o tradicional também pode emperrar a harmonização entre iguais. Particularmente apostaria na educação, na leitura, na pesquisa, na difusão pelos MCS dos valores da natureza e sobremodo sua preservação.

    Cordialmente
    Pedro
    Caxias do Sul, 25 de agosto de 2013.

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