Por que as mulheres legitimam a dominação masculina?

“…é ainda mais surpreendente, que a ordem estabelecida, com suas relações de dominação, seus direitos e suas imunidades, seus privilégios e suas injustiças, salvo uns poucos acidentes históricos, perpetue-se apesar de tudo tão facilmente, e que condições de existência das mais intoleráveis possam permanentemente ser vistas como aceitáveis ou até mesmo como naturais” (Pierre Bourdieu)[1]

Sou do tempo em que era comum guardar páginas e recortes de jornais e revistas. Hoje, organizamos arquivos em pastas no computador. Ainda assim, mantenho o hábito de guardar textos das revistas que recebo para leitura posterior. Termino por aumentar a pilha de papéis, pois o envolvimento com a rotina e a urgência de outras prioridades fazem com que a tarefa fique relegada ao futuro incerto. Não obstante, na minha desorganização organizada encontro tempo para dar conta das pendências. Então, termino por me surpreender com as coisas que guardo: umas nem fazem mais sentido, pois eram conjunturais e o tempo anulou a motivação; outras, simplesmente deixam de despertar o interesse – o que me faz pensar no tempo que consumimos com algo que nos parece muito interessante em determinados contextos da vida, mas que, passado o momento, dilue-se e torna-se descartáveis. Mas, há aqueles assuntos que, infelizmente, permanecem atuais. Seria melhor que também eles tivessem perdido o sentido de ser. A realidade, contudo, teima em persistir.

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Manuseio os papéis empilhados sobre a mesa e deparo-me com uma matéria da revista Retrato do Brasil cujo tema é a situação das mulheres na Arábia Saudita. O título chama a atenção: “Elas querem a direção”.[2] Inicio a leitura e fico abismado! O texto informa que naquele país, em pleno século XXI, as mulheres são proibidas de dirigir automóveis! A segregação sexual é a norma na sociedade, as mulheres não podem comparecer aos tribunais e o direito ao divórcio depende de uma declaração do marido. Além disso, toda mulher é tutelada por um homem (pai, irmão ou marido). Tais “guardiões” influenciam suas escolhas em todas as esferas da vida.

Fico ainda mais perplexo ao ler o depoimento de mulheres que apoiam a tutela masculina – o que ilustra bem a complexidade da questão de gênero, na medida em que lá, como aqui, as mulheres introjetam os valores considerados machistas e reproduzem-nos como esposas, mães, etc. Em reportagem no The New York Times, publicada em maio de 2010, a jornalista Katherine Zoepe relata a história de Rowdha Yousef: “Com 39 anos, divorciada, mãe de três filhos, ela atua como conselheira voluntária em casos de abusos domésticos. Na conversa com a jornalista, Rowdha se mostra ativista contra as ideias libertárias. Com 15 outras mulheres, ela iniciou na internet a campanha denominada “Meu guardião sabe o que é melhor para mim”, que, em dois meses, conseguiu uma petição solicitando ao rei “punição para aqueles que pedem por igualdade entre homens e mulheres, mistura de homens e mulheres em ambientes mistos e outros comportamentos inaceitáveis”. Rowdha diz que as mulheres que querem acabar com a tutela têm problemas pessoais com os homens. “Se ela está sofrendo por causa de seu guardião, pode recorrer à corte da Sharia [código de conduta religiosa] e pedir a substituição por alguém mais digno de confiança”.[3] Noura Abdulrah, a primeira mulher a ocupar um cargo ministerial na Arábia Saudita, também defende a tutela masculina: “Como mulher saudita, quero ter meu guardião. Meu trabalho requer de mim ir a diferentes regiões da Arábia Saudita e, durante minhas viagens, sempre levo meu marido ou meu irmão. Eles não solicitam nada em troca – eles somente querem estar comigo”.[4]

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Estamos no século XXI, mas as trevas de regimes políticos conservadores-teocráticos persistem como se fossem naturais. A fusão do Estado com uma concepção estreita e intolerante da religião são os pilares que sustentam a exclusão das mulheres e perpetuam a dominação masculina. Mas também devemos considerar os valores e costumes arraigados na sociedade, cuja influência é tão forte que conquista a legitimação até mesmo das mulheres. Como explicar isto? O que diz o multiculturalismo e o feminismo? A realidade social é bem mais complexa do que os nossos ismos!


[1] BOURDIEU, Pierre. A dominação masculina. RJ: Bertrand Brasil, 2005, p. 7.

[2] Ver SARTORI, Armando. “Elas querem a direção”. Retrato do Brasil, nº 49, agosto de 2011.

[3] Idem, p. 18.

[4] Idem, p. 19-20.

21 comentários sobre “Por que as mulheres legitimam a dominação masculina?

  1. Ozai. Lendo os comentários, pensei que as pessoas deveriam se basear nos indicadores, abaixo, para traçar estratégias de combate ao machismo, começando pelos filhos hoje mal criados por mães negligentes, que reproduzem o machismo. Ou qual outra hipótese? Vejam:

    Pesquisa do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada):
    87,8% DOS PESQUISADOS CONCORDAM (TOTAL OU PARCIALMENTE) QUE “TODA MULHER SONHA EM SE CASAR”;
    que “OS HOMENS DEVEM SER A CABEÇA DO LAR” (63,8%);
    que “UMA MULHER SÓ SE SENTE REALIZADA QUANDO TEM FILHOS” (59,5%);
    que “SE AS MULHERES SOUBESSEM COMO SE COMPORTAR, HAVERIA MENOS ESTUPROS” (58,5%);
    que “TEM MULHER QUE É PARA CASAR, TEM MULHER QUE É PARA CAMA” (54,9%)
    e que “A MULHER CASADA DEVE SATISFAZER O MARIDO NA CAMA, MESMO QUANDO NÃO TEM VONTADE” (27,2%).
    AS MULHERES FORAM A MAIORIA DOS 3.810 PESQUISADOS (66,5% DA AMOSTRA). O mais chocante foi constatar que GRANDE PARTE DAS PESQUISADAS CONCORDAVA COM FRASES ESTEREOTIPADAS, PRECONCEITUOSAS E VIOLENTAS CONTRA AS MULHERES.
    Apesar das críticas à amostra, à metodologia e à forma como as perguntas foram feitas –e do fato de O IPEA TER ERRADO E AFIRMADO QUE 65,1% DOS PESQUISADOS CONCORDAM QUE “MULHERES QUE USAM ROUPAS QUE MOSTRAM O CORPO MERECEM SER ATACADAS” (E NÃO 26%, COMO CORRIGIU POSTERIORMENTE)–, o acalorado debate foi importante para refletir sobre A CULTURA DA VIOLÊNCIA EXISTENTE NO BRASIL.

  2. Texto oportuno e provocativo. Mas, meu caro Ozai, não deveríamos RESPEITAR AS DIFERENÇAS CULTURAIS? Algumas áreas de conhecimento – e “certos” cursos universitários – convocam RESPEITO AOS VALORES E REGRAS CULTURAIS, agora não assumem tal contradição ao criticar mulheres que querem ter um homem “guardião, que sabe o que é melhor para mim”? Cada povo com sua cultura ou existe uma “ética universal” que devemos trabalhar as “culturas machistas” ou “bárbaras”??? Ora, o machismo é mais VISÍVEL no mundo islâmico, fundamentalista, mas também deveríamos olhar nosso próprio rabo, no mundo ocidental cristão. Eu mesmo pensava que o assédio sexual ostensivo era apenas praticado no Egito (filme “Cairo 678”, na Índia, conforme manifestações, etc), mas agora crescem as denúncias por aqui, no Rio de Janeiro e São Paulo. No Rio existe carros de trens somente para mulheres!!!.

    Por outro lado, o feminismo pode ser um BOM movimento para a cultura ocidental, porque contribuiu para aumentar a consciência das mulheres, instigá-las à LUTA, mas será que as mulheres do médio oriente e da África, sobretudo aquelas que vivem sob os valores islâmicos cujo sistema patriarcal ainda é dominante, querem mudar tal ordem? Ou aceita “todo o pacote” ideológico made in religião ou fica com culpa, é excluída, sofre isolamento (livro “Lendo Lolita em Teerã”, de Azar Nasifi, conta esta situação difícil da mulher no Irã – agradeço ao Ozai pela indicação deste livro). Na verdade, não estou certo se a mulher da Arábia Saudita está afim de “libertação” a moda ocidental. Talvez algumas mulheres do Egito, do Irã, sim.
    O feminismo HOJE não tem o monopólio e credibilidade para promover a liberdade das mulheres no mundo islâmico. Primeiro, porque me parece que o movimento feminista NÃO é UNIDO em estratégias, nem em ideário. Segundo, hoje existe uma tendência feminista que tem muito pouco de “feminino”, principalmente aquele feminismo cujos atos lembram o fascismo italiano [eu disse “fascismo” e não “nazismo”, conforme Umberto Eco]. Ou seja, o protofascismo feminista: (a) tenta calar a voz patriarcal que sustentou por séculos, milênios, quase toda a sociedade civilizada do planeta; (b) um feminismo-viril copia o que há de pior dos homens: no lugar do estilo machista atuam com estilo viril, que reproduz a discriminação agora contra os homens, contra os heterossexuais; envergam assim a vara de Lênin para o lado feminista truculento, chato, prepotente, e com apoio de boa parte da mídia burguesa.

    EM TEMPO: Já escrevi um breve texto sobre o “machismo das mães” do ocidente cristão. Mais sutil do que as mulheres conservadoras-tradicionalistas da Arábia Saudita, nossas mulheres ocidentais também reproduzem o machismo na educação dos filhos, por exemplo, quando não cobram de eles ajudarem na cozinha, quando se omitem quando eles se gabam de seus atos machistas, etc.

    • Raymundo,

      boa tarde.
      Obrigado por ler e comentar.
      O tema é polêmico e sugere que as fáceis análises fundamentadas em dicotomias são insuficientes para compreender e dar conta dos desafios que envolve. Suas palavras instigam a reflexão e, claro, também a polêmica.

      Abraços e tudo de bom

  3. Prof. Ozaí,
    Saudações!
    Sim, a realidade social é MUITO complexa, mas são os nossos “ismos” que nos ajudam a compreendê-la! Em alguns casos acabam por ser a bandeira de luta diante de tanta desigualdade e opressão. Sem nossos “ismos”, quem somos? O que resta? E, como nossos “ismos”, quem de fato somos? “Linguisticamente” falando, é preciso escolher o melhor SUFIXO e/ou PREFIXO para viver da forma mais RADICAL possível e que realmente exprima o significado que precisamos para os nossos tempos. Esse é o dilema e o desafio! Penso que no título do seu post você quis dizer: Por que ALGUMAS mulheres legitimam a dominação masculina? Ou estou enganada…

    • Cara Iolanda,

      boa noite.
      Em primeiro lugar, meu sincero muito obrigado por ler e comentar o texto.
      Suas palavras são instigantes. A sua pergunta “Sem nossos “ismos”, quem somos?” me fez refletir muito e inspirou a escrita do post https://antoniozai.wordpress.com/2013/10/05/sem-nossos-ismos-quem-somos/ Agradeço, sinceramente. Por favor, não tome a escrita como uma resposta pessoal, pois a sua indagação é também minha. De certa forma, tento me encontrar -e suas palavras foram um estímulo nesta direção. Sobre o título do post, gostaria muito de concordar. Mas, infelizmente, a maioria das mulheres legitimam a dominação masculina. Não fosse assim, não haveria dominação. Com isto, não quero culpabilizar as mulheres, mas apenas apontar para a complexidade do problema (o reducionismo ao “ismo” não resolve, menos ainda o dualismo “machismo X feminismo”. Simplificações e maniqueísmos não são soluções.

      Mais uma vez, meu sincero muito obrigado.
      Permaneço aberto às críticas, sugestões e contribuições.
      Abraços, ótimo domingo e semana,

  4. Caro Ozaí,
    Gostaria de dizer que lamento muito ver um intelectual reduzir um campo teórico e os movimentos sociais à um “sufixo”. Já sai de um grupo de pesquisa na UEM (GAIA) justamente por considerar que o nível de discussão estava raso de mais quando alguns garotos começaram a destilar seus ódios contra as feministas e se negavam a ler os livros indicados. Mas, creio que como se trata de um educador vale o argumento. Abolicionismo, também, termina em “ismo” e ninguém ousaria dizer que a teoria e o movimento pela libertação da escravidão não era “complexa”, pois, terminava em “ismo”. Desde os anos 1970 não se fala em “feminismo” no singular. Haraway, Lauretis, Rubin, Bourcier, Wittig, Rich, Beauvoir e tantas feministas já questionaram o feminino universal e pluralizaram tanto as teorias quanto os movimentos. Agora é claro, ler Bourdieu para falar de feminismo é como ler um texto nazista para explicar o racismo. Não cola! O texto inicia citando um livro machista e conclui dizendo que a violência de gênero é culpa das mulheres. Por favor, temos uma produção muito maior que isso, vale a pena conferir o site: https://periodicos.ufsc.br/index.php/ref. Foi justamente assim que iniciou a Marcha das Vadias: quando um policial de plantão acusou uma garota que usava mini-saia de ser a culpada pelo próprio estupro que ela tentava denunciar. Jogar pedra na Geni, acusar a vitima de estupro ou reduzir os estudos e movimentos feministas à um sufixo não ajuda em nada no combate á violência sexista.

    • Cara Patrícia,

      boa noite.
      Muito obrigado por ler e comentar o texto.
      Seu comentário é instigante e aponta muitos aspectos que concordo. Apenas alerto para o risco de julgamento precipitado! Sugiro que leve em consideração os limites do espaço. De qualquer forma, o texto cumpriu seu objetivo!
      Permaneço aberto às críticas, sugestões e contribuições.
      Abraços e tudo de bom

  5. As mudanças somente ocorrem quando somos capazes de ler a realidade e compreendê-la.
    Obrigada, professor Ozaí, por trazer à discussão este tema. Nosso mundo é machista, patriarcal, falocêntrico e quem diz o contrário ou está totalmente acomodado e resignado ou tem uma leitura muito superficial da realidade. Os números (da violência – estupros, assassinatos, agressões verbais e físicas -, dos valores salariais, dos cargos de chefia, da ocupação de postos “masculinos”) evidenciam que estamos a anos luz da propalada igualdade. Perpetuamos a condição misógina nos programas de TV, nos produtos do mercado, na publicidade, na edução escolarizada, na educação dos filhos, nas piadinha “inocentes”, em tudo.
    Ainda assim há que seguir, discutir, pensar e mudar. nada é fácil, mas eu acredito.

  6. Muito estimado colega Antonio Ozaí,
    meu blogue que circulará a partir das 00h deste dia 23 de setembro inicia assim:
    Já circula a sexta edição de A Ciência é masculina? É, sim senhora! Para comemorar brindo a meus leitores com o texto Por que as mulheres legitimam a dominação masculina? que o filósofo Antonio Ozaí da Silva, professor da UEL, publicou neste 22 de setembro no muito apreciado blogue: https://antoniozai.wordpress.com
    Quando agradeço, uma vez mais, a colaboração, solicito teu endereço postal para enviar-te um exemplar do livro referido;
    Com estima e admiração,

    attico chassot
    http://mestrechassot.blogspot.com
    http://www.professorchassot.pro.br

    • Caro Mestre,

      boa boite.
      Muito obrigado pela deferência. Há apenas um duplo engano: não sou filósofo (por profissão, embora nada tenha contra os colegas da área) e nem docente da UEL, mas sim da UEM.

      Abraços e ótima semana

  7. Oi, Toninho,

    que pena que vc tomou um tema tao dramático, como é a situaçao das mulheres na Arábia Saudita, e de resto, em muitas partes do mundo, para concluir, ainda que subrepticiamente, certamente sem intençao, pela “culpa” das próprias mulheres na sua opressao! Desde a criaçao do mundo segundo a teologia católica – para ficar nas nossas influências ocidentais – carregamos a culpa de haver levado os homens ao erro, Eva nao nos deixa mentir. Que as mulheres introjetam a cultura sexista e machista nao deveria te surpreender, pois estamos falando de um sistema de opressao e dominaçao que atravessa toda a sociedade, desde a economia, a política, até as relaçoes familiares, pessoais, sexuais, etc, e por muitos séculos, como a análise histórica da cultura e das sociedades nos permite constatar. A libertaçao da cultura da opressao nao é genética, mas resultado de uma consciência que pode vir por múltiplos fatores, está a luta do movimento de mulheres em suas várias épocas e facetas para mostrá-lo. Em suma, assim como os homens introjetam a cultura da opressao e se sentem com o poder de exercer o domínio sobre as mulheres, estas crescem nesse mesmo ambiente, só que do outro lado. Aprende-se a ser dominada e a achar que isso é natural, por isso se fala de “naturalizaçao” das desigualdades de gênero, que vimos lutando há tempos para romper, com muitos êxitos mas também ainda com muito por superar. Por isso se fala também de relaçoes de gênero, pois é impossível entender separadamente os lugares, representaçoes, atitudes, poderes de homens e mulheres se nao é nessa relaçao.
    Enfim, nao acho que deveria ser uma “surpresa” que muitas mulheres ainda achem correto, “natural” ser dominadas. Deveríamos nos perguntar o que pode ser feito para acelerar o aumento de consciência e a autoestima das mulheres para que nao aceitem as diferentes formas de submissao de gênero, e para aumentar a autocrítica dos homens e a superaçao dos comportamentos machistas e sexistas, ambos ainda tao fortes nas nossas avançadas sociedades ocidentais!
    Um abraço!!
    Didice

    • Amiga Didice,

      boa noite!
      Muito obrigado por ler e comentar o texto.
      Suas palavras fizeram valer o esforço da reflexão e escrita.
      Neste tema, você uma das primeiras e mais importantes “professoras” e, apesar dos anos passados, continuo aprendendo. Obrigado! Peço apenas que considere o limite do espaço e os riscos, sempre presente, das palavras induzirem a conclusões opostas às intenções de quem escreve.

      Beijos e ótima semana,

  8. Parece Ozaí que há um deslocamento no tempo e no espaço: Século XXI e Idade Média; Oriente e Ocidente.

  9. Antonio
    Bom dia

    Penso que devemos olhar e sobremodo cuidar de nosso “rabo”. A situação da mulher no Brasil não é diversa de outros países. É quase certo que em todos os lugares a situação ainda é de hipossuficiência e predominância de valores reacionários arraigados há séculos. Mesmo em países do chamado primeiro mundo ainda é possível comprar (exatamente isso) uma esposa branca, loira, prendada e sobremodo submissa e que se disponha a ocupar seu papel de mãe e dona de casa. Para algumas essa situação inclusive é uma “redenção”, diante da situação que se encontram de iminência de viver nas ruas, de refugiada, de ilegal, de explorada sexual, de escrava, desempregada, lembrando uma vida pregressa de lares desfeitos, de guerra civil, de miséria, alcoolismo e brutalidades dos familiares. Em nosso país também vivemos essa diversidade de situações e valores. Numa mesma família aqui em Caxias do Sul/RS, observa-se a diversidade de valores e situações. Para algumas trabalhar, estudar, participar das decisões familiares, contribuir financeiramente é algo corriqueiro, porém no mesmo teto observa-se situação contrária, há as que dependem materialmente do pai, de um irmão, de um tio, do marido, do sogro. Não estudam, pois seu lugar é no lar cuidando de crianças, de idosos, não tem acesso à previdência social e não contribuem com um misero plano básico de saúde. Mesmo no seio das classes mais abastadas encontramos mulheres que aceitam os/as amantes do esposo, pois são apenas donas de casa, às vezes rodeadas de empregados, semi-alfabetizadas, portanto sem emprego e sem qualificação alguma para trilharem uma vida solo. Também é comum a mulher trilhar o caminho inverso, ou seja, deixar uma vida dinâmica, de profissional liberal, empreendedora, pesquisadora, para “abraçar” as gratificações do lar e conseqüente total dependência masculina. Pessoalmente confesso que não tenho solução absoluta para essas contradições, mas me atrevo a considerar o simples fato que em todas as áreas da economia brasileira, a mulher ainda ganha bem menos que os homens. Por outro lado a passos largos as mulheres estão ocupando parte substancial da Estratocracia via porta da frente através de competidissimos concursos públicos. Na Prefeitura de Caxias do Sul, o número de servidoras já atinge 70% de todo o quadro. Em algumas empresas privadas os números beiram a 100%. Nos bancos escolares a presença da mulher felizmente já é maior e seu desempenho tende a superar o dos homens. Talvez, hipótese, via educação formal, conquista – ampliação – paulatina de espaços no mundo do trabalho, possam contribuir com mudanças dos valores hoje arraigados que preservam a subserviência. Na contramão e a passos largos laboram a alienação religiosa, midiática (mulher moda, objeto, consumidora), partidária, que precisam ser enfrentadas não só pelas mulheres oprimidas, mas também pelos homens.

    Pedro
    Caxias do Sul, 22 de setembro de 2013.

    Antonio
    Bom dia

    • Pedro,

      muito obrigado por ler e comentar.
      Seus comentários sempre são instigantes e oferecem aos leitores informações importantes.
      Penso, porém, que a realidade é complexa e diversificada. Me parece lógico que, embora ainda tenhamos problemas e muito a avançar no Brasil e ocidente em geral, a situação das mulheres em países como a Arábia Saudita é muito pior – com o agravante de ser justificada e aceita por parcela das próprias mulheres.

      Obrigado.
      Abraços e tudo de bom

  10. Este artigo lembra quase ponto por ponto a luta das sufragetes e em seguida das sufragistas (nao é o mesmo movimento) inglesas pelo direito de voto. Açoes violentas, sobretudo das primeiras, embates com a policia, espancamentos e apalpamentos violadores, legitimados pela opiniao publica, e por ai vai. Mas elas conseguiram, apesar de uma larga reaçao de homens e mulheres conservadores, naturalmente, divulgadas estas como portavozes da posiçao feminina mais “legitima” pois mais de acordo com a tradiçao.
    Que a luta das mulheres sauditas tenha logo um resultado positivo, sao meus votos. E o titulo que voce escolheu para o artigo so vale se for provocaçao – espero que nao seja um alinhamento com a visao simplista das midias ocidentais em geral.

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