Construir ou destruir pontes?!

“A ponte não é de concreto, não é de ferro
Não é de cimento
A ponte é até onde vai o meu pensamento”
(Lenine)

imagesEscrever é uma forma de comunicar. O verbo comunicar deriva do latim comunicare e significa “tornar comum”, “fazer saber”, “ligar”, “unir”. Escrever é, portanto, “construir pontes” capazes de “ligar” pensamentos. Gosto de pensar a escrita com a metáfora de pontes que possibilitam a relação entre indivíduos diversos, o que pressupõe uma atitude positiva, construtiva. As palavras, é claro, também podem ter conotação negativa, ou seja, também se prestam a destruir pontes, separar pessoas, detonar relações humanas. De fato, mesmo quando escrevemos com intenções construtivas, o resultado pode ser o inverso. Simplesmente é impossível agradar a todos, especialmente quando os temas sobre os quais nos debruçamos são polêmicos. Não há como ser neutro ou imparcial. Toda escrita expressa visão de mundo, concepções sobre a realidade social. Escrever é posicionar-se perante si mesmo, os outros e o mundo no qual vivemos.

Por outro lado, somos passíveis de falhas na comunicação. Uma palavra, uma expressão pode se revelar inadequada e induzir o leitor a interpretar no sentido até mesmo inverso ao que pretendemos comunicar. Neste caso, o risco é não estabelecer ponte, não comunicare. A ponte não significa apenas concordância entre potenciais interlocutores; a crítica é uma forma de interlocução. Não obstante, há críticas e críticas. Há os que sabem elaborar a crítica sem o uso de dinamites, ou seja, que comunicam. Mas, também há os que não tem o mínimo cuidado em manter a ponte e não se importam em explodi-las. Estes utilizam as palavras para separar, produzem abismos, constroem muros em vez de pontes. Negam-se a interagir e transformam o interlocutor no inimigo das suas ideias, dos seus pensamentos e verdades sacralizadas. Fixam-se em sua margem, desdenham quem está na margem oposta e lançam seus mísseis codificados em palavras ácidas com o único objetivo de atingir o alvo, ainda que a ponte seja demolida. Não comunicam, não estabelecem conexões, repetem-se e se arrogam no direito de dar conselhos. Imersos em axiomas, conceitos e abstrações, nutrem o auto-engodo e tornam-se incapazes de refletir sobre os próprios limites. Agem como se fizessem a “cruzada do bem”, veem a si mesmos como depositários da verdade alimentada pelo último autor lido e transformado em mote para a crítica despropositada. Identificam dogmas nos pensamentos que os questionam, mas são cegos perante as ideias sedimentadas e repetidas ad nauseam como argumentos corretivos e salvadores das almas desgarradas.

Escrever tem conseqüências! As palavras constroem, mas também podem gerar males irreparáveis. Elas podem causar dores, sofrimentos e fazer sangrar.* Elas podem ferir susceptibilidades, alimentar incompreensões mútuas. É preciso, portanto, tratar as palavras com carinho, muito carinho. Ao escrever, é necessário ponderar, refletir e refletir… Uma palavra equivocada, descontextualizada, mal-interpretada, compromete a comunicação, o sentido geral do texto. Quem escreve, portanto, arrisca-se, ainda que involuntariamente, a detonar pontes e/ou contribuir com a patrulha do bem especializada em dicotomias, maniqueísmos, cujos egos inflados os incapacitam para reconhecer a complexidade do real.

Faz-se necessário o comunicare. Isto pressupõe sairmos dos nossos guetos, derrubarmos nossos próprios muros, não nos deixarmos aprisionar pelos nossos ismos, repensarmos os discursos e as práticas que derrubam pontes e nos mantém em margens separadas por extremismos. Há os que constroem pontes; há os que consciente ou inconscientemente são demolidores de pontes. Os que se apegam doutrinariamente às próprias verdades tornam-se incapazes de dialogar. São iluminados, mas cegos diante da luz que emanam!

 


* Ver “Palavras não sentem, não sofrem, não sangram!”, disponível em https://antoniozai.wordpress.com/2007/08/10/palavras-nao-sentem-nao-sofrem-nao-sangram/

10 comentários sobre “Construir ou destruir pontes?!

  1. Caro professor Antonio Ozaí,
    Sou uma assídua leitora de blog e admiradora de suas reflexões.
    Gostaria de parabenizá-lo por suas tão sábias palavras e contribuições que sempre nos enriquecem de conhecimento.
    Saber comunicar-se com maestria é para poucos, dentres estes você com certeza está incluso!
    Obrigado por compartilhar seus conhecimentos…
    Priscila Cittatini

  2. Ozaí adoro o Lenine! Ele não só constroem pontes, mas também apresenta os “nos” construidos nos embates dos afetos. Às vezes “parece que a gente deu um no”… Comunicar é também rasgar o discurso do conformismo, de atitudes como diria um profor meu “apoltronadas”, confortáveis, senta-se em uma cadeira discursiva, num linha teórica e fica-se nela reinando, por isso é preciso, à moda do J. Derrida “, construir desconstruindo” pontes. Agora, comunicar é poder, e poder é o que todos querem, o que resta é a ética na comunicação, mas ninguém comunica mais isso e tão pouco faz pontes…

    Carolina Assis,

    • Carolina,

      bom dia!
      Obrigado por ler e comentar. Interessante a sua concepção sobre comunicar e “construir desconstruindo”. Confesso que me soa estranho “Construir desconstruindo”! Por outro lado, parece-me muito incisiva a frase “mas ninguém comunica mais isso e tão pouco faz pontes”. Não é generalizar? Será que não há pelo menos algumas boas almas que se preocupam com a ética (seja lá o que isto significar)? Ao generalizar, você se inclui neste “ninguém”? Obrigado por estimular a reflexão. Abraços e ótima semana

      • Olá Ozaí, as Ciências Sociais não costumam ler Derrida. Um de seus “motes” (ha!ha!) psicanalíticos se da na construção e na desconstrução do discurso, um quase grau zero da palavra, do sintoma. As comunicações hoje em dia são entrópicas, fragmentárias. É preciso construir a lógica do sentido, muitas vezes clivado, para depois desconstruí-lo, esvaziá-lo. É quase um oxímoro, não! Não acredito que “generalizo” o contexto que vivemos, falta ética mesmo e em tudo. O que somos, uma fagulha, um desejo de ser ético e querer coisas éticas para nos contornar a vida, nos imantar de ética, mas sozinhos… uns aqui outros ali: o que somos, nada! Nascemos falados nesse mar de merda social sem ética, pouco importa se uma fagulha existe ou não. É caos social, meu caro!!!!

        Abraços,

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