“Sem nossos “ismos”, quem somos?”

“Ideologia!
Eu quero uma pra viver
(Cazuza)

“Juro-vos senhores que uma consciência muito perspicaz é uma doença, uma doença autêntica, completa. Para uso do cotidiano seria mais do que suficiente a consciência humana comum…”
(Dostoiévski)*

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Eis uma questão instigante! Em primeiro lugar, é preciso definir o que são os “ismos”. Marxismo, anarquismo, nacionalismo, imperialismo, colonialismo, eurocentrismo, etnocentrismo, cientificismo, racismo, eugenismo, nazismo, fascismo, feminismo, machismo, escravismo, abolicionismo, utopismo, cristianismo, protestantismo, puritanismo, islamismo, leninismo, maoísmo, stalinismo, trotskismo, luxemburguismo, comunismo, socialismo, bolivarianismo, chavismo, lulismo, capitalismo, liberalismo, individualismo, consumismo, produtivismo, intelectualismo, obreirismo, etc. Os “ismos” não são apenas palavras, mas conceitos que sintetizam valores e concepções sobre o mundo, formas de ser-no-mundo. Expressam, portanto, modos de pensar, visões de mundo que orientam a ação dos indivíduos em determinados contextos históricos, políticos e sociais. [1]

Parece que não estamos livres dos “ismos”. Pensamos e agimos conforme determinados ismos, rejeitamos categoricamente outros. Pautamos nossas vidas por valores e crenças que compartilhamos e, simultaneamente, tendemos a nos distinguir e a nos distanciar dos que se apegam a outras “verdades” e visões de mundo não compartilhadas por nós. Como é possível, então, viver sem “ismos”?

Parece impossível. Quem insiste em não se apegar a este ou àquele “ismo” cometerá o pecado do relativismo, ecletismo. Dirão que está em “cima do muro” – o que nos leva a pensar em outro “ismo”: murismo (!). Será que somos prisioneiros dos “ismos”?! A pergunta, dirá o crítico, está mal-colocada. Para ele, os “ismos” nos libertam das incertezas. De fato, os “ismos”, para o bem ou para o mal – sob o risco de cair no maniqueísmo (Ih!, outro “ismo”!) – fornecem “verdades”, “certezas” e, portanto, nutrem a segurança ontológica. A incerteza é insuportável! A dúvida é angustiante, uma “doença autêntica, completa”!

A verdade liberta e torna seguro o caminhar. Mas, quando cristaliza-se em dogma e torna-se absoluta aprisiona o espírito nas cadeias simbólicas e reais das ideologias. Sim, a realidade é complexa, ou seja, não é redutível a um ou outro “ismo”, por mais que estejamos convictos e que nos identifiquemos com a causa. Ainda que o “ismo” que acreditemos se arrogue “científico”, a complexidade humana não cabe nos escaninhos e rótulos político-ideológicos. O ser humano real, de carne e osso, que sofre, sangra, ama, se alegra, entristece, desespera-se e nutre a esperança, etc., é irredutível aos conceitos.

Isto significa ser contrário aos que abraçam causas sintetizadas em “ismos”?! Não, muito pelo contrário. Admiro com sinceridade os que têm fé, os que sacrificam-se e dedicam-se ardentemente a transformar o mundo; os que abraçam ideologias como bússolas para a vida. Assumir este ou aquele “ismo” é um direito! Receio apenas os dogmáticos e sectários, os que medem o ser humano pelo ismo que professam; os que constroem muros imaginários e reais que separam os seres humanos; os que se imaginam absolutamente certos em suas verdades e nutrem a intolerância; os que, em suas casamatas, destroem pontes; os que, em nome de conceitos metafísicos, querem moldar o mundo à sua imagem.

Sim, reconheço a necessidade dos “ismos” para configurar identidades e nos sentirmos seguros em nossas certezas. Mas não esqueçamos que a maioria dos indivíduos possui apenas “a consciência humana comum”, ou seja, não traduzem os valores e crenças em ideologias catalogadas. Sim, também os que não abraçam “ismos” político-ideológicos têm ideias e concepções sobre o ser-no-mundo, amparadas em valores e crenças. A minoria age inspirada em “ismos”, a maioria simplesmente vive e procura dar respostas aos dilemas e necessidades do viver. A maioria não segue “ismos” enquanto modelos que orientam a vida. Sem “ismos”, simplesmente somos o que somos!

Há também os que se recusam a imolar-se no altar do “ismo verdadeiro” e, ainda que simpatize com determinados “ismos” e recuse outros, reserva-se o direito de não agir à maneira do crente que necessita de certezas absolutas. Isto quer dizer, simplesmente, que é céptico, que duvida de todos os “ismos”, mesmo aqueles que ele aceita! A ironia é que mesmo o céptico tem um “ismo”: cepticismo! Em suma, apenas temo os “ismos” dos Procrustos modernos!


* DOSTOIEVSKI, Fiodor. Memórias do subsolo e outros escritos. São Paulo, Editora Paulicéia 1992, p. 68.

[1] A lista é enorme, cada leitor pode acrescentar vários “ismos” e o “ista” correspondente. Se tiver a curiosidade de pesquisar, encontrará milhares de “ismos”. O link http://pt.conscienciopedia.org/index.php?title=Lista_de_ismos&redirect=no, por exemplo, apresenta 3.793 ismos (acesso em 05/10/2013). A estes se somam os “anti” (anticomunismo, anti-imperialismo), ou seja, os contra “isso e aquilo”, etc.).

16 comentários sobre ““Sem nossos “ismos”, quem somos?”

  1. Engraçado como a maioria dos céticos se contradizem quando usamos o ceticismo contra eles próprios. Experimente ser cético com um professo socialista, cético com todas as tradições… Automaticamente emerge furiosamente o seu verdadeiro “ismo”: um fascismo atroz, totalitário, que despreza qualquer um que ouse destronar seus deuses políticos.
    Parabéns pelo texto, professor.
    Um abraço cearense.

  2. Socialismo, Comunismo, Liberalismo, Progressismo, Conservadorismo, são tantos ismos…
    Estariam esses “ismos” ligados à uma necessidade de fazer guerras? Nossa herança genética das bactérias? Ou é uma cultura de extremismos (olha ele aí de novo!) que é alimentada para nos tirar o bom senso, a solidariedade, a conformidade (senso comum), a HUMANIDADE?
    Quem ganha com as guerras? Quem perde? Estaríamos condicionados a lutar pela sobrevivência mesmo ela não estando em risco? Não precisa responder. A maioria das perguntas já têm a resposta.

    Parabéns pelo blog! Excelente trabalho!
    Compartilhado e curtido por muitos em minhas redes sociais.

  3. Ultimamente tenho pensado muito a respeito… Como acreditar num mundo onde as diferenças são respeitadas se só o fato de ser diferente já é considerado pelo outro uma ofensa?

    Texto instigante!

    Abraço, Ozaí

  4. “O ser humano real, de carne e osso, que sofre, sangra, ama, se alegra, entristece, desespera-se e nutre a esperança, etc., é irredutível aos conceitos”.

    Por outro lado, como talvez pensasse Kirilov, o ser humano não está acima de todos os conceitos… Somos seres complexos, reflexivos, etc, mas somos apenas seres humanos. E por mais que possamos sonhar com conceitos que nos redefinam das mais mirabolantes formas, ou em sermos nós mesmos nossos deuses, somos, se pensarmos friamente, apenas o que somos. E que no fim, podem ser definidas por menos que um conceito e uma lembrança; para daí a algum tempo não restar sequer essa lembrança, na memória de qualquer outra pessoa.

    Você se esqueceu, por falar nisso, de colocar na lista ‘individualismo’, a tendência, cada vez mais atual, de imaginarmos (com maior ou menor modéstia) que nossas ações e modos de ver o mundo derivam exclusivamente de nossa própria vontade.

    “A minoria age inspirada em “ismos”, a maioria simplesmente vive e procura dar respostas aos dilemas e necessidades do viver”.

    Sim… Ao contrário do que muitos suspeitam na universidade, os que “apenas vivem” – o que já é uma grande façanha, quando não se trabalha na Ilha da Fantasia… – também pensam; são levados a pensar e encontrar respostas para seus dilemas e necessidades urgentes, ainda que muitas vezes no nível da simples sobrevivência.

    Grande abraço!

  5. Ainda não comecei a ler, mas a frase do Dostoievski é fabulosa! E divertidíssima. Lembra-me outras coisas. O Hobbes, escrevendo que havia chegado à conclusão de que a inteligência era algo super abundante no mundo, porque… ninguém reclamava da quantidade que tinha!
    Mas me lembra também algo que, de um modo ou de outro, nossa cultura e o meio acadêmico se empenham em ‘demonstrar’ todo o tempo: que a razão (ou ciência, ou inteligência, etc) transformaria o mundo num lugar necessariamente melhor. Penso que não. Da mesma forma que a ausência de razão (por exemplo, entre algumas cultura, o assassinato de crianças gêmeas), também o excesso de razão cobra o seu tributo. Visto sob esse ponto de vista, o nazismo era, antes de tudo, um sistema extremamente racionalizado.
    Do ponto de vista individual, não deixa de ser curioso notar que entre aqueles que poderíamos considerar como muito inteligentes existem uma quantidade igual ou maior de canalhas do que entre aqueles que poderíamos considerar como medianamente inteligentes.

    • Fábio,

      boa noite.
      Obrigado por comentar. Suas palavas são instigantes e concordo que a supervalorização da razão é, no minimo, como se diz no sociologuês, “problemática”. Se não fosse um contrasenso, diria que é irracional rsrsrs Quem supervaloriza a razão, não atenta para os perigos da racionalização extrema – como vc lembra bem, a maquina de morte do nazismo foi organizada racionalmente por pessoas bem racionais, muitos deles com titulações acadêmicas.

      Abraços e tudo de bom

  6. Olá, Ozaí!
    Leio semanalmente seu blog, e julgo muito benéfico, para minha “formação social”, suas concepções e críticas. Encaminhei para você um email com algumas dúvidas e espero sua resposta.
    Desde já agradeço, abraços.

  7. Ozaí, o clichê ideológico é cheio de ismos também, agora Fiador tem toda razão: é uma doença!!!!

    Abraços

  8. Lendo esta otima reflexao, lembrei de duas outras, que ai vao reduzidas ao essencial. Uma, um titulo de Millor, “Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come”, criaçao de tempos bem mais duros e sem saida. A outra é uma cançao de Georges Brassens, “Mourir pour des idées”, em que ele admite que até pode ser uma boa ideia, morrer por causa de ideias ou ideologias, mas com calma, “de mort lente”, sem muito se apressar.

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