Leituras: Pedagogia Libertária e Autodidatismo

Bart escreve no quadro negro sobre LostPedagogia Libertária e Autodidatismo é a Tese de Doutorado escrita por Antonio José Romera Valverde, orientada por Maurício Tragtenberg, defendida em 1996 na Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). [1] O autor analisa os fundamentos históricos, políticos e filosóficos da Pedagogia Libertária, enraizada e desenvolvida entre os operários espanhóis, a partir do século XIX, especialmente em Barcelona. Sua análise destaca a educação integral de Paul Robin, adaptada na realidade espanhola por Trinidad Soriano, além da pedagogia racional científica de Francisco Ferrer. O leitor interessado no tema poderá acompanhar a exposição e apreciação histórico-filosófica do autodidatismo entre os militantes libertários no Brasil. Em seu estudo, Valverde destaca o ideário de William Godwim, considerado um dos pioneiros do pensamento libertário, e de Joseph Jacotot. [2] O leitor encontrará ainda a entrevista-depoimento de Jaime Cubero sobre o autodidatismo.

Valverde critica os lugares comuns das interpretações sobre o anarquismo e a concepção libertária do homem, fundada na razão, no trabalho e na solidariedade. Essa dificuldade, no caso brasileiro, pode ser explicada pela perda da hegemonia anarquista no movimento operário para os comunistas em meados dos nos 20 do século XX. Porém, a herança anarquista, nem sempre lembrada, é considerável e demonstra uma prática pedagógica comum naqueles anos. Deve-se ainda considerar o aspecto repressivo, fundamental para desarticular o movimento anarquista. Outro elemento que explica o desconhecimento sobre o anarquismo é a dificuldade de acesso às obras essenciais dos pensadores libertários, às fontes primárias e à raridade de memórias escritas destes militantes.

No campo da educação libertária, este desconhecimento passou a ser superado no período recente. [3] Neste processo, passou-se a estudar e discutir a estratégia do desterro: “Esta estratégia incluía um projeto educacional, como forma não só de ampliar os horizontes intelectuais e assegurar os rumos da militância proletária de modo autônomo, mas propunha, também, como fim último inalcançável, a possibilidade da construção de uma “autêntica” cultura popular” (VALVERDE, 1996, p.4). A expressão estratégia do desterro foi utilizada por HARDMAN [4], para se referir à forma cultural de adaptação do imigrante europeu às condições reinantes no Brasil do final do século passado e princípio deste. Estratégia entendida no sentido amplo de criação e defesa da cultura operária” (Id., p. 26).

O autor avalia a experiência oficial inspirada no anarquismo e a criação dos diversos centros de cultura, com destaque para o Centro de Cultura Social, no Brás (São Paulo). Ao analisar a história e as teorias das propostas educacionais dos socialistas libertários, desde o final do século XVIII, a principiar por William Godwin até a síntese do autodidata Francisco Ferrer y Guardia, ele enfatiza a experiência autodidata da CNT espanhola.

O autodidata anarquista, afirma o autor, opera o seu auto aprendizado em vista de um horizonte político e ético, construído na reflexão cotidiana do trabalho, das lutas sociais e como progresso geral da humanidade. Autodidatismo é uma ‘recuperação do indivíduo’, é um antídoto ao ensino formal, de superação do ‘rito de passagem’: “O autodidata, ao romper com o formalismo da educação escolar tradicional, cria as condições de antecipar-se e engendrar novas fronteiras de problemas tradicionalmente esquecidos ou resolvidos de maneira chã” (Id, p. 9). Continua o autor”: “O autodidatismo é o reino da conquista e afirmação da liberdade individual sobre as estruturas da microfísica do poder instituído. O autodidatismo é a afirmação da individualidade, porém contrária ao individualismo pequeno-burguês, na medida em que o anarquista é – pelo menos no seu ideário e horizonte político e ético – o antípoda desses tipos sociais” (Id., p.10).

O trabalhador é um ser contraditório: integrado à produção capitalista e em luta contra ela. Este aspecto também está presente para os professores e os intelectuais em geral. Assim, analisar “o corpus pedagógico proposto pelos socialistas libertários”, exige que suas realizações práticas e formulações teóricas sejam situadas “na relação com a estrutura social na qual se insere”. (14)

Ao resgatar a pedagogia libertária na Espanha, em especial a contribuição de Ferrer, ele escreve: “Ferrer y Guardia não foi o primeiro nem o único a interessar-se pela educação do proletariado, no contexto espanhol, como muitos historiadores têm afirmado. Mas, de fato, ele promoveu uma síntese, extremamente sagaz (…), importante e definitiva, até o presente, de todas as discussões e práticas educacionais no seio da educação libertária” (Id., p. 51). Um dos aspectos que chama a atenção na obra de Ferrer é a ausência de dogmatismo, a plena liberdade em relação aos ismos: “O verdadeiro espírito de (sua) obra educacional… nenhum sectarismo, nenhuma estreiteza partidária, nem a mais leve sombra de predileção por escolas ou filosofias, amplitude de vistas e o respeito consciente à liberdade individual e o desabrochar da razão da criança” (Id., p. 89).

Ao analisar o autodidatismo, historicizando-a desde a obra do médico e filósofo árabe Ibn Tufayl, Valverde inicia com uma citação de Nietzsche, O andarilho e sua sombra: “Deve, pois, considerar-se o professor como um mal necessário, tal como o comerciante, um mal que deve tornar-se o menor possível… Uma das causas da miséria das condições intelectuais pode ser certamente encontrada na quantidade excessiva de professores: é a causa de se aprender tão pouco e mal”. (cit. p. 202).

Valverde concebe o autodidatismo como “um fenômeno amplo, que ultrapassa a classe operária e está disseminado, enquanto atitude espiritual e prática, em todos os setores da sociedade. Seu florescimento mais intenso se deu nos momentos em que o modo de produção capitalista negou ais trabalhadores o acesso à cultura, pela alfabetização escolar formal, tornando-se necessidade vital para a organização das lutas sociais”. (Id., p. 202.). Ele identifica sua matriz mais recente na filosófica da Idade Moderna, “precisamente a vertente do Iluminismo, na figura dos seus forjadores que, crentes na força da luz natural da razão, ousaram saber para além dos limites da patrística, da escolástica e dos esoterismos medievais”. (id.) Ele observa: “A raiz mais antiga do autodidatismo pode ser encontrada na filosofia de Epicuro (341-271 a. C.), que tanto agradou Marx na concepção, fundamentação e discussão do conceito de alienação. Epicuro propunha autarquia e autonomia na condução da vida intelectual, querendo com isto garantir que cada indivíduo, por si mesmo, fosse capaz de raciocinar e descobrir as verdades mais fundamentais de sua existência” (Id., p. 213).

Eis alguns dos autodidatas famosos relacionados por Valverde: Friedrich Engels, Maximo Gorki, Jack London, Malcom X, Bernard Saw, Millor Fernandes, José Saramago, Antonio Gramsci, Pietro D’Arezzo, Buenaventura Durruti, Mario Ferreira dos Santos, Edgard Leuenroth, Pedro Catallo, Adelino Tavares Pinto, Primitivo Raimundo Soares (que tinha o pseudônimo de Florentino de Carvalho), Gigi Damiani, Tito Batini, Felipe (Pseudônimo: Gil Souza Passos), Rodolfo Felipe, Marino Sapagnolo, Antonio Avelino Foscolo, Jaime Cubero, Gimenez Moreno, Edgard Rodrigues, Oswaldo Salgueiro, Luca Gabriel, Venancio Pastorini, Octávio Brandão…

Valverde conclui que a “Pedagogia libertária e autodidatismo são pares gêmeos e complementares. A vontade de saber só pode encontrar sua possibilidade de realização numa visão de mundo ancorada na plena liberdade do sujeito de conhecimento” (Id., p. 296). Para ele, “Há um élan vital, que percorre toda a concepção pedagógica libertária, de Godwin a Robin e Ferrer, de Proudhon a Kropotkin, confirmada desde a opção por uma orientação política fundada na liberdade, à formação das associações de trabalhadores, com suas veladas e meetings, até uma rejeição em bloco do modo de produção capitalista”. (p. 297).

A leitura desta tese é imprescindível aos interessados em compreender a Pedagogia Libertária e o Autodidatismo. Li à época do meu doutorado e planejo reler. Estas anotações visam apenas instigar os leitores. Basta fazer o download! Ótima leitura!


[2] Ver RANCIÈRE, Jacques. O mestre ignorante: cinco lições sobre a emancipação intelectual. Belo Horizonte: Autêntica, 2011; e Para que professor explicador?, disponível em https://antoniozai.wordpress.com/2013/07/13/para-que-professor-explicador/

[3] Ver, entre outras, as obras de Silvio GALLO: Pedagogia do Risco Experiências Anarquistas em Educação (Campinas: Papirus, 1995) e Educação Anarquista: um paradigma para hoje. (Piracicaba: UNIMEP, 1995).

[4] Ver: Nem pátria, nem patrão! (Vida operária e Cultura Anarquista no Brasil), São Paulo, Brasiliense, 1984.

5 comentários sobre “Leituras: Pedagogia Libertária e Autodidatismo

  1. Muito bom o texto do Pedro, contudo, no que tange a hipossuficiência salarial, podemos incluir todos nós, os professores.
    Geraldo Martins.

  2. Olá, Ozaí. Gostei deste artigo. Tenho acompanhado seu esforço em esclarecer as diferenças entre o pensamento libertário em sentido político e social e os demais pensamentos à direita ou à esquerda. Confesso que não conhecia a tese do Dr. Valverde e vou lê-la, sobretudo porque estou escrevendo um ensaio (livro) no qual um dos pontos-chave é a Educação Integral. Depois que ler a tese volto a comentar.

  3. Antonio

    Bom dia

    Ao cumprimentá-lo aproveito o ensejo para enaltecer o tema que trouxeste a lume. Confesso que não li ainda o trabalho do Doutor Valverde, o que sem demora pretendo fazer, por isso “me” antecipo na situação de que talvez, em oportuno, tenha que reconsiderar meu modo de ver e pensar sobre o tema em questão. No que tange as Escolas Operárias oportuno reforçar que as mesmas precederam a Ferrer, situação que se inclui o Brasil. Houve inclusive o funcionamento de Universidade Popular patrocinada por operárioas/os. As centenas de trabalhos de pesquisa realizados no Brasil, ligados ou não a Academia, quem tem por foco o anarquismo somente vem confirmando a amplitude desse movimento e a extensão do mesmo, a qual demonstra que muito resta por ser pesquisado e conseqüentemente divulgado. Nesse compito falta resgatar, por exemplo, os trabalhos escritos das escritoras libertárias, o que tem se mostrado tarefa estéril e ingrata, porém sabe-se que não somente Maria Lacerda escreveu livros. A presença da mulher operária nos movimentos sociais do século XIX e primeira metade do século XX carece ainda da disseminação das pesquisas, havendo já trabalhos em curso ou concluídos, os quais comprovam em nosso entendimento que os estudos podem oferecer muito mais. No particular das Escolas Modernas existentes no Brasil necessário considerar que todas foram fechadas pela combinação reacionária das delações dos clericais e a arbitrária e ilegal ação do Estado. Esse processo com o advento do Estado Novo foi além do realizado pelos Coronéis da Velha República fechando todas as Escolas que trabalhavam com outras línguas que não somente o Português. Esse desserviço já tem história, pois o Marques do Pombal ao cerrar as portas das escolas jesuítas, deixou o Brasil e demais colônias sem escola alguma. No que tange a questão de uma suposta “hegemonia” no meio operário de parte dos libertários, também chamada por alguns preclaros mestres de “perda do vetor social”, indica que no mínimo temos que ter em mente que o tema é controverso. O Partido Maximalista nos anos 20 do Século passado tinha um quadro reduzido de militantes, situação que obviamente também não lhe permitiria ter essa tal de hegemonia tão decantada. Ao capitular, já nos anos 30, diante da intervenção estatal nos Sindicatos, vinculando-os ao Fascismo, os bolchevistas locais de vez desistiram da vanguarda e do protagonismo social. A obra social dos libertários no Brasil sempre foi combatida e sistematicamente desmantelada pelo uso da força. A criminalização dos movimentos sociais não é fato novo, mas sim recorrente. Os campos de concentração, as bastilhas, os desterros intra e extraterritoriais, penalizaram prioritariamente os rebeldes e revoltados desse país, nesses se incluindo as organizações e indivíduos de escol libertário, obvio, portanto, que suas idéias foram sufocadas e suas ações colocadas no limbo. No Estado democrático e de direito, a história não se repete, ela continua sendo a mesma, ou seja, quem discorda é tratado como inimigo das instituições, dos valores morais, da paz social e outros adjetivos, enquanto isso parcela dos auto-intitulados bolchevistas se locupleta com as benesses do poder, deixando, só para citar um exemplo as Professoras em total hipossuficiência salarial.
    Abraços
    Pedro

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