Lições Pedagógicas (4)

c_crise_kikiEm situações de tensão os indivíduos se revelam. Na política, da mesma forma que nas relações humanas em geral, a crise faz emergir as contradições envoltas nas brumas da pretensa harmonia e racionalidade. Neste momento, a imagem idealizada sucumbe à crua realidade da vida e estilhaça-se ao refletir-se no espelho do outro. Descobrimos, então, um outro eu e o outro mostra-se ao eu mais real, humano, demasiado humano.

Quando se instaura a tensão conflituosa, a natureza inerentemente humana vem à tona, sem disfarces, meias palavras e hipocrisia. As qualidades individuais sucumbem à crítica, necessariamente potencializadora dos aspectos negativos. Os defeitos pessoais, as idiossincrasias e a tendência à mesquinhez são enfatizados. Na crise, os indivíduos mostram-se aos outros, e a si mesmos, como realmente são. É nestes períodos que conhecemos melhor aos demais e a nós próprios.

A crise é mais profunda na medida em que põe em risco os fundamentos psíquicos, racionais e sentimentais que consideramos vitais. Às vezes, uma simples frase provoca uma reação inesperada de virulência assustadora e incompreensível. Quando a tempestade passa, compreendemos o quanto aquelas palavras, ditas ao acaso ou no calor da discussão, mas consideradas simples palavras, feriram como faca afiada e deixaram cicatrizes.

A possibilidade de ferir com as palavras é ainda maior em tempos de internet. A instantaneidade e facilidade do email, Facebook, etc., nos coloca diante de um interlocutor distante e coisificado. No ímpeto da ira, perdemos o autocontrole e o sentimento de respeito ao outro. Irrefletidamente, escrevemos o que não diríamos pessoalmente – ou, ainda que disséssemos, muito provavelmente seria com muito cuidado. É fato, a comunicação internautica favorece o desabafo e, embalado pelas emoções, tendem-se à passionalidade e ao desrespeito. Enviar um email, fazer um comentário ressentido no Facebook, etc., é mais fácil do que o olhos nos olhos, o falar e ouvir tête-à-tête! O virtual estimula a impertinência, a desmedida e mesmo a ofensa proposital. O distanciamento em relação ao outro induz à acomodação e à falsa sensação de liberdade. A internet potencializa a capacidade de destruir pontes, ainda que também contribua para construí-las.*

O cotidiano é repleto de circunstâncias que provocam a autorevelação, bem como a revelação do outro. Isto contribui para o autoconhecimento e o conhecer o outro. Pensemos nas discussões entre namorados, casais, pais e filhos, etc. Geralmente, é dito o que não deveria ser pronunciado – e depois, vem o arrependimento –, escuta-se o que não gostamos de ouvir e custamos a acreditar que o outro pronunciou tais palavras. São momentos tensos, estressantes, causam sofrimentos, dores da alma. Mas também são reveladores do que realmente somos, nós e os outros.

Não é muito diferente na relação professor-aluno. Provoque a tensão, desafie-os, proporcione a crise e você conhecerá de fato o seu aluno. As reações, se você estiver disposto a refletir e repensar suas atitudes e discurso, contribuem para que se conheça mais e melhor. Quando o conflito se instaura, a harmonia e a idealização do aluno – e vice-versa – mostram o quanto há de ilusório. Haverá decepções e questionamentos. Não obstante, mantenha-se aberto ao diálogo e a reconhecer erros – apesar das incompreensões, interpretações equivocadas e imaturidade. Se você conseguir manter o equilíbrio necessário para a superação da crise, o saldo, apesar dos dissabores, é positivo! A crise também é uma oportunidade para aprender! É tenso, estressante e pode ser traumático, mas revela-se necessário. O conflito é inerente ao humano – especialmente em ambientes que envolvem relações de poder. Como diria Guimarães Rosa, “Viver é perigoso!”


* Ver Construir ou destruir pontes?!, publicado em 28/09/2013.

5 comentários sobre “Lições Pedagógicas (4)

  1. Ozaí estamos nas redes da virtualidade o tempo todo, mesmo num tete-a-tete como faz referência, há virtualidade. As “ilusões” as quais se refere são interpretações da situação em si, que não são a coisa em si, mutabilizamos o real por subjetividades, por poder transformamos o discurso do outro em uma outra coisa que, muitas vezes, nunca aconteceu…mas isso tanto nas redes como in loco são deslocamentos, tudo, na realidade, é uma questão de eixo.

  2. Na crise, os indivíduos mostram-se aos outros, e a si mesmos, como realmente são. É nestes períodos que conhecemos melhor aos demais e a nós próprios.

    OS SERES HUMANOS NUNCA NOS MOSTRAMOS COMO REALMENTE SOMOS….MOSTRAMOS FACETAS DE NOSSO SER EM DIFERENTES MOMENTOS…NAO SOMOS ASSIM OU ASA….DIRIA oRTEGA U GASSET QUE O HOMEM NAO É ……ÉL VA SIENDO…..

    ACHO INTERESANTE ESSA NECESIDADE QUE VEJO EM VARIOS TEXTOS ULTIMAMENTE …TENTANDO FRIZAR , REMARCAR O ASPECTO ONTOLOGICO DO SER.,

    acho que essa tendencia a classificar as pessoas ontologicamente , é o que provoca tantos e tao fortes embates e crises na relaçao, …

    adoraria ter mais conhecimentos de filosofia…..mas acho que um filosofo poderia ajudar muito.

  3. as vezes tambem nao so as pesoas perdem controle no que falam o desabafam…as veces tambem depende de quem le …. O tom que vc coloca na leitura faz a diferença….

    Tambem é certo que nao sabemos trabalhar com a crise , sempre depende do tamanho de nosso ego….as vezes ja li ou ouvi nao o que o outro falava se nao o que eu achaba que queria dizer….

    Agora na relaçao com professor sempre é delicado….tem mto poder de por meio …e esse poder nao está do lado do aluno….tambem tem mto pensamento estruturado que nao deixa ao outro entender as razoes que alguem está tentando expor…..

    o dialogo segue sendo dificil…a comunicaçao é uma arte e a maturidade tambem…. mas nao tem jeito nao, temos que seguir tentando aprender …errando!, nao tem outro jeito…..o tem?

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