Da experiência de aprender e ensinar!

aprender para ensinar_thumb[4]O saber é finito! A capacidade individual de apreender o conhecimento é intrinsecamente limitada pela natureza humana. Por mais que se estenda a vida e que as rugas e os cabelos grisalhos denunciem o passar do tempo, ainda assim há algo a aprender. O indivíduo é incapaz de saber tudo, de assimilar todo o conhecimento produzido e acumulado pelas várias gerações durante séculos! Ele não é capaz nem mesmo de incorporar o conhecimento do seu tempo na totalidade. Sempre há algo a aprender, a ensinar.

Do mais simples ao mais complexo, os seres humanos aprendem e ensinam mutuamente. O saber do professor é sempre um saber inacabado e a ignorância do aluno é relativa. O professor experiente e titulado ensina ao aluno recém-ingresso na universidade, mas também tem o que aprender. Ainda que o conhecimento específico seja concebido como propriedade individual, saber inacessível aos mortais comuns, envolto em brumas e ensinado em doses terapêuticas.

Cada vez mais, o saber do especialista perde o caráter fechado e exclusivo. Na sociedade moderna o conhecimento é reflexivo. A autoridade do detentor dos saberes especializados não é imune às condições de acesso ao conhecimento propiciadas pelas novas tecnologias. Se no passado, o conhecimento produzido pela humanidade estava armazenado nos mosteiros, bibliotecas privadas e lugares similares, acessíveis apenas à casta dos eruditos e dos que detinham o poder econômico, ideológico e político, hoje a possibilidade de acesso aos livros, textos, etc., é ampliada pelas bibliotecas públicas, além de disponibilizados em versão eletrônica – imagens, vídeos, áudio, etc., também potencializam a acessibilidade ao conhecimento. Isto é ainda mais exato em relação ao conhecimento nas ciências humanas. As novas tecnologias estimulam e favorecem o autodidatismo.

Não obstante, esta realidade não anula a necessidade do professor, do especialista numa determinada área do conhecimento. A interação humana é algo mais do que o mero acesso à informação, ao conteúdo curricular. Na modernidade reflexiva, porém, a autoridade professoral fragiliza-se e perde a aura mítica. Resta-lhe descer do Olimpo imaginário e, enquanto ser humano imperfeito e incompleto, participar da comunidade humana na qualidade de quem ensina e, simultaneamente, aprende – ainda que, arrogantemente, não admita que tenha algo a aprender. O especialista, seja qual for a sua área, sabe – ou imagina saber – meramente o que está vinculado à sua especialidade. Mas este saber é ínfimo, considerando-se a vastidão do conhecimento. Em tudo o mais ele é ignorante – mesmo em seu campo de saber específico, muito provavelmente há o que aprender e aperfeiçoar-se.

Estar aberto a aprender é ter a humildade de reconhecer as próprias limitações e mostrar-se propenso a vivenciar novas experiências e adquirir novos saberes. É reconhecer o paradoxo da incompletude humana diante do conhecimento infinito; a consciência angustiante de descobrir que não sabe, apesar da dedicação e esforços cotidianos para aprender. Quanto maior o conhecimento adquirido, quanto mais experiência de saber, maior a certeza de que não sabemos.

Crescemos, mas não completamos nossa formação humana e intelectual. Permanecemos necessitados de nutrientes culturais, de saberes. Não nos basta o alimento para as necessidades do corpo, também nos alimentamos de conhecimento. Neste sentido, permanecemos alunos – adultos sedentos de saber! A experiência de ser alumnus é essencial, não apenas a quem reconhece a necessidade permanente de nutrir-se de conhecimento, mas também aos que estão na posição privilegiada de detentores de saberes específicos.

2 comentários sobre “Da experiência de aprender e ensinar!

  1. O importante é ter o desejo e vontade ecoando de dentro para que outros possam gritar fortemente pela liberdade de ser um cidadão de verdade! Os professores comprometidos com a construção da cidadania são fundamentais para uma educação instigante e prazerosa no dia-a-dia do alunado, não podemos ser mais um espaço de opressão na sociedade. Um professor de verdade se constrói com vida contextualizada na diversidade dos diferentes, sem mentiras em um diálogo permanente para se encontrar caminhos para melhores resultados com conteúdos contextualizados de aplicação real para todos.

  2. Texto maravilho caro professor Ozaí!

    Espero que muitos que “acreditam dominar o saber” possam ler e refletir acerca de suas práticas no processo educativo após esta leitura. A universidade tem um pouco disto sim! Um local que deveria ser de interação e construção coletiva do saber através da interlocução de muitos, e que, em alguns casos se contenta em construir guetos doutrinários de um saber que pertence a humanidade. O diálogo precisa ser respeitado nos diversos espaços de formação, já que o ato político presente na organização de saberes e práticas nunca são neutros. A universidade espaço legítimo de reflexão do conhecimento historicamente produzido pela humanidade, muitas vezes não consegue dialogar sobre as questões do conhecimento que se amestram fora das paredes gélidas das universidades que no mundo acadêmico pouco ou nada são levados em consideração. O mesmo se aplica as relações construídas entre professor-aluno, aluno-aluno, professor-professor. Tão bom seria se todas essas vozes pudessem ecoar e se fazerem ouvir para uma política educacional mais próxima da nossa realidade, que coubesse dentro do nosso cotidiano e atendesse as necessidades de nossas crianças e professores na escola. Quem sabe poderíamos ter futuras gerações construindo literalmente sua cidadania plena através de uma verdadeira sintonia entre os saberes produzidos em suas culturas e os saberes e culturas que se modificam pela própria interação entre eles. Quiçá em um futuro próximo teremos todas essas mazelas controladas pelo bom senso daqueles que fazem as regras desse “jogo” onde os perdedores estão marcados e ganhadores não existem!

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