Sobre livros e autores dos EUA

Anos atrás li uma obra, O sonho americano e o homem moderno (Rio de Janeiro: Lidador), que oferece um perfil histórico sobre a literatura nos EUA. O autor é Walter Allen. Encontrei, por acaso, nas prateleiras da Biblioteca Central da UEM. Sua leitura foi esclarecedora e contribuiu para a compreensão histórica política e cultural da nação estadunidense. Trata-se de uma reflexão sobre o sonho americano à luz da literatura, isto é, o simbolismo e a maneira como esta o expressa. A obra fornece um painel importante da literatura americana no século XIX e das primeiras três décadas do século XX.

gatsbyThe Great Gatsby (1925), escrito por F. Soctt FITZGERALD, por exemplo, expressa o self made man, o homem que se faz só – um dos fundamentos da ideologia dos EUA. O personagem principal, dividido entre o poder e o sonho, representa a própria América. O autor sugere que a nação EUA surgiu de uma concepção platônica de si mesma. “Em The Great Gatsby Scott Fitzgerald mostra-nos o sonho americano em seu aspecto trágico, em outras palavras, como um sonho incapaz de se realizar exatamente por ser um sonho. Mas torna-se evidente nos últimos parágrafos do romance que Fitzgerald equaciona Gatsby ao homem americano, e o considera como figura simbólica da experiência norte-americana”, afirma Allen (p. 8). [1] Para ele, The Great Gatsby “é uma celebração poética do sonho norte-americano e um comentário, talvez pessimista, sobre ele” (p. 9)

The Fathers (Os Patriarcas), de Alan TATE, representa a “mais comovente glorificação da civilização sulista” (p. 85). Enquanto esta obra nos remete ao contexto da guerra civil, a guerra de secessão do sul contra o norte dos EUA, os livros de Fenimore COOPER lançam luz sobre o período colonial e a chamada “conquista do Oeste”. Os Pioneiros (1823), O Último dos Moicanos (1826), A Planície (1827), O Guia (1840) e O Caçador (1841), expressam o sonho de viver em liberdade, sem as amarras da civilização. A Lost Lady, seu último romance, apresenta o Oeste como uma espécie de paraíso, destruído pelos que chegaram depois para explorá-lo.

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A expansão para o Oeste, e suas consequências, também está presente na literatura de Harold FREDERIC e Michael STRAIGHT. The Damnation of Theron Ware (A Perdição de Theron Ware), escrito por Frederic, expressa a possibilidade de ascensão social do deslocamento para o Oeste. O Centro-oeste e o Oeste cumpriram o mesmo papel que a Nova Inglaterra teve para os imigrantes europeus. Esta era “um lugar em que os fracassados e desajustados podiam convenientemente desaparecer” (p. 66). O fenômeno da fronteira, isto é, o movimento para o Oeste, “permanece como a grande imagem do senso norte-americano de possibilidade”, “um dos mais importantes componentes do sonho norte-americano” (p. 57). Walter Allen alerta para a literatura de Fenimore Cooper, e outros, que expressa uma visão paradisíaca da conquista do Oeste. Ela “omite os aspectos negativos do desbravamento do Oeste e da construção das ferrovias. A completa destruição dos rebanhos de búfalos e a guerra contra os índios” (p. 200). Carrington, de Michael STRAIGHT, representa “uma descrição mais precisa da conquista do Oeste após a Guerra Civil” (id.).

A escravidão nos EUA também está presente na literatura. Fanny KEMBLE, autora inglesa, casada com um rico cidadão da Filadélfia, escreveu Journal of a Residence on a Gerogian Plantation in 1838-39 (Diário de Residência numa “plantation” da Geórgia de 1838-39), sobre o período no qual viveu na Geórgia e relata o cotidiano de uma fazenda escravocrata. Sobre o tema, há o clássico A Cabana do Pai Tomás, escrito por Harriet Beecher STOWE. Este romance “mostra frontalmente ao Norte seu envolvimento financeiro com a instituição da escravatura” (p. 81). Segundo Allen, este é o melhor livro sobre “todos os aspectos das condições possíveis em que viviam os escravos”; “é também provavelmente a melhor antologia das justificativas sulistas” da escravidão (p. 83). The Virginians (Os Virginianos), de Thackeray, retrata o estilo de vida na Virginia, especialmente no período anterior à Guerra Civil. A Virginia e os virginianos também são objeto da obra None Shall Look Back (Ninguém olhará para trás), escrita por Caroline GORDON. Com Absalom! Absalom, William FAULKNER nos brinda com um dos melhores relatos para a compreensão dos efeitos da escravatura sobre o Sul. Trata-se da “história essencial do Sul a partir da introdução do Negro. O cenário é o Mississipi, que só entrou para a União em 1817 e é, portanto, um dos mais novos estados sulistas” (p. 88). Já Henry ADAMS, em Democracia, nos apresenta uma visão crítica sobre o governo da União no pós-guerra civil. O mesmo ocorre com a obra de Theodore DREISER: The Financier (O Financista), The Titan (O Titã) e A American Tragedy, retratam “a maneira selvagem e amoral de aquisição na Idade Dourada” (p. 91). A “idade dourada” corresponde à fase pós-guerra civil: expansão da indústria, individualismo sem escrúpulos, caça aos espólios e cargos…

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A literatura estadunidense trata ainda de outros temas: como o processo de imigração, a relação complexa e as diferenças com a Europa, a ideologia puritana e ingênua. The Last Puritan (O Último Puritano), de George SANTAYANA, é ilustrativo do ideal estadunidense do “destino manifesto”, ou seja, do “povo escolhido” e superior aos demais. Nesta trilha, James HOGG escreveu Confessions of a Justified Sinner, um relato clássico da atitude arrogante fundada na crença puritana. O livro trata da Escócia, fins do século XVII, que, junto aos Estados Unidos, foi o único país onde o puritanismo triunfou absoluto. O rigor puritano também é tema de Nathaniel HAWTHORNE, autor de The Scarlet Letter (A Letra Escarlate). “O drama moral e psicológico que ele recria e investiga não poderia ser produto de nenhum outro lugar no mundo a não ser a costa marítima da Nova Inglaterra do século XVII, porque em nenhum outro lugar o Puritanismo existiu com tamanha pureza e em tamanho isolamento. A pureza era resultado do isolamento”, escreve Allen (p. 125).

Nos romances de Henry JAMES, os americanos tendem a representar a inocência corrompida pelos costumes europeus. The Portrait of a Lady e The Wings of the Dove exemplificam “a inocência esperançosa e idealista” contrastada com o “cinismo corrupto e luxurioso” identificados com a Europa (p. 101). Isto também se aplica à obra Os Europeus.

download (5)download (6)A crítica à ideologia e estilo de vida estadunidense está presente em vários autores: Graham GREENE, Henry THOREAU, J. D. SALINGER, John dos PASSOS, John STEINBERG, Ralph Waldo EMERSON e Sinclair LEWIS, entre outros. Em O Americano tranquilo, Greene critica a visão ingênua e simplória que o americano tem de si mesmo, a qual se fundamenta numa pretensa superioridade moral e conformista, característica herdada do puritanismo. Thoreau influenciou Tolstoi e Gandhi. Em suas obras, defende o reencontro do homem com a natureza, a vida real. “Parecia a Thoreau que a esmagadora maioria dos homens vivia o que não era vida; viviam “de maneira aviltante, como formigas’. “A nossa vida”, diz ele “dissipa-se em detalhes”, em simulações e desilusões; em trabalho e “quanto ao trabalho não temos nenhum de real importância…” (p. 142). Thoreau escreveu Desobediência Civil e Walden, or Life in The Woods. Emerson, amigo de Thoreau e autor de The American Scholar (O Intelectual Americano), promoveu a crítica “ao pedantismo e ao tradicionalismo na literatura e na escolástica, o ensaio reforça a necessidade de uma literatura democrática moderna…” (p. 140). Lewis, primeiro estadunidense a ganhar o Premio Nobel de Literatura, em 1930, em Main Street (Rua Principal), satiriza o estilo de vida de uma pequena cidade imaginária, a qual expressa a realidade de muitas cidades do interior dos EUA. Lewis “tenta destruir, pelo ridículo, a mesquinhez e o provincianismo da vida nas pequenas cidades do interior” (p. 196). Na obra Babbitt, seu tema é o pequeno homem de negócios, a classe média. O título do livro surge da fusão de rabit (coelho) e baby (bebê), isto é, “um ser facilmente assustável e ainda não totalmente formado”. O romance descreve “as tímidas revoltas de Babbitt contra a pressa da rotina e do conformismo” (p. 197).

The 42and Parallel (1930), 1919 (1932) e The Big Money (1936), trilogia escrita por John dos PASSOS, busca revelar a totalidade dos EUA. O autor utiliza recursos como manchetes de jornais, trechos de reportagens e de canções populares (“Newsreel”); inseri capítulos biográficos de importantes figuras da sociedade norte-americana. É uma obra crítica, de inspiração socialista. Allen observa que a “crítica da vida norte-americana atinge o clímax quando encontramos o jovem “carona”, desempregado, anônimo, que resume em si milhares de desempregados anônimos, de pé à margem de uma estrada qualquer do Centro-Oeste tentando conseguir uma carona, enquanto sobre ele voam os aviões, com sua carga de homens de negócios, entre Nova York e Los Angeles” (p. 207).

Nesta linha crítica, John STEINBERG, em In Dubious Battle descreve a tentativa dos comunistas em organizar os colhedores de frutas, na Califórnia. No clássico Vinhas da Ira, ele simboliza o sonho da fronteira, mas numa perspectiva crítica diferenciada de TWAIN e COOPER. Este romance expõe a indignação do autor diante da miséria social causada pela grande depressão. Trata de uma família que, arrasada pela erosão do solo e pelas dívidas com banqueiros, procura a “terra prometida” – a Califórnia. Mas esta já tinha donos e estava ocupada… A exemplo de John dos PASSOS e James T. FARRELL, STEINBERG assume a “causa dos socialmente desfavorecidos contra o poder do capitalismo financeiro” (p. 211).

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Na trilha de Vinhas da Ira, o livro “O Apanhador no Campo de Centeio, de J. D. SALINGER descreve uma fuga muito mais sem esperança, a fuga daquilo que aparece ao menino herói, as evasões e hipocrisias tacanhas, ausência de generosidade da vida adulta norte-americana”. (p. 58). “Esses dois romances, embora de maneira diferente, são igualmente críticas ao sonho norte-americano, porque demonstram sua inadequação em face das realidades brutais da vida norte-americana”, enfatiza Allen (p. 59).

Consideremos, finalmente, os romances cuja temática é a imigração. Henry ROTH, em Call it Sleep (1934), tem como cenário “as favelas de Nova Iorque, os personagens são judeus russos que vieram, em grande número, nos anos imediatamente anteriores à Primeira Grande Guerra” (p. 99). Nesta obra, como nos livros de James T. FARRELL e Willa CATHER, os imigrantes “estão impedidos pela raça, pela religião, pela língua ou pela tradição nacional, de participar da vida norte-americana exceto em seus níveis mais baixos. Eram “europeus desprovidos” no sentido mais completo do termo” (p. 103). Para Allen, Studs Loningan, escrito por FARRELL, cujo título se refere a um menino irlandês, “deve ser um dos romances mais deprimentes jamais escritos. É uma crítica, friamente selvagem, da qualidade da vida norte-americana de cidade grande” (p. 100). The Face of Time, do mesmo autor, “descreve a vida da família O’Flaherty na zona operária de Chicago durante os primeiros anos do século [XX]” (p. 101). Willa CATHER, em My Antonia (1918) e Death Comes to the Archbishop (1927), relata a história de uma família imigrante checa e expõe o sentido de perda do imigrante, de caráter muito mais cultural que político ou econômico. “Essa perda cultural, que podia resultar na diminuição consciente do imigrante ou na sua mutilação como homem, também está brilhantemente dramatizada no romance Call it Sleep de Henry Roth, publicado em 1934”, enfatiza Allen (99). Ele observa que Willa Cather “estava presa a uma idealização do passado da América e uma reação contra o seu presente” (p. 200).

Edgar Allan POE, Ernest HEMINGWAY, MELVILLE e tantos outros autores clássicos, ou menos conhecidos, da literatura estadunidense poderiam alongar esta lista. Não obstante, estas anotações literárias são suficientes para mostrar a riqueza da ficção e a sua contribuição para o conhecimento e compreensão da história política, econômica, social e cultural de um povo. Talvez seja melhor – e mais prazeroso – aprender história política e cultural com a literatura. Seja como for, eis aqui um roteiro de leitura cuja dedicação vale a pena! O mesmo é válido para a literatura brasileira!


[1] Todas as citações são de: ALLEN, Walter. O sonho americano e o homem moderno. Rio de Janeiro: Lidador, 1972.

3 comentários sobre “Sobre livros e autores dos EUA

  1. Por coincidência, nesse momento estou lendo uma antologia de textos de Alexis de Tocqueville, extraídos de clássicos seus, como Democracia na América, por exemplo. Ao me deparar com esse post sou remetido às minhas primeiras impressões sobre seu pensamento: parece ele idealizava demais mesmo as virtudes da democracia americana.

  2. Um resumo esclarecedor e uma boa recapitulaçao de “momentos significativos” da literatura americana. Talvez um grande herdeiro atual desse sonho grandioso e tao destruidor de arvores, bichos e homens, seja Jim Harrison, com seus personagens tao proximos da imensidao das paisagens americanas.

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