As contradições do “ser-no-mundo”: entre a rebeldia e a acomodação

download“Queremos mudar o mundo, forjar instituições mais compatíveis com nossas exigências, reorganizar a via em bases novas, mas percebemos que o quadro em que nos encontramos é tão profundamente deformado e nos envolve com tanta força que pode corromper até nossas iniciativas mais generosas”.   Leandro KONDER (2009, p.43).*

A consciência desse dilema não detém a rebeldia e os projetos revolucionários. Porém, aqueles que intentam transformar o mundo não estão imunes à realidade que almejam superar. Com efeito, são parte e fruto das contradições que esta envolve. São, consequentemente, pressionados a se adaptarem e, por mais que resistam, é-lhes impossível situarem-se fora da materialidade que os circunda. Esta incorpora, ainda, valores, simbologias, imaginários, etc. Assim, ainda que a mente esteja no futuro, no vir-a-ser, não há escapatória do presente e… do passado. Somos seres em construção e, portanto, ainda que prenhes do novo, carregamos em nós as tradições, valores, pensamentos da sociedade que nos forjou. As possíveis rupturas nunca são plenas, mas carregadas de continuidades. Não é possível viver em sociedade sem o mínimo de transigência em relação a esta. Daí o risco permanente de nos adaptarmos e nos corrompermos.

O movimento da história é profundamente influenciado pelas contradições entre o ser-no-mundo e o vir-a-ser, pela imperiosa necessidade – determinada pelo estar-no-mundo – e a consciência da realidade contraditória:

“Quanto mais contraditório se apresente o processo histórico, quanto mais complexas sejam as tarefas de transformação consciente da sociedade, tanto mais necessária se torna essa chama da rebeldia, para que o movimento não se mecanize, para que suas contradições não coagulem. O presente não engendra automaticamente o futuro através de uma dinâmica fatal ou espontânea: o futuro precisa lutar para nascer, para assumir uma feição determinada; precisa enfrentar criticamente o presente” (id., p. 44).

A rebeldia aponta para o futuro, para o vir-a-ser, a utopia. Mas ela atua em determinadas condições que agem no sentido de acomodá-la. O discurso da “sensatez”, do “realismo”, etc., é poderoso, pois tem a seu favor a aparente harmonia com realidade e as necessidades impostas por esta. Afinal, consideram-se vencedores aqueles que melhor se adaptam. Os rebeldes são desestabilizadores, mas também são condenados à instabilidade. Convenhamos, não é nada fácil permanecer contra a corrente.

Isolado no âmbito individual, o potencial da rebeldia tende a ser mais facilmente suprimido ou amoldado à realidade, sujeito às pressões desta. A crítica tende a ser domesticada! Solitário e fragilizado, o rebelde inconformista tende a se articular com outros insubmissos “para uma ação conjunta, contínua, duradoura, de caráter político, necessariamente racionalizada” (id., p.46). Com efeito, é entre estes que as organizações e partidos políticos, autodenominados revolucionários, encontrarão seus melhores quadros. É a rebeldia, racionalizada e organizada, que alimenta as engrenagens das máquinas políticas que pretendem mover a história na direção da sua transformação radical. Então, acredita-se, a rebeldia atinge a consciência revolucionária. Esse movimento, porém, também acarreta o risco da institucionalização da rebeldia. O indivíduo rebelde, portanto, está duplamente sujeito à pressão pela adaptação à sociedade na qual vive e/ou à adesão às organizações e instituições coletivas que se afirmam portadoras do projeto revolucionário, do vir-a-ser, da utopia a ser realizada.

A racionalização da rebeldia individual na forma do coletivo organizado, a vanguarda do proletariado, não indica a superação das contradições apontadas, nem do dilema vivido pelo indivíduo insubmisso. A organização, partido, coletivo, etc., reproduz em seu âmbito, e numa escala maior, a oposição entre o ser e o vir-a-ser; também ela se verá pressionada a se adaptar, a domesticar-se, a render-se ao “realismo político” e, no limite, ao pragmatismo – ainda que mantenha a retórica crítica à realidade social que pretendeu transformar. Conforma-se, assim, a morte da rebeldia.

Este movimento, da contestação da ordem à cooptação e defesa desta, é comprovado pela história política da social-democracia. Por outro lado, os processos revolucionários que romperam com a ordem social vigente geraram uma nova realidade síntese da anterior, ou seja, a descontinuidade na continuidade. Não poderia ser diferente, já que o “novo homem” e a “nova mulher” não podem prescindir do homem e da mulher reais, de carne e osso, ainda presos ao passado que se almejam superar. A argamassa com a qual se edificará a nova ordem social é a cultura, valores, etc., dos homens e mulheres do tempo presente, ainda influenciados pelos fantasmas do passado que assombram as mentes humanas. Mesmo os indivíduos mais potencialmente imersos na consciência do vir-a-ser não estão isentos das influências que lutam para superar. A descontinuidade, e, portanto, processos de rupturas, pressupõe liames de continuidades. Dessa forma, a contra-hegemonia e a construção das utopias concretas revelam-se com maior complexidade, muito além das simplificações dualistas e maniqueístas.

* As citações são de: KONDER, Leandro. A Derrota da Dialética: a recepção das ideias de Marx no Brasil, até o começo dos anos 30. São Paulo: Expressão Popular, 2009.

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