Rebelde sem causa?!

rebelde sem causa

Não é raro que a alegada “sensatez” mascare posturas e pensamentos conservadores. Geralmente, a rebeldia é identificada com o impulso destrutivo. Cobra-se do crítico que apresente soluções. A crítica sempre deve ser propositiva? Talvez a forma mais sutil de desqualificar a crítica esteja em afirmar a sua infertilidade, em desmerecê-la enquanto crítica com a exigência de comprometimento. A rebeldia é, então, canalizada para os espaços reconhecidos pela ordem; impõe-se que ela seja construtiva. Dessa forma, fragiliza-se o potencial “destrutivo” – no sentido de “desestabilizador” – inerente à crítica. Desconsidera-se, assim, sua positividade e o que ela contém enquanto afirmação do oposto, o vir-a-ser, ainda que latente.

Em termos práticos, exige-se não apenas que a crítica seja acompanhada de “propostas”, mas que o seu emissor atue a partir das estruturas criticadas. Assim, domestica-se a crítica e, simultaneamente, compromete-se o crítico com a instituição e as condições que estimularam sua atitude. Na política este processo efetiva-se na exigência de participar das instituições sob a crítica. Renova-se, assim, o dilema.* Historicamente, esta atitude resultou na incorporação, cooptação e domesticação da consciência crítica.

critica

O indivíduo que não se enquadra nas estruturas e instituições que sustentam a ordem social e política também é pressionado. A “consciência revolucionária” parece pressupor a exigência da crítica orgânica, isto é, conformada em um corpo social que se materializa na organização política. O argumento é forte! Para ser eficaz, o crítico precisa superar o individualismo e o isolamento e agir com outros. Ele é intimado a aderir ao partido, geralmente autodenominado revolucionário e, portanto, portador do gérmen da futura sociedade. Só se é cristão sendo membro da Igreja; da mesma forma, afirma-se que a única possibilidade de “ser revolucionário” é estar no partido, a vanguarda iluminada da classe.

O indivíduo é impotente para transformar a realidade apenas por suas próprias forças. Sua crítica tende a permanecer no âmbito a negação. O primeiro passo, portanto, é reconhecer esta fragilidade. O indivíduo que atua por si, isto é, que não articula, não se organiza em coletivos políticos, deve saber das limitações resultantes da sua opção e que dificilmente sua ação crítica terá eficácia. Com efeito, a transformação social é uma obra coletiva. Contudo, não prescinde do indivíduo. A seu modo, e com os limites inerentes à sua ação, o indivíduo também pode contribuir com o projeto do vir-a-ser. Será que a história não nos ensinou suficientemente a desconfiar tanto dos indivíduos que aspiram condensar em si a utopia quanto de grupos organizados, que se consideram “iluminados” e falam e agem em nome da classe social teoricamente portadora da nova sociedade?

ovelha e lobo

Ora, é legítimo que os indivíduos se organizem e, assim, ampliem a sua capacidade de intervenção. Mas será legítimo negar o direito de o indivíduo não aderir e optar por seguir outras veredas, ainda que caminhe só? Por acaso, sua contribuição deixa de ser relevante? Claro, é muito mais cômodo seguir em rebanho e talvez seja ainda mais vantajoso fazer parte da alcateia. Aliás, não se diz por aí que o mundo é dos espertos e dos mais capazes? Capazes de que?

O homo economicus, bem como o homo academicus, parece mais disposto a aliar-se aos os lobos e os animais ferozes e, na competição por cargos, dinheiro, status e mais-valia real e simbólica. Quem se recusa a ser caçador, corre o risco de ser transformado em caça, em ovelhas e cordeiros a serem devorados. Ou, na melhor das hipóteses, a ser visto como exótico ou cândido! Será o espírito de rebanho a melhor opção ao Homo homini lupus?! Talvez a causa da rebeldia esteja em repudiar a alcateia, mas também rejeitar a submissão ao pastor.

 

* Sugiro a leitura de As contradições do “ser-no-mundo”: entre a rebeldia e a acomodação.

6 comentários sobre “Rebelde sem causa?!

  1. De todos os textos que li aqui no teu Blog, considero este o mais instigador de todos. Nesse particular também o mais difícil. Em face disso terei o atrevimento rebelde de lançar alguns comentários (na verdade delírios):
    – A rebeldia, a revolta, o inconformismo ao que parece estão presentes em todas as pessoas. Em algumas, esse agir torna-se mais evidente (persiste) e na maioria dá lugar à sublimação, aquietamento, aceitação das chamadas normas sociais. Nesse particular também se observa as fugas do revoltado, que impedido de seguir suas ideias, migra para o álcool, para as drogas, para a religião, tornando-se também mero reprodutor da opressão da qual foi vitima. Não raro também lhe é incutido que os percalços da vida são fruto de seu período (não necessariamente um só) de rebeldia. Muitos são chantageados pela família – acho que a maioria – amigos, escola, empresa, na base do “te acomadas”, “te endireitas” ou está no “olho da rua”. Obvio que estas circunstâncias não são lineares, mas a coação é regra e não exceção. Focastes no particular da rebeldia tolerada, ou seja, a revolta poderia ser canalizada para a causa, para o Partido, quando na verdade a adesão à organização vertical significa ‘ninguezar-se’ (curvar-se) diante de uma pseudo autoridade escudada numa suposta vontade do coletivo. Fazer parte e “adespois” sair (expontâneamente ou forçado) da escola, retirar-se de uma torcida, da instituição igreja, do trabalho, do partido, etc. na maioria das vezes reforça o discurso reacionário de que o rebelde está contra os valores sociais vigentes, os quais ditam regras imutáveis e dão guarida aos tradicionais argumentos de que o sujeito visado é desajustado, intransigente, muito radical, mal resolvido, tem “poblemas”, imputando-lhe não raro adjetivos que passam ao largo da realidade fática. Há os que se salvam pela inteligência, pois sequer entram ou ao sair, por exemplo, da Escola, emprego, etc. o fazem sutilmente, “sem levantar poeira” evitando os rótulos que poderiam lhes trazer sérios aborrecimentos. O problema é que na maioria dos casos não podemos trabalhar com a hipótese anterior, pois os choques entre a rebeldia e o status quo vigente tornam-se inevitáveis e o rebelde “sem calça” se expõe e passa a receber o combate das patrulhas do socialmente aceito, dos defensores da ordem e moral social vigente. O desajustado vive o dilema de enquadrar-se ou ser socialmente excluído. Criança, jovem, ou indivíduos hipossuficientes economicamente logo ficam sem opções e nestas circunstâncias não raro são dobrados na base da pancada. Muitos, a nosso ver equivocadamente, expõem sua rebeldia ao fugarem da escola – no caso brasileiro por outro lado acho que até ganham – para trabalhar, não percebendo a ingenuidade da atitude, pois ficam reféns de suas limitações operacionais diante de uma sociedade cada vez mais tecnológica. O hiato existente entre os que têm acesso e como isso desenvolve habilidades e os excluídos são abissais. Milhões no Brasil agradeceriam a Deus se percebessem mensalmente os míseros R$ 724 mensais, pois vivem na abjeta informalidade, impedidos com isso inclusive das futuras migalhas da previdência. Particularmente prefiro um rebelde esclarecido – autodidata – que um alienado analfabeto, obvio sob o risco de estar totalmente equivocado. Fico também me perguntando se ter uma causa é rebeldia ou se se é rebelde sem causa? A meu ver a revolta é a tônica da ação do ser, consequentemente ele não precisa ter uma causa, motivo, ou circunstância, mas viver de acordo com o que lhe pareça compatível ao seu juízo. Não obstante a isso, os rebeldes tem que estar cientes dos inúmeros fatores que convergem para lhes dar combate. Numa sociedade doente como a nossa ser “normal” é também um paranoia. Ser rebelde, desajustado, inconformado, revoltado é afirmar-se diante dos supostamente politicamente corretos que na perversa realidade excluem milhões e estão avassaladoramente destruindo todas as formas de vida. Encerro dizendo que o sujeito perfeitamente capaz que vive à custa dos outros não pode ser considerado rebelde e sim não passa de parasita, de um enganador – prestidigitador – ou melhor dizendo de um explorador, o rebelde repele com sua ação contestadora esse tipo de conduta.
    Pedro
    Caxias do Sul, 08 de abril de 2014.

  2. Toda ação humana é um equilíbrio dinâmico muito a esquerda é a direita. A dialética do desejo está na insensatez. Vazios são preenchidos pela vontade de existir de modo romântico e quixotesco. Quanto essa motivação fica entregue a tutela temos a morte do novo. E a vilania e um compromisso não pelo amor a causa. Mas de ódio a quem causa algum incômodo. Liberdade do sorrir do outro quando não educa para buscar uma boa gargalhada. Gera nos outros um rancor pelo prazer perdido por uma ordem que só possui sustentação quando a ignorância e a base do discurso em que para existir precisa negar o correr pelo inusitado futuro.

    • Jefferson,

      boa noite.
      Obrigado por ler e comentar. Vc escreve bem e suas palavras são instigantes. Só não compreendi bem o que realmente significa a frase “Toda ação humana é um equilíbrio dinâmico muito a esquerda é a direita”.

      Abraços e tudo de bom,

  3. Instigantes reflexoes de domingo de manha! Acho que suscitam outras questoes, como por exemplo, sera que o grupo nao tenderia a reagir como um corpo orgânico e exigir de suas partes um funcionamento coordenado, simplesmente para poder sobreviver?
    Sobretudo, qual é a saida para o individuo? Criticas apenas esboçadas serao simples desabafos que so terao expressao quando somados a outros para ter força (o que a simples existência da internet veio revolucionar, alias). Falar da revolta seria muito complicado (passo-lhe este encargo…rsrsrs).
    Talvez a saida por excelência do individuo seja a chama da criaçao artistica, a formulaçao de uma reflexao inspirada, de uma forma plastica qualquer, de um som que se desdobre em harmonias que falem a outros individuos sem necessariamente passar por reaçoes racionais… etc etc.
    Bom domingo, Professor!

    • Regina,

      boa noite.
      Obrigado por ler e comentar.
      Sim, me parece que o grupo sempre tende a reagir como corpo e a “enquadrar” o indivíduo. A relação entre grupo (coletivo) e indivíduo é sempre tensa e permanece como um dilema. Da resposta a este, depende a “saída” para o indivíduo. De qualquer forma, sempre há ônus.

      Abraços e tudo de bom

Comente!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s