Literatura Política – “Gente Pobre”, de Dostoiévski

gente pobreGente Pobre é o primeiro romance de Fiódor Dostoiévski. É um livro no estilo epistolar – troca de cartas entre Makar Diévuchkin, funcionário de uma repartição pública de Petersburgo, e sua vizinha Varvara Alieksiêievna, uma jovem órfã injustiçada – que mostra a adesão à causa dos humildes e realça a importância dos pequenos gestos no cotidiano das relações humanas. Nele, Dostoiévski enfatiza os valores e sentimentos dos pobres (dignidade, honra, reputação, etc.). Ele humaniza o demasiado humano. Seu tema central é a dignidade humana dos pobres. Segundo Fátima Bianchi, que traduziu a obra diretamente da língua russa:

“A intenção do escritor, na representação do cotidiano de seu personagem em sociedade, é demonstrar, através da imagem que ele tem de si mesmo, que sua miséria exterior não espelha o que lhe vai nas profundezas do coração. Tanto que as necessidades materiais que Diévuchkin é forçado a experimentar o tempo todo, e que se tornam objeto de séria atenção e discussão em suas cartas, não fazem dele um homem ridículo” (Posfácio, p. 178-179).*

A obra pode ser analisada numa perspectiva política-sociológica? Há obras que “respiram” política desde o primeiro parágrafo (exemplo: “1984”, de George Orwell); noutras, a política não “aparece” ao leitor de forma direta. O aspecto “político-sociológico” precisa ser apreendido. Isto exige um esforço de análise, mas as dificuldades não são intransponíveis. Basta uma leitura mais atenta, informar-se, relacionar texto e contexto, etc.

O estilo literário, o foco da narrativa, etc., influenciam a análise. Nele, a política parece ausente. Mas o olhar atento sobre o contexto social, econômico e político da época, explícito ou implícito nas entrelinhas, nas cartas que expressam a vida social em que estão inseridos os personagens, observará os aspectos políticos-sociológicos presentes na obra.

Nesta perspectiva, a chave para analisar o texto depende da assimilação do conteúdo e o caminho da análise está em aberto – isto significa que depende da reflexão de cada um. Por exemplo: um livro como este poderia ser analisado na perspectiva da relação entre política e cotidiano. O homem e a mulher pobres, gente simples, pensam, sentem e encontram-se envoltos em redes políticas que nem sempre compreendem. Tendem a naturalizar as relações sociais, a desigualdade social, os efeitos da política e a dar um sentido moral e teológico à vida – ou seja, buscar na religião a explicação para a pobreza, a miséria e o sofrimento, como se fosse o destino dos pobres:

“É preciso nos habituarmos; é preciso que haja medo” (p. 94).

“… decerto que esse era o meu destino – e do destino não se foge, como se sabe” (p. 102).

“É claro que em tudo está a vontade divina; é verdade que isso deve ser necessariamente assim, isto é, a vontade divina deve necessariamente estar nisso; assim como é claro que a Providência do Criador Celeste é bendita e insondável e os destinos também, eles também são a mesma coisa” (p. 161).

Estas palavras ilustram o pensamento dos pobres sobre a vida. Por que pensam dessa forma? A política tem algo a dizer sobre isto, ou trata-se apenas de uma questão de sorte ou azar dos indivíduos? A injustiça social expressa na vida dos personagens tem caráter político? À sua maneira, fazem política. O dia-a-dia e os “pequenos gestos”, a necessidade de manter as aparência expressam significados políticos? O que é ser cidadão naquele contexto?

O Estado, isto é, a política institucional, aparece nos interstícios da narrativa. Por mais que o autor concentre-se nos personagens, eles não estão “soltos no ar”. Quem é este senhor, esta moça que se correspondem? O que eles expressam na Petersburgo do século XIX? Quais as características desta cidade e da Rússia em que vivem, ou seja, o chão social e político que permitem sua existência – e tornam possível uma obra como esta? Quais os valores morais, religiosos, etc. presentes? É possível apreendê-los e relacioná-los com a política?

Em suma, o que dá sentido à vida dos pobres? No fundo, a obra se resume a isto! Portanto, ainda que o leitor não tenha o intento da reflexão política-sociológica, terá uma experiência ímpar sobre o humano, demasiado humano. A sua sensibilidade, se desabrochada, será fortalecida e muito provavelmente tornar-se-á mais humano, confirmando as palavras do personagem dostoievskiano, Makar Diévuchkin:

“A literatura é uma coisa muito boa, Várienka, muito boa; disso me inteirei anteontem através deles. É algo profundo! É algo que edifica e fortalece o coração das pessoas (…). A literatura é um quadro, ou seja, em certo sentido um quadro e um espelho; é a expressão da paixão, uma crítica tão fina, um ensinamento edificante e um documento” (p. 74).

 

* Posfácio, p. 178-179. In: DOSTOIÉVSKI, F. Gente Pobre. São Paulo: Editora 34, 2009. Todas as citações são da obra!

6 comentários sobre “Literatura Política – “Gente Pobre”, de Dostoiévski

  1. OH, REGINA, OS PAISES RICOS, AS PODEROSAS AGUIAS, QUE SOBREVOAM O MUNDO NORMAL, ELAS COMEÇARAM A DESMANCHAR-SE, AS ENERGIAS DISPONIVEIS, NO ÉTER, NO PRANA, TEEM NOS MUDADO, EVOLUIDO-SE, UM DEGRAU ACIMA, QUER QUEIRAMOS OU NAO; MAS A CONSOLIDAÇÃO, DESSA ENERGIA, LEVA UM TEMPO, CONSOME UM TEMPO.
    HA – HOUVE, SACRIFICIOS DE CRIANÇAS EM CULTOS SATANICOS; COM A PRESENÇA DE ALTISSIMAS AUTORIDADES, ALTISSIMAS, NO VERDADEIRO SENTIDO DA PALAVRA.
    CABE-NOS ATENÇÃO, EM BUSCA DA VERDADE. ATENÇÃO AS NOSSAS FONTES INFORMADORAS. NESTE MOMENTO HA UM JULGAMENTO EM BRUXELAS SOBRE ESSES CARRASCOS, TRAVESTIDOS DE OVELHAS BRANCAS QUE CIRCULAM A NOSSA FRENTE, SEMPRE EM UM PATAMAR MAIS ELEVADO, QUE NÓS, NORMAIS. GERAMOS DURANTE SECULOS, UMA NUVEM DE MAUS PENSAMENTOS, QUE NOS COBRE A TERRA, E NÓS PRECISAMOS TROCA-LA, SUBSTITUIR A NUVEM NEGATIVA, POR UMA NUVEM POSITIVA, ISSO DEMORA, MAS TEMOS QUE COMEÇAR. CABE-NOS, PRINCIPIANTES NESTE CONHECIMENTO, DIVULGA-LO, ENSINA-LO, POIS DE NADA ADIANTA, EU SABER, OU CONHECER E NAO DIVULGAR AO MEU PRÓXIMO ; ENQUANTO HOUVER UM ÚNICO PRÓXIMO ENVIANDO MAUS PENSAMENTOS À NUVEM, NENHUM DE NÓS, SUBIRÁ,OUTRO DEGRAU.

  2. Oh! Ozaí quanta erudição em sua escolha blogueira, excelente!!! Não li este livro do Fiodor, mas uma das características deste autor, além de colocar diversas vozes e segmentos em contraposição, é o caráter cristico> Há sempre uma personagem que se repete em qualquer obra: Aliocha, ele encarna a redenção, a coda cristica do amor e da renuncia pelo próximo, geralmente oprimido. Não o vejo, neste sentido, com uma marca essencialmente política, mas de renuncia diante da opressão, das relações de algozes e vítimas eternas e polifónicas.

  3. Uma dignidade literária que vê a pobreza não como um destino a ser cumprido de modo amargo e triste não há final feliz, porque esse sentido está comprometido com escolhas que superam a condição material. Dickens, por exemplo, entende a miséria e orfandade como o resultado de um acaso ou da crueldade humana seus finais são redentores.
    A literatura russa coloca a denúncia em um plano humano, psicológico em que as dores são uma forma de perceber a realidade sem maniqueísmos a resistência é uma opção não para resgatar a condição digna de sua existência, pois essa eles já possuem. Mas, buscar uma liberdade e resultados pelo trabalho exercido ao longo de uma vida. Já vi moradores de rua, com uma elegância ao comer e um andar em que superam ricos a dignidade está no interior das ações quando a observação vai além do jogo das aparências.

  4. Excelente leitura, que da vontade de ler esse romance de Dostoïevski, sobretudo nesta nova traduçao direta do russo.
    Eu acrescentaria que o autor nao fala de “gente pobre”, mas dessa “pobre gente” que somos nos todos, que frequentemente somos essa “gente simples, (que) pensam, sentem e encontram-se envoltos em redes políticas que nem sempre compreendem”, mesmo quando dispoem de instrumentos intelectuais de analise da realidade. Haja vista as ultimas guerras do século XX, conduzidas por paises os mais ricos e bem informados do mundo!
    Como voce bem notou, o ponto de vista religioso ou fatalista dos personagens ocupa o primeiro plano, as angustias de um cotidiano apequenado nao sao nunca ridiculas, e o contexto politico é o pano de fundo que faz com que esse homem e essa mulher nao fiquem soltos no ar, como voce diz, mas tenham concretude mais proxima de nos. O que faz esse narrador é dar lugar e vez à voz de personagens certamente diferentes dele (mas talvez nao muito!). Chamando-os ao centro da narrativa ele faz de seu romance um universal ainda capaz de nos espelhar, no Brasil ou na Franca do século XXI, justamente por abrir sua linguagem a uma infinita diversidade humana. Essa diversidade, ele a investiga, com fascinaçao e respeito por algo jamais desvendado completamente.
    Bom domingo!

  5. Grade Professor Ozaí. Ótimo texto. Muito sensível e inspirador. Fez-me pensar sobre minha pesquisa com os “pobres de rua”. Como encontrar uma explicação política pra eles, fugindo do “senso comum” sociológico da alienação e do determinismo? Seu texto me ajudou a pensar. Vou guardá-lo. Abraços.

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