O LIBERALISMO – Harold J. LASKI

liberalismoPara a evolução do liberalismo foram de primordial importância as contribuições de homens que ignoravam os seus propósitos e frequentemente lhe era hostis: de Maquiavel a Calvino, de Lutero e Copérnico, de Henrique VIII e Tomás Moro, num século; de Richelieu e Luís XIV, de Hobbes e Jurieu, de Pascal e Bacon, num outro. O impacto inconsciente dos eventos foi, pelo menos tão responsável quanto o esforço deliberado dos pensadores na configuração do clima mental que o tornou possível. Os descobrimentos geográficos, a nova cosmologia, as invenções tecnológicas, uma metafísica renovada e secular e, sobretudo, as novas formas da vida econômica, tudo isso contribuiu para a formação das ideias propulsoras do liberalismo. Não teria se convertido naquilo que foi sem a revolução teológica a que chamamos a Reforma; e esta, por seu turno, recebeu muito do seu caráter de tudo o que está implícito no renascimento do saber. Uma boa parte do seu caráter foi moldado pelo fato do desmoronamento da republica christiana medieval ter dividido a Europa numa congérie de distintos Estados soberanos, cada um deles com seus próprios problemas especiais a resolver e sua experiência singular a oferecer. O nascimento do liberalismo tampouco foi fácil. Revolução e guerra presidiram ao seu parto; e não será despropositado afirmar que dificilmente houve um período, até 1848, em que o seu crescimento não tenha sido sustado pelo desafio da revolução violenta. Os homens bateram-se apaixonadamente para reter aqueles hábitos tradicionais em que seus privilégios estavam envolvidos; e, o liberalismo representava, sobretudo, um desafio a interesses estabelecidos e sacramentados pelas tradições de meio milhar de anos.

A mudança que efetuou foi, portanto, incomensurável – por qualquer padrão que usemos para aferi-la. Uma sociedade em que a posição social era habitualmente definida, o mercado predominantemente local, a instrução e a ciência – mas na sociedade do que em sua estrutura essencial – mudavam de modo usualmente inconsciente e tornavam-se, por via de regra, causa de ressentimentos; em que os hábitos eram dominados por preceitos religiosos, de que poucos duvidavam, e nunca com êxito, em que havia pouca acumulação de capital e a produção era dominada pelas necessidades de um mercado para uso local, desintegrou-se lentamente. Com o triunfo da nova ordem, no século XIX, a Igreja já tinha dado origem ao Estado como árbitro institucional do destino humano. Às reivindicações de nascimento sucederam-se as reivindicações de propriedade. O espírito inventivo fizera da mudança, em vez da estabilidade, a característica suprema da cena social. Um mercado mundial surgia, e o capital acumulava-se numa tão imensa escala que a busca de lucros passou a afetar a vida e a fortuna de sociedades, para as quais a civilização europeia não tivera, previamente, significado algum. Se a instrução e a ciência ainda eram companheiras inseparáveis e prestimosas da propriedade, o seu significado, porém, era agora apreciado por todas as classes da sociedade. Se os preceitos religiosos ainda eram levados em conta, o seu poder de domínio sobre os hábitos, entretanto, desaparecera até entre os seus devotos.

Isto não quer dizer que o liberalismo, mesmo em seu triunfo, fosse um corpo bem definido de doutrina ou prática. Procurou estabelecer um mercado mundial; mas a lógica desse esforço foi frustrada pelas implicações políticas do nacionalismo que cercou seu nascimento e floresceu com o seu crescimento. Procurou reivindicar o direito do indivíduo a modelar o seu próprio destino, independentemente de qualquer autoridade que pudesse desejar limitar-lhe as possibilidades; entretanto, descobriu que, inerente a essa reivindicação, havia uma contestação inevitável, por parte da comunidade, à soberania do indivíduo. Procurou aliviar todos os entraves que a lei pudesse impor ao direito de acumular propriedade; e descobriu que a reivindicação desse direito envolvia o surgimento de um proletariado disposto a atacar as suas implicações. Numa palavra, mal atingira as suas finalidades, o liberalismo já se via compelido a enfrentar um desafio aos seus postulados, desafio esse que parecia destinado a mudar, infalivelmente, a ordem por ele gerada.

 

[Fonte: LASKI, Harold J. O liberalismo europeu. São Paulo: Editora Mestre Jou, 1973, p.10-11]

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