Sobre fotografia

11645_gPublicado originalmente em 1977, On photography reúne ensaios escritos pela romancista e filósofa Susan Sontag (1933-2004). Nesta obra, o fenômeno da imagem fotográfica, desde o aparecimento do daguerreótipo, no século XIX, é analisado em todos os seus aspectos. Ganhador do National Book Critic Circle Award de 1977, este livro oferece uma história social da fotografia e proporciona uma reflexão estética, filosófica, sociológica, etc., para além da técnica. Sua linguagem e estilo instiga o leitor a pensar criticamente sobre a imagem e o lugar central que a fotografia ocupa no mundo contemporâneo.

Escrito antes do advento da Internet, do Facebook, redes sociais, etc., estes ensaios mostram-se ainda mais atuais. Sobre fotografia é essencial para compreendermos o fotografar, o significado da imagem e do ser fotógrafo, numa época em que a tecnologia digital democratizou o fotografar e a difusão alucinante das imagens; um tempo de narcisismo exacerbado, de exposição banalizada e sem critérios da vida privada.

A reflexão sobre estas questões acarreta o risco do desencantamento do mundo da fotografia e do métier do fotógrafo. De repente, a foto e o ato de fotografar adquirem um sentido que em nada corresponde ao pensamento ingênuo e não reflexivo. Ler Sobre fotografia é assumir a possibilidade de perder as ilusões. Pode ser doloroso, a consciência desvelada cobra seu tributo. Mas promove o crescimento intelectual e a compreensão mais apurada sobre a realidade. Vale a pena arriscar-se!

***

susan

Em Sobre fotografia, Susan Sontag reúne várias citações em homenagem a W. B. Ela simplesmente transcreve sem comentar. Seguirei seu exemplo. Reproduzo alguns trechos da sua obra.* É também uma forma de homenagear o leitor, especialmente os fotógrafos e àqueles que adoram fotografias. Espero que estimule a leitura da obra e contribua para a reflexão crítica sobre as fotos e o ato de fotografar:

***

“A humanidade permanece, de forma impenitente, na caverna de Platão, ainda se regozijando, segundo seu costume ancestral, com meras imagens da verdade” (13).

“Essa insaciabilidade do olho que fotografa altera as condições do confinamento na caverna: o nosso mundo. Ao nos ensinar um novo código visual, as fotos modificam e ampliam nossas ideias sobre o que vale a pena olhar e sobre o que temos o direito de observar. Constituem uma gramática e, mais importante ainda, uma ética do ver” (13).

“As fotos são, de fato, experiência capturada, e a câmara é o braço ideal da consciência, em sua disposição aquisitiva” (14).

“Fotografar é apropriar-se da coisa fotografada. Significa por a si mesmo em determinada relação com o mundo, semelhante ao conhecimento – e, portanto, ao poder” (14).

“Mesmo quando os fotógrafos estão muito mais preocupados em espelhar a realidade, ainda são assediados por imperativos de gosto e de consciência” (16-17).

“Ao decidir que aspecto deveria ter uma imagem, ao preferir uma exposição a outra, os fotógrafos sempre impõe padrões a seus temas. Embora em certo sentido a câmera de fato capture a realidade, e não apenas a interprete, as fotos são uma interpretação do mundo tanto quanto as pinturas e os desenhos” (17).

“Existe uma agressão implícita em qualquer emprego da câmera” (17).

“Em época recente, a fotografia tornou-se um passatempo quase tão difundido quanto o sexo e a dança – o que significa que, como toda forma de arte de massa, a fotografia não é praticada pela maioria das pessoas como uma parte. É sobretudo um rito social, uma proteção contra a ansiedade e um instrumento de poder” (18).

“Tirar fotos estabeleceu uma relação voyeurística crônica com o mundo, que nivela o significado de todos os acontecimentos” (21).

“Uma foto não é apena o resultado de um encontro entre um evento e um fotógrafo; tirar fotos é um evento em si mesmo, e dotado de direitos mais categóricos – interferir, invadir ou ignorar, não importa o que estiver acontecendo” (21).

“Fotografia é, em essência, um ato de não intervenção. (…) A pessoa que interfere não pode registrar; a pessoa que registra não pode interferir” (22).

“…existe algo predatório no ato de tirar uma foto. Fotografar pessoas é violá-las, ao vê-las como elas nunca se veem, ao ter delas um conhecimento que elas nunca podem ter; transforma as pessoas em objetos que podem ser simbolicamente possuídos. Assim como a câmera é uma sublimação da arma, fotografar alguém é um assassinato sublimado – um assassinato brando, adequado a uma época triste e assustada” (25).

“Todas as fotos são memento mori. Tirar uma foto é participar da mortalidade, da vulnerabilidade e da mutabilidade de outra pessoa (ou objeto). Justamente por cortar uma fatia desse momento e congelá-lo, toda foto testemunha a dissolução implacável do tempo” (26).

“Fotos não podem criar uma posição moral, mas podem reforçá-la – e podem ajudar a desenvolver uma posição moral ainda embrionária” (28).

“Fotos podem ser mais memoráveis do que imagens em movimento porque são uma nítida fatia do tempo, e não um fluxo” (28).

“Cada foto é um momento privilegiado, convertido em um objeto diminuto que as pessoas podem guardar e olhar outras vezes” (28).

“A fotografia dá a entender que conhecemos o mundo se o aceitamos tal como a câmera o registra. Mas isso é o contrário de compreender, que parte de não aceitar o mundo tal como ele aparenta ser. Toda possibilidade de compreensão está enraizada na capacidade de dizer não. Estritamente falando, nunca se compreende nada a partir de uma foto” (33).

“O limite do conhecimento fotográfico do mundo é que, conquanto possa incitar a consciência, jamais conseguirá ser um conhecimento ético ou político. O conhecimento adquirido por meio de fotos será sempre um tipo de sentimentalismo, seja ele cínico ou humanista” (34).

“A necessidade de confirmar a realidade e de realçar a experiências por meio de fotos é um consumismo estético em que todos, hoje, estão viciados. As sociedades industriais transformam seus cidadãos em dependentes de imagens; é a mais irresistível forma de poluição mental” (34).

“Não seria errado falar de pessoas que têm uma compulsão de fotografar: transformar a experiência em si num modo de ver. Por fim, ter uma experiência se torna idêntico a tirar dela uma foto, e participar de um evento público tende, cada vez mais, a equivaler a olhar para ele, em forma fotografada” (34-35).

“Fotografar é atribuir importância” (41).

“A câmera é uma espécie de passaporte que aniquila as fronteiras morais e as inibições sociais, desonerando o fotógrafo de toda responsabilidade com relação às pessoas fotografadas” (54).

“O fotógrafo é um superturista, uma extensão do antropólogo, que visita os nativos e traz de volta consigo informações sobre o comportamento exótico e os acessórios estranhos deles. O fotógrafo sempre tenta colonizar experiências novas ou descobrir maneiras novas de olhar para temas desconhecidos – lutar contra o tédio. Pois o tédio é exatamente o reverso do fascínio: ambos dependem de se estar fora, e não dentro, de uma situação, e um conduz ao outro” (54).

“A miséria social inspirou, nos bem situados, a ânsia de tirar fotos, a mais delicada de todas as atividades predatórias, a fim de documentar uma realidade oculta, ou, antes, uma realidade oculta para eles” (69).

“Ao observar a realidade dos outros com curiosidade, com isenção, com profissionalismo, o fotógrafo ubíquo age como se essa atividade transcendesse os interesses de classe, como se a perspectiva fosse universal” (69-70).

“Alguns fotógrafos se fazem de cientistas, outros, de moralistas. Os cientistas fazem um inventário do mundo; os moralistas concentram-se em pessoas com sérios problemas” (74).

“Os turistas  invadiram a privacidade dos índios, fotografavam objetos sagrados, danças e locais sagrados, pagavam, se necessário, aos índios para posarem e induziram-nos a alterar suas cerimônias a fim de propiciar material mais fotogênico” (79).

“O fotógrafo saqueia e também preserva, denuncia e consagra” (79).

“Olhar uma velha foto de si mesmo, de alguém que conhecemos ou de alguma figura pública muito fotografada é sentir, antes de tudo: como eu (ela, ele) era muito mais jovem na época. A fotografia é o inventário da mortalidade” (85).

“As fotos declaram a inocência, a vulnerabilidade de vidas que rumam para a própria destruição, e esse vínculo entre fotografia e morte assombra todas as fotos de pessoas” (85).

“Assim como o fascínio exercido pelas fotos é um lembrete da morte, é também um convite ao sentimentalismo. As fotos transformam o passado no objeto de um olhar afetuoso, embaralhando as distinções morais e desarmam juízos históricos por meio do pathos generalizado de contemplar o passado” (86).

“A sedução das fotos, seu poder sobre nós, reside em que elas oferecem, a um só tempo, uma relação de especialista com o mundo e uma promíscua aceitação do mundo” (96).

“Salvo nessas ocasiões em que a câmera é usada para documentar, ou para observar ritos sociais, o que move as pessoas a tirar fotos é descobrir algo belo” (101).

“O papel da câmera no embelezamento do mundo foi tão bem-sucedido que as fotos, mais do que o mundo, tornaram-se o padrão do belo” (101)

“Muitos se sentem nervosos quando vão ser fotografados: não porque receiem, como os primitivos, ser violados, mas porque temem a desaprovação da câmera. As pessoas querem a imagem idealizada: uma foto que as mostre com a melhor aparência possível. Sentem-se repreendidas quando a câmera não devolve uma imagem mais atraente do que elas são na realidade” (102).

“E um dos esforços típicos dos profissionais retratistas, profissionalmente levados a preservar rostos famosos (como o de Garbo), que são de fato ideais, consiste em procurar rostos “autênticos”, em geral buscado entre pessoas anônimas, pobres, gente socialmente indefesa, idosos, loucos – pessoas indiferentes à agressão da câmera (ou sem força para protestar)” (120).

“A câmera pode ser leniente; ela é também uma especialista em crueldade” (120).

“Como cada foto é apenas um fragmento, seu peso moral e emocional depende do lugar em que se insere. Uma foto muda de acordo com o contexto em que é vista” (122).

“Fotógrafos imbuídos de preocupação social supõem que sua obra possa transmitir algum tipo de significado estável, possa revelar a verdade. Mas, em parte por ser a fotografia sempre um objeto num contexto, tal significado está destinado a se esvair; ou seja, o contexto que molda qualquer uso imediato da fotografia – em especial o político – é imediatamente seguido por contextos em que tais usos são enfraquecidos e se tornam cada vez menos relevantes” (122).

“Mas a tendência estetizadora da fotografia é tamanha que o veículo que transmite sofrimento termina por neutralizá-lo. As câmeras miniaturizam a experiência, transformam a história em espetáculo. Assim como criam solidariedade, fotos subtraem solidariedade, distanciam as emoções” (126).

“O impulso de tirar fotos é, em princípio, indiscriminado, pois a prática da fotografia está agora identificada com a ideia de que tudo no mundo poderia se tornar interessante por meio da câmera” (127).

“Muitas vezes se invocam fotos como apoio à compreensão e à tolerância. No jargão iluminista, a mais elevada vocação da fotografia consiste em explicar o homem para o homem. Mas fotos não explicam; constatam” (127).

“Na fotografia, o assunto sempre prevalece, e assuntos diferentes criam abismos intransponíveis entre um período e outro no vasto corpo de uma obra, confundindo a assinatura” (151).

“Uma vez que a fotografia toma o mundo inteiro como seu tema, existe espaço para todo tipo de gosto” (158).

“O gosto na fotografia tende a ser, talvez necessariamente, global, eclético, permissivo, o que significa que, no fim, deve negar a diferença entre bom gosto e mau gosto” (159).

“A fotografia é, de várias maneiras, uma aquisição” (172).

“Mas o verdadeiro primitivismo moderno não consiste em ver a imagem como uma coisa real; imagens fotográficas dificilmente são tão reais assim. Em vez disso, a realidade passou cada vez mais a se parecer com aquilo que as câmeras mostram” (177).

“Enquanto muitas pessoas, em países não industrializados, ainda se sentem apreensivas ao ser fotografadas, suspeitando tratar-se de algum tipo de transgressão, um ato de desrespeito, um saque sublimado da personalidade ou da cultura, as pessoas de países industrializados procuram ser fotografadas – sentem que são imagens e que as fotos as tornam reais” (178).

“Fotos são um meio de aprisionar a realidade, entendida como recalcitrante, inacessível; de fazê-la parar. Ou ampliam a realidade, tida por encurtada, esvaziada, perecível, remota. Não se pode possuir a realidade, mas pode-se possuir imagens (e ser possuído por elas)” (180).

“Não é a realidade que as fotos tornam imediatamente acessível, mas sim as imagens” (181).

“A fotografia, que tem tanto usos narcisistas, é também um poderoso instrumento para despersonalizar nossa relação com o mundo; e os dois usos são complementares” (183).

“As câmeras definem a realidade de duas maneiras essenciais para o funcionamento de uma sociedade industrial avançada: como um espetáculo (para as massas) e como um objeto de vigilância (para os governantes). A produção de imagens também supre uma ideologia dominante. A mudança social é substituída por uma mudança em imagens. A liberdade de consumir uma pluralidade de imagens e de bens é equiparada à liberdade em si. O estreitamento da livre escolha política para libertar o consumo econômico requer a produção e consumo ilimitado de imagens” (195).

“A razão final para a necessidade de fotografar tudo repousa na própria lógica do consumo em si. Consumir significa queimar, esgotar – e, portanto, ter de se reabastecer” (195).

“As câmeras são o antídoto e a doença, um meio de apropriar-se da realidade e um meio de torná-la obsoleta” (196).

 

* SONTAG, Susan. Sobre fotografia. São Paulo: Companhia das Letras, 2004. Entre parênteses, a informação da página correspondente à citação.

Um comentário sobre “Sobre fotografia

  1. A fotografia é hoje um recurso infinito, mas poucos têm o olhar incomum sobre a rotina. Desse modo o registro fica preso a intenção dos imprudentes que agora por medo de não existir “batem” fotos de si mesmo, numa clara vontade de anular as feridas do anonimato.

Comente!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s