Notas esparsas: senso comum, saber e arrogância, literatura, religião, política, Gilberto Freyre, educação, revolução, etc.

imagesSenso comum

O que é o senso comum? Por que nós, os intelectuais, geralmente somos tão reticentes a tudo que consideramos “senso comum”: a cultura popular e de massa, a religiosidade, linguagem não-formal, etc.? Há até mesmo os que têm dificuldades em se relacionar com as pessoas comuns, isto é, os simples mortais que não frequentam os bancos universitários ou mesmo acadêmicos, tão influenciados pela indústria cultural, que não conseguem ver além dos próprios narizes e… umbigos. Suas conversas sobre o cotidiano, o corriqueiro, quase que crônicas da vida, até irritam alguns entre nós. E muitos se exasperam quando leem o que seus alunos escrevem e notam que eles não conseguem analisar e avançar pelo menos um passo para além do senso comum. Outras vezes, o nosso intelectualismo nos torna chatos e incapazes de dialogar minimamente com os comuns dos mortais sobre as coisas mais simples da vida – em geral, temas que consideramos supérfluos, perda de tempo… A resistência ao que consideramos senso comum, portanto, conhecimento não-científico, desqualificado, é tão forte no meio acadêmico que até mesmo os estudantes tem a expectativa do “discurso professoral”. A medida da inteligência passa a ser a ininteligibilidade. Quanto menos você se faz entender, mas inteligente parece ser!

downloadSaber e arrogância

“Quanto mais vivo, quanto mais leio, quanto mais pacientemente penso, quanto mais ansiosamente questiono, menos pareço saber”, afirma John Adams.[1] Revejo minhas anotações de leitura e fico a pensar. Quanto mais leio, mais me convenço de que pouco sei; que o meu saber é uma gota d’água no oceano do conhecimento universal. E mais me admira a arrogância de certos jovens acadêmicos, pirralhos que mal sabem pronunciar frases articuladas e com sentido, e outros, de qualquer idade, cuja verborragia ostentativa, pedante e superficial confundem com saber e agem como se fossem os mais inteligentes de todo o universo. Há também a arrogância discursiva ideologizada do pretenso militante que repete slogans e verdades doutrinárias. Uns e outros consideram-se sábios e defensores da causa da humanidade, mas são incapazes de conviver com o ser humano particular e concreto no cotidiano. Revelam-se leitores de um único autor, muitas vezes de apenas um livro tomado à maneira do texto sagrado, como a verdade inquestionável.

Dialética da religião

Não sou católico, mas fiz questão de participar do ritual de crisma da minha filha. Para além das minhas opiniões sobre as religiões e ideologias seculares, esse foi um momento importante na vida dela. O amor de pai está acima das idiossincrasias e a atitude que tomamos diante de determinadas circunstâncias tem papel pedagógico. Educamos mais pelas ações do que pelo discurso. Minha filha sabe o que penso sobre a catequese, crisma e a religião em geral; mas também sabe que respeito as suas opções e crenças. A religião, já disse o filósofo alemão, é o ópio do povo. E, desde então, o dito é repetido acriticamente.

O que aparenta irracional ao descrente, pode parecer plenamente racional ao que professa a fé. O racional e o irracional não são unívocos. Como ressalta Julien Freund:

“Com efeito, acontece tratarmos como irracional uma atividade em razão de um ponto de vista exterior mais racional, embora ela comporte em si mesmo uma racionalização. A um ser irreligioso toda conduta religiosa parece irracional, da mesma forma que o ascetismo passa por irracional aos olhos do hedonista puro. O inverso é igualmente verdadeiro. Em suma, em geral a discriminação entre o racional e o irracional se faz em nome de certos valores que preferimos a outros, quando no fundo toda ideia de valor repousa sobre um momento subjetivo e irracional”. [2]

A fé é experienciada e racionalizada. Ao que não acredita resta respeitar o sentimento religioso, não lhe cabe julgar a religiosidade manifestada pelo outro. Espera-se a mesma atitude de respeito em relação àquele que não crê em Deus. Infelizmente, isto nem sempre ocorre. Quanto mais predomina o espírito de seita, maior o fanatismo e a intolerância mútua. Se o irracionalismo religioso nega ao outro o direito de professar outra doutrina e, ainda mais, o direito de não acreditar, o ateísmo também pode ser tão irracional e intolerante quanto fé do teísta.

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Existe um guia de leitura para a esquerda?

Essa pergunta me fez lembrar uma cena do filme Rosa Luxemburgo[3]. Na prisão, a revolucionária conversa com a sua carcereira, que a admira, e indica um livro de um dos maiores escritores russos, autor de Ana Karenina: Tolstoi. A sua interlocutora, mulher simples, inteligente e interessada em literatura, questiona a indicação, afinal a Alemanha estava em guerra com a Rússia. Rosa Luxemburgo, prisioneira do governo alemão, demove-a de tais pensamentos. Um grande escritor está acima das nacionalidades e das opções políticas do leitor.

O teatro político

Na política o “normal” é representar. O político necessita ser um excelente autor para convencer a si mesmo e aos outros, seus potenciais eleitores. É necessário fazer acordos, agradar a gregos e troianos. A dissimulação e o jogo das aparências faz parte do seu habitat natural. Até porque, a rigor, não estamos preparados para a verdade. A mentira é uma necessidade dos homens e mulheres comuns e, também, dos políticos. Os políticos bem-sucedidos são os que representam bem os seus papéis. Não por acaso, os consideramos nossos representantes. Ou seja, somos a plateia que aplaude ou vaia. De qualquer forma, eles atuam por nós…

download (1)A propósito de Gilberto Freyre

Um dos trechos que mais chamou a atenção na leitura de Guerra e Paz[4] foi escrito pelo apresentador da obra, Luiz Costa Lima. Ele revela o “mistério” do campo intelectual. Comentando as reviravoltas sobre a recepção da obra freyreana, Lima refere-se à auto-estilização de Gilberto Freyre, fator contributivo às polêmicas interpretações e posicionamentos em relação a este autor e sua obra:

“Para aqueles que lhes eram conterrâneos, que podiam partilhar de sua convivência e escutar suas eventuais conferências, esta auto-estilização montada sobre uma vaidade gigantesca, tinha consequências opostas. Para os mais espertos, ali estava uma figura cuja sombra, qual mangueira frondosa, podia ser explorada ser explorada em benefício próprio. Em troca de elogios e cavações, a influência nacional de Freyre podia determinar um começo de carreira ou um bom posto na imprensa. Já os menos tortuosos ali reconheciam um exemplo a não seguir. Conquanto antagônicas, essas duas direções, de um estrito ponto de vista intelectual, eram igualmente funestas. Os espertos ganhavam posições, em troca porém da esterilidade que emprestavam à obra do protetor. Dos outros, basta dizer: convertendo o autor em contra-exemplo, era a toda a sua obra que se estendia o manto do desprezo”. [5]

Eis um exemplo ilustrativo sobre o funcionamento do campo intelectual. Embora em posições divergentes, apologistas e críticos nutrem-se e nutrem o campo a partir das interpretações formuladas neste. Os autorizados a falarem pelo campo imaginam preencher o hiato entre a obra e o leitor. Como se a sua intermediação fosse imprescindível para compreender o lido!

Educação e Sociedade

A sociedade requer um ensino voltado para a carreira escolar. Em geral, não interessa se a educação torna nossos filhos melhores homens e mulheres, indivíduos mais conscientes sobre a realidade social, sobre os dilemas que a vida impõe. Não. Quer-se simplesmente que a escola prepare para ter sucesso no vestibular. E o mesmo raciocínio vale para muitos dos que conquistam a vaga no ensino superior. Pouco importa o mundo ao seu redor, desde que não atrapalhe os planos individualistas de ganhar mais dinheiro e ter uma carreira de sucesso. A universidade forma indivíduos cada vez mais descomprometidos social e politicamente com a comunidade, a sociedade e o mundo em que vivem.

big_brother_1984

Revolução e Inquisição

As revoluções promoveram novas inquisições de caráter político. Quantos crimes foram cometidos em nome de Deus e/ou dos mais belos ideais que motivaram homens e mulheres a lutar contra as tiranias, a miséria e injustiça humanas?! Por que as lutas pela justiça, liberdade e igualdade geram novas injustiças, novas formas de tirania e desigualdade, ainda que a retórica dos novos donos do poder preguem o contrário e os governados acreditem piamente que estão a construir o paraíso na terra?!

Revolucionários profissionais

Na verdade, o questionamento da política institucional partidária não é novidade: os índices de votos nulos, brancos e dos que se abstém de votar, indicam-no; a exígua votação que os partidos de esquerda de filiação marxista e socialista também precisa ser levado em conta. A verdade, porém, é que, em geral, as vanguardas não se preocupam com isto, pois as eleições são concebidas apenas como um dos momentos privilegiados para a propaganda ideológica. Eles se preparam para a revolução, para dirigi-la. Veem-se como revolucionários profissionais, sinceros profissionais da revolução em suas casamatas burocráticas. Quem ousa duvidar da sinceridade revolucionária, ainda que alguns se percam no pragmatismo e a sua práxis política negue o discurso e teoria professados?

 

[1] No filme dirigido por Tom Hooper: John Adams (EUA, 2008, 501 min.), em sete episódios, é uma lição sobre a história dos EUA e, especialmente, sobre a vida.

[2] FREUND, Julien. Sociologia de Max Weber. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1975, p. 105-106.

[3] Rosa Luxemburgo (Alemanha, 1986, Direção:Margarethe von Trotta)

[4] ARAÚJO, Ricardo Benzaquen de. Guerra e Paz: Casa-grande e Senzala e a obra de Gilberto Freyre nos anos 30. São Paulo: Editora 34, 2ª. ed., 2005.

[5]Idem, p. 10.

15 comentários sobre “Notas esparsas: senso comum, saber e arrogância, literatura, religião, política, Gilberto Freyre, educação, revolução, etc.

  1. É mesmo: o discurso universitário despreza o senso comum. Mas reproduz algo dele no dia a dia, por exemplo, no joguinho da política acadêmica e na inquisição dos colegas que pensam fora do habitus acadêmico. Até mesmo a esquerda, que antigamente era uma esquerda moral-ética, nunca levou em consideração o senso comum na versão “conhecimento popular” ou “sabedoria popular”, infelizmente. Salvo na China, que promoveu a “medicina de pés descalços”, milenar, como a medicina possível para um país populoso e um povo confiante nas ervas medicinais e outros ingredientes. Boaventura Sousa Santos também observa que na ponta do conhecimento científico “amadurecido”, do futuro, seria uma “ciência pósmoderna”, se obrigaria a “sensocumunicar” seus conhecimentos para todos. Assim, a linguagem fechada acadêmica-científica deveria aprender a ser popularizada. Alguns conhecimento científicos são hoje sensocomunidado: como evitar a dengue ou gripe H1N1, como se alimentar melhor, pq diminuir o sal da comida e o açucar, pq devemos exercitar, etc. já são traduzidos em linguagem popular pró prevenção. Nesse sentido, o sociólogo português organizou um livro com vários autores “Conhecimento prudente para uma vida decente”. Vale a pena conferir alguns ensaios e artigos.

    NO FUNDO, nosso formato de universidade – principalmente o currículo das ditas Ciências Humanas e Sociais (que tem pouco de ciência e mais de ideologia) – é que mais incorre no equívoco de desprezar ou desconsiderar o senso comum, conhecimento popular ou sabedoria. Se fosse cumprido a “humildade epistêmica” no seus discursos pretensamente e arrogantemente científicos certamente incluiriam o senso comum, porque, como disse um leitora-respondente: o ser humano vive em meio ao senso comum, ele faz parte de nossas ações, pensamentos e sentimentos no cotidiano. (Gaston Bachelar estudou muito bem este assunto). E aqueles que querem somente viver de conhecimento sistemático ou científico, academicamente correto, infelizmente não sabem como atuar para dar conta dos desafios do dia a dia, por exemplo: não sabem se virar para sobreviver no campo econômico-financeiro, não sabem como pagar uma conta no banco, são ridículos para conversar com pessoas ditas comuns, embora sejam experts no seu habitat de “alto nível intelectual”. Viver demais no mundo acadêmico e científico se arrisca a ser ALIENADO na vida comum. E conhecemos muitos colegas assim alienados e patéticos…

  2. Ozaí, como podemos dizer ao outro(humanamente/respeitosamente) que sua posição/opinião está errada? Ou não é possível cravar uma opinião como errada? O caminho seria “apenas” apresentar outras argumentações para que cada um faça suas escolhas?

  3. Ozaí, excelente! Agradeço pela contribuição de grande valia em tudo que posta, fazendo-nos apropriar de temas e assuntos que contribuem para lapidar e agregar conhecimento.
    Abraços,
    Zilda Biussi

    • Como disse nos alimentamos do senso comum, trata-se de uma oposição binária. Mas não somos intolerantes com a comunicação de massa, mas com o lixo industrial, extremamente reificado, só isso! Aí dirão, mas não é lixo industrial é massa, lembrem-se que a massa equipara-se a gado, não pensam, simplesmente vão…Agora há uma cultura de massa que é bastante artística, digo poeticamente interessante, ou então, criticamente interessante. Enfim a gente não consegue mais não mediar o mundo depois que estudamos. Acho que somos chatos para alguns mesmo, fazer, mas mesmo assim respeitamos os espaços, qualquer espaço.Logo gostamos de ter nosso espaço cheio de intelectualismos.

  4. Um bom turbilhão de ideias que fazem um conexão entre senso comum que é a base do comunismo que levado ao extremo dá origem ao totalitarismo de 1984 de Orwell. A vanguarda da esquerda julga possuir um saber profético que a arrogância da um sentimento de poder na crença tola de existir um guia para leituras de uma pessoa de esquerda. Na verdade todos os textos devem ser lidos do Mein Kampt de Hitler a Bíblia. Não há index para quem sabe da necessidade da liberdade que mantém as revoluções para além das estátuas. Todo o teatro é engajado com a interpretação Bertold Brecht, Shaskespeare, Cervantes, Gerald Thomas, Samuel Beckett, Sófocles, Gil Vicente, todos são belos e universais em suas dúvidas expostas no palco. Gilberto Freyre é um antropólogo da vida mundana que forma todos os país de um universo acadêmico. A vaidade, soberba e a presunção estão na natureza humana. E como tal querem as reverências para sentirem uma importância maior que sua produção acadêmica. Neste sentido a educação e a sociedade veem a escola como um reprodutor das desigualdades sociais. Violência simbólica, que hierarquiza os espaços e os hábitos culturais e científicos. Quando a revolução começa os cadáveres são da guerra. Na vitória vem dos radicais que assumem o movimento e pregam o purismo de santos, onde só existem homens e mulheres. Quando vira profissão ser de esquerda no meio da burguesia, alimenta a letargia da não participação popular. E quando acontece espontânea diz que é um resultado da mídia ou da direita ansiosa pela ditadura. Afinal é no palco da vida que as melhores leituras acontecem de Freyre a Brida sempre há uma estranha revolução surgindo quando alguém nasce. Esperando do outro escolhas que formaram seus desejos, ações, sentimentos que fazem o húmus (humanidade) do planeta Terra.

  5. Ozaí não somos nada sem o senso comum, é uma questão de oposição binária. Na realidade como sempre digo aos meus alunos a diferença entre nós é que li, estudei um pouco mais. Mas somos parte do mesmo corpo. lemos o mundo com um olhar cheio de bagagem e carregamos isso. que Dizemos isso é senso comum, não darei atenção. mas é preciso cuidado o senso comum é matéria é a carnadura que nos faz refletir sobre a grande bosta intelectual que separa o mundo em isto ou aquilo, já dizia Octávio Paz. Tendemos à polarização. Fico feliz em saber que vai à crisma da sua filha sem ser católico é o caminho da tolerância. Não que eu seja católica, mas aprendo a conviver respeitosamente.

  6. Notas cheias de sabedoria, que partilho com alegria neste domingo de manha. Parabéns.
    Em outro registro, a descriçao que faz Luiz Costa Lima do “campo” intelectual remete curiosamente a um campo de futebol e a imagem que me ocorre é a de uma partida ferrenha entre times adversos… que, ao fim e ao cabo, se equivalem.

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