Como perder milhares de amigos no Facebook!

facebookQuantos amigos conquistamos no percurso de uma vida? Poucos, pouquíssimos! Os dedos de uma mão podem ser mais do que suficiente para contar as amizades verdadeiras. Claro, podemos contar inúmeros colegas, pessoas mais próximas, etc. Mas amigos de verdade são raros, pois a amizade é restrita às relações especiais, únicas na vida.

Há os amigos da infância, da adolescência. Os caminhos trilhados nem sempre permitem manter tais amizades. É o meu caso: as constantes mudanças de estados, cidades e bairros, me fez perder contato. A distância geográfica, as dificuldades inerentes ao imperativo de viver em novos ambientes nem sempre acolhedores, bem como o pleno envolvimento no cotidiano da nova realidade da vida, etc., talvez expliquem o distanciamento e a perda dos amigos de outrora. As condições de comunicação eram outras, reduzidas basicamente à correspondência física – não havia internet, email, facebook, nem mesmo telefone residencial (imagino que hoje é muito mais fácil manter contato com os amigos distanciados geograficamente). Restaram apenas as recordações, as doces lembranças de uma época.

As vicissitudes da vida separaram-me dos amigos antes mesmo que a amizade criasse raízes mais fortes e produzisse frutos fecundos. Por onde andará o meu amigo do ginasial, como era chamado naquele tempo, cuja casa frequentava e íamos ao Cine Vitória, em São Caetano do Sul (SP), assistir a “Os embalos de sábado a noite” e “Grease – Nos tempos da brilhantina”?! Não consigo lembrar o seu nome, mas recordo do seu rosto moreno e do esforço para manter o cabelo à John Travolta. E aquele amigo cuja mãe incorporava Cosme e Damião? Lembro-me do Miguel, amigo de caminhadas pelas ruas do centro de São Paulo, quando parávamos nas pastelarias e nos deliciávamos sem nos incomodar com a higiene nada acolhedora do ambiente. Outros sábados, íamos ao centro comercial de São Caetano, esperançosos em encontrar LPs a preços econômicos. Por onde andará o amigo dos tempos do SENAI, das noites de discoteca, das andanças pela vida noturna de São Paulo, quando burlávamos as regras da maioridade? E a amiga que estimulou os meus primeiros passos na militância política e por quem inadvertidamente me apaixonei? Onde estarão os amigos do tempo da Pastoral Operária, da militância no núcleo de base do PT no Parque São Lucas (zona leste da capital paulistana)? Por onde andarão os amigos da militância no Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema e no PT? Os amigos do NEP-13 de Maio e do CPV? Onde estão os amigos do tempo da graduação na Fundação Santo André, do Mestrado na PUC/SP?

Os amigos estão presentes, seja nas recordações ou nas possibilidades do reencontro. O certo é que uma verdadeira amizade permanece, ainda que o tempo e as condições dificultem ou impossibilitem o encontro físico. O advento da internet permitiu reencontrar alguns, mas o passar dos anos revelou-se desgastante. Tentei resgatar e manter contato, mas as respostas nem sempre foram positivas – e, em alguns casos, prevaleceu o silêncio. Compreendo, não somos mais o que fomos no passado; nos transformamos, somos outros em novas realidades e com novas amizades – ainda que o que vivemos resista em nós, um passado que teima em se fazer presente.

As potencialidades da comunicação via internet não mudaram o que já estava sedimentado. Em outras palavras, as amizades do passado parecem ter parado no tempo – o reencontro via Facebook, por exemplo, não mudou o caráter nem a qualidade das mesmas. A presença dos amigos via virtual não supriu a ausência real. O tempo e a distância geográfica, além daquela construída pela diferença dos caminhos percorridos, produziram efeitos nem sempre positivos. Embora a amizade permaneça, guardada afetuosamente em algum lugar do eu, ela não é vivenciada. Ficaram apenas as recordações, porém significativas.

Embora não tenha conseguido manter uma comunicação mais intensa com os amigos do passado, ainda que tenha reencontrado alguns deles no espaço virtual, tive milhares de “amigos” nos últimos anos. Primeiro foi o Orkut, um dia desativado e, após muita resistência, substituído pelo Facebook. Neste, adotei o critério de utilizar para fins acadêmicos – divulgação das revistas, blogs, artigos, livros, atividades e eventos acadêmico, culturais e políticos. Assumi, então, uma perspectiva crítica e democrática – o que me trouxe dissabores, pois as pessoas partem do princípio de que concordamos com tudo o que publicamos, sem perceberem o objetivo de proporcionar o debate e a reflexão crítica. [1]

No período em que usei este perfil cheguei a ter mais de 4.600 “amigos”. “Ganhei” milhares de “amigos”, mas sem qualquer ilusão quanto ao significado deste fenômeno. De certa forma, tornei-me uma pessoa pública. Mas isto começou a exigir maior dedicação e, consequentemente, mais tempo conectado. Não estou entre os que pensam que o Facebook substitui as amizades reais, ou seja, que o usuário da rede social termina por priorizar a vida virtual aos amigos reais. [2] Na verdade, se isto ocorre – e quando acontece – apenas confirma o isolamento, a solidão.

De fato, o Facebook pode fortalecer laços de amizades existentes, bem como facilitar o desenvolvimento de novos relacionamentos. Por outro lado, o caráter da relação virtual induz a maior espontaneidade, favorece desencontros, atitudes irreflexivas e mesmo abusos. Nem sempre o bom senso e o respeito prevalecem. A virtualidade pode favorecer a petulância e o desrespeito. Indivíduos que nem conhecemos, e provavelmente jamais os conheceremos, consideram-se no direito de exigir explicações, de julgar precipitadamente e determinar vereditos. Felizmente são casos isolados, mas haja paciência!

Comecei a refletir sobre tudo isto, sobre as vantagens e desvantagens de ter um perfil com milhares de “amigos”. Quais os interesses? O que há de comum entre nós? Os amigos pessoais, conhecidos e aqueles com os quais estabeleci uma relação mais intensa, ainda que no âmbito virtual, estavam “perdidos” entre tantos. Então, comecei a ser mais criterioso, mais seletivo. Percebi o trabalho e dificuldade de selecionar os “amigos”. Decidi, então, desativar o perfil. Num simples click perdi milhares de amigos! Como as “amizades” são efêmeras!

Mas não me rendi aos argumentos do meu amigo Walterego, contrário às redes sociais. Para ele, o melhor mesmo é evitar, o quanto possível, navegar pela internet e, especialmente, não ter Facebook. De fato, se refletirmos bem sobre o que deixamos de fazer e o quanto a internet nos ocupa, talvez o amigo Walterego tenha razão. No entanto, a internet oferece possibilidades que justificam o tempo utilizado. O importante é ter autodisciplina e saber dosar bem o uso do tempo, sem ficar refém do Facebook nem deixar de fazer outras coisas importantes. Afinal, há vida também fora do Facebook – embora alguns estejam tão envolvidos que parecem ter esquecido a senha!!! Assim, decidi criar uma página institucional, a qual corresponde aos objetivos do perfil desativado; criei também um novo perfil, de uso mais pessoal, com critérios de maior seletividade. É um recomeço necessário para reorganizar a vida. Agradeço aos “amigos virtuais” que me acompanharam pelo facebook e convido-os a curtir a página institucional: https://www.facebook.com/prof.ozai.dcsuem

Quantos aos amigos reais, espero reencontrá-los pessoalmente ou mesmo no âmbito virtual. O mais importante, porém, é que os sentimentos de amizade permanecem vivos. Inovações tecnológicas são fundamentais, mas não mudam o essencial! O tempo, a distância e a ausência de contato não suprimiram a amizade. Ainda que ausentes e distantes geograficamente, os amigos permanecem presentes. Apesar das dificuldades, consegui manter contato com alguns deles e não esqueci os que não vejo há anos!

Afora o passado, há o presente, o tempo em que vivemos. Neste, é fundamental as amizades construídas em Maringá, na UEM e na vida nos últimos anos. Triste do indivíduo que não tem amigos reais, ainda que os dedos das mãos sejam suficientes para contá-los. Para ter milhares de amigos virtuais bastam apenas alguns clicks; para perdê-los também. No entanto, é muito mais complexo ter amizades reais e duradouras! O importante é saber discernir bem os amigos e “amigos”, realidade e virtualidade!

 

[1] Ver “Uso temerário do Facebook”, publicado em 06.03.2013.

[2] Ver “Facebook, amizades virtuais e amizades reais”, publicado em 09.03.2013.

4 comentários sobre “Como perder milhares de amigos no Facebook!

  1. Os filosofos Diogenes Laertes e Michel de Montaigne atribuem a seguinte frase a Aristoteles: “Oh, meus amigos, nao existe um amigo.” O filosofo mais recente, Jacques Derrida, escreveu um livro de 300 paginas sobre o assunto. Entao, realmente, e’ importante, e’ profundo, e e’ necessario refletir sobre esta questao. Obrigada, Ozai, por outra vez trazer pra este espaco uma contribuicao que nos faz pensar.
    De fato, sempre e’ triste que perdemos amigos pelos caminhos da vida. Acho que para nos que nos mudamos muito, e especialmente para os que saimos do nosso lugar de origem, nao deixa de existir um sentimento de nostalgia quando nos lembramos daqueles com quem estudamos, com quem compartilhamos nossos primeiros amanheceres intelectuais no colegial, na faculdade. Eu sinto muita falta dos amigos, das amigas de Maringa’. Felizmente, ainda mantenho contato com alguns e algumas, tanto virtualmente como por carta, e alguma vez em pessoa quando retorno a terra natal. Meu sentimento e’ que cada uma destas pessoas contribuiu e contribui para meu entendimento do mundo, e fico agradecida.
    Ah, Facebook, que sorvedouro do nosso tempo! A quem interessa que tenhamos milhares de amigos? ao Facebook, logico! Eles agora estao minando nossas mensagens ali, para adquirir informacao que e’ usada sem nosso conhecimento.
    Algumas seitas e algumas comunidades nao permitem que as pessoas sejam fotografadas, porque sentem que a “alma” da pessoa e’ retirada pela foto. Estou comecando a achar que o Facebook faz isto: retira a alma das pessoas, troca por moedas menores, e expoe ao sol, pra ver se enferrujam. Muito do que aparece no Facebook sao detritos da vida diaria, que pertencem ao esquecimento.

  2. Antônio
    Bom dia
    Legal que tenhas voltado a postar teus apontamentos.
    Cumprimentos pelo presente texto, instigante e reflexivo. Permito-me não obstante apresentar as ponderações que seguem:
    – Penso que haja quem consiga construir amizades, casamentos, namoros, encontros, arrumar inclusive ajuda, via redes sociais. Num momento a pessoa esta num determinado lugar, emprego, escola e dali a pouco esta até em outro país graças a WEB. Como somos do tempo da carta, do telegrama, da máquina de escrever, dos cinemas de calçada, do LP, da fita k7, etc., possa esse fato pretérito, estar emperrando nossa visão (objetividade com relação) das novas ferramentas de comunicação;
    – No plano físico sempre tive enorme dificuldade nos relacionamentos interpessoais. Mais fiz inimigos que amigos. Não reclamo, sei que não sou o único (pelo menos esse é meu consolo). Nas escolas (Grupos Escolares), SENAI, SENAC, empregos, Faculdades, em regra vivi isolado e não raro quando alguém se aproximava era com quartas ou quintas intenções, mais com o intuito de me usar, do que simplesmente me dirigir um simples cumprimento;
    – Lutei dez anos pela preservação da saúde de mamãe e não obtive apoio, sequer uma palavra de alento de ninguém. O dinheiro teve que mediar tudo. Fique claro que não estou reclamando (a maioria das situações que observo são anos luz “pelhores”). Observo dezenas, centenas de pessoas (Caxias do Sul tem mais de 4.000 cidadãos e cidadãs com mais de 80 anos) andando solitários pelas ruas, indo aos mercados, padarias, feiras sem acompanhantes. Nos consultórios médicos esse fato também é “normal”. (Como é ‘normal’ ter a eventual presença de um acompanhante – vez ou outra da família – que não faz outra coisa a não ser xingar o/a idoso/a, dizer impropriedades, falar tolices;
    – Por último imodestamente compartilho de tua ideia de tristeza (é claro se entendi a linha de raciocínio) quando a pessoa gostaria (precisaria) ter amigos, companheiros, pessoas próximas até para auxilia-la (não se trata às vezes de coisas materiais, mas de se ter uma segunda, terceira opinião, parecer) em regra todos (a maioria) desaparecem. “Na prosperidade nossos amigos nos conhecem; na adversidade conhecemos os nossos amigos.” (Collins). Feliz, portanto, por esse viés quem tem amigos presentes nos bons e maus momentos, só que infelizmente isso a nosso ver ainda é exceção.
    Pedro
    Caxias do Sul, 20 de julho de 2014.

  3. (ops, enviei sem querer) parentes que eu não via há anos… Mas problemas também vieram aos montes! Pessoas intolerantes, pessoas que não refletem antes de comentar, pessoas que condenam, pessoas que estão ali, me parece, para serem cruéis, simplesmente. Excluo sempre esse tipo. Não quero de forma alguma pessoas que vivam de jogar pedras. Sim, o debate é importante, muito. Mas algumas vezes o debate se perde. Especialmente quando a intenção do outro é doutrinar e apagar a opinião contrária de uma vez por todas. Pessoas não discordam de você. Pessoas querem te silenciar e impor o que ELAS pensam. E isso é cruel. Há, de certa maneira, uma tentativa de impor, também, uma espécie de sentimento: o da felicidade virtual. Somos cobrados a ter uma vida feliz, ainda que vazia. A frequentar os locais badalados e a ter histórias novas, divertidas e envolventes em cada post. Como se a vida se reduzisse a isso. Não. Eu tenho problemas, eu tenho dificuldades, eu choro, eu tenho medo. Não vivo o meu tempo todo feliz e despreocupada, não sou popular e tão pouco pretendo que minhas ideias sejam a verdade e que todo mundo concorde comigo! Assim, muitas vezes me cobram pelo conteúdo de minhas postagens – ou falta de conteúdo – e criticam meu afastamento. Não me desculpo mais. Espero que os que me conheçam saibam que tenho uma vida real, com todas as suas idiossincrasias. E que no virtual, embora tente o mais das vezes preservar quem sou, me dou a liberdade de ignorar, evitar discussões inúteis e postar as coisas leves que me fazem sorrir. Obrigada por seu texto! Como sempre, ótimo!

  4. Querido Ozaí! Esse texto chega em um momento muito interessante em minha vida. Um momento onde as obrigações do dia a dia, da vida acadêmica, enfim, exigem muito do meu tempo e me cobram uma postura mais afastada do mundo virtual. Mas não só. É um período onde o famoso “mimimi” impera. As cobranças dos “amigos virtuais” chegam a sufocar, a inibir a espontaneidade, a massacrar mesmo. Estava deitada, há pouco, elaborando um texto em meu blog, justamente sobre isso. E é importante perceber que outras pessoas compartilham desse sentimento. Sim, no facebook me aproximei ou reaproximei de pessoas queridas e importantes em minha vida – em todos os âmbitos – mas também me magoei bastante com posturas assumidas ali. Nunca cheguei a ter muitos “amigos” no mundo online, seja facebook ou orkut. Creio que seja um reflexo da minha personalidade maluca. nem na vida real tenho essa capacidade de fazer amizades! Mas ainda assim, centenas de “amigos” apareceram, parentes

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