I Colóquio Feminismo Negro!

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Nos dias 21 a 25 de julho de 2014, realizou-se o I Colóquio Feminismo Negro na Universidade Estadual de Maringá. Organizado pelo Núcleo de Estudos Interdisciplinares Afro Brasileiros (NEIAB-UEM), in memoriam de Claudia Silva Ferreira, o evento foi aberto com a admirável apresentação do grupo Ingazeiro Maracatu[1], seguido pela palestra da cearense Jarid Arraes (blogueira, cordelista e colunista da Revista Fórum). A percussão do Ingazeiro Maracatu soou como trovão e eletrizou os ouvintes. A fala da palestrante, em tom autobiográfico, sensibilizou os presentes e mostrou o quanto o racismo está presente em nossa sociedade, os sofrimentos que causa e os efeitos negativos na vida familiar e social, em especial para a mulher negra – duplamente discriminada, enquanto gênero e raça. Neste sentido, como argumentou a palestrante, é necessário repensar o feminismo e também os comportamentos e ideias predominantes no Movimento Negro, especialmente entre os homens. Com efeito, o feminismo precisa ir além do enfoque de gênero e incorporar o aspecto racial. Por outro lado, o Movimento Negro necessita superar o machismo.

É nesta direção que as questões de gênero, raça e classe necessitam confluir. Equivocam-se os que substituem as palavras e os conceitos pela realidade. Os que explicam tudo pelo conceito da luta de classes terminam por secundarizar – e mesmo negar – as especificidades inerentes à realidade social, política, econômica, cultural das mulheres e dos negros e negras. Este tipo de postura termina por adiar para o futuro utópico a superação das desigualdades raciais e de gênero. Profetizam o socialismo enquanto solução definitiva. O presente, no entanto, é premente! As experiências históricas concretas, autodenominadas “socialistas”, mostraram a persistência do machismo. Como diria o economista John M. Keynes, a longo prazo todos estaremos mortos!

Ao mesmo tempo, é necessário não esquecer o caráter de classe. O feminismo não é um bloco homogêneo. O feminismo da mulher burguesa e de classe média não é o mesmo da operária ou daquela que se vê na premência de trabalhar como doméstica. Convenhamos, é muito mais fácil ser feminista quando se tem mais tempo livre, quando não é preciso ocupar-se cotidianamente das tarefas do lar. Entre as mulheres, numa sociedade burguesa, machista e racista, fundada na desigualdade real, é muito mais difícil ser mulher negra. E, como aludiu Jarid Arraes, mais importante é a prática!

Ao colocar estas questões em pauta e instigar a reflexão sobre os diversos aspectos que envolvem gênero, raça e classe social, a realização do I Colóquio Feminismo Negro foi de fundamental importância. As idealizadoras e organizadoras estão de parabéns! O elogio sincero expressa o reconhecimento do esforço, dedicação e contribuição para a conscientização ainda necessária na universidade e na sociedade em geral. Também é elogiável pela forma como foi realizado. O I Colóquio Feminismo Negro superou o padrão dos eventos acadêmicos, muitas vezes marcados pela sisudez, linguagem abusivamente intelectualóide, em suma, chatice acadêmica revestida pelo discurso pretensamente teórico e autoridade titulada.

O evento contou ainda com a exposição de imagens e mensagens de feministas negras na Biblioteca Central da UEM; a promoção de Oficinas em escolas públicas de Maringá (turbantes, maquiagem para pele negra, Capoeira e Hip Hop); roda de conversa feminista em espaço aberto no campus; e debate com as professoras Carla Almeida e Marivânia Conceição de Araújo (DCS-UEM) sobre o filme “Cinderelas, lobos e um príncipe encantado” (CINEUEM).

O encerramento, no “Dia Da Mulher Afro-latina-americana e Caribenha”, 25 de julho, teve a memorável palestra da professora Maria Nilza da Silva (UEL) e a apresentação do II Desfile Afro Brasileiro- UEM, sob o excelente som e repertório do grupo musical Babulina, formado por graduandos e egressos da UEM. Em sua fala, a profa. Maria Nilza rememorou e homenageou Vilma Santos de Oliveira, a Yá Mukumby, tragicamente assassinada junto com sua mãe e sua neta.

Foi simplesmente uma dádiva poder ouvir e participar destes momentos. Meu sincero muito obrigado e parabéns pela realização do evento!

[1] Sobre a história do Ingazeiro Maracatu ver: http://maracatuingazeiro.blogspot.com.br/p/historia.html

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