Eleições na UEM – Reflexões sobre o altruísmo!

10514532_325124960989022_1901291636323783876_nNo último vestibular da UEM a relação candidato/vaga para o curso de Medicina atingiu a marca de 351,4! É admirável a quantidade de indivíduos que desejam ser médicos.[1] Quero acreditar piamente que este desejo intenso, e quase impossível de realizar para a maioria dos concorrentes, deve-se ao amor pelo povo brasileiro, ao objetivo altruísta de cuidar da saúde pública, dos que não tem acesso aos planos de saúde privados e nem podem pagar uma consulta particular. Estes são os que mais precisam de médicos e, infelizmente, representam a maioria da população do país.

O segundo curso mais concorrido foi o de Arquitetura: 75,3 por vaga. Confesso que, sob o risco de pecar duplamente, há uma ponta de orgulho neste pai vaidoso. Novamente, quero acreditar que os que enfrentam o desafio estressante de tamanha concorrência movem-se por objetivos altruístas. Afinal, vivemos num país carente de moradias populares e projetos sociais arquitetônicos que tornem a vida nas cidades mais suportável e, quiçá, feliz.

O fato de 50,4 candidatos disputarem uma vaga em Odontologia também deve ser um alento para a saúde pública. A felicidade necessita do riso e, para além do acesso à saúde bucal, o sorriso saudável também expressa autoestima. Não menos alentador é saber que 49,4 indivíduos disputaram uma vaga no curso de Direito (matutino). Numa sociedade em que a (in)Justiça é sabidamente determinada pelo poder econômico, na qual a pobreza e a cor da pele expressam a carência de acesso aos direitos sociais, numa sociedade tão desigual e injusta como a nossa é salutar saber que tantos querem dedicar-se a contribuir para superarmos esta realidade. Quanto altruísmo!!!

Será este amor ao próximo, este desprendimento que sacrifica os próprios interesses em prol de servir a comunidade, os mais necessitados, uma peculiaridade dos que escolhem a UEM? Não sei, mas parece que o amor pelo próximo, fundamento da atitude altruísta, está no ar. L’amour est dans l’air!

Se no vestibular, a despeito de tantos desejarem seguir a vocação altruísta, poucos foram os escolhidos, agora somos convocados para eleger os que poderão sintetizar e realizar nossas esperanças por uma universidade pública de qualidade capaz de efetivar sua propensão social. De novo, é admirável o altruísmo demonstrado por tantos! São quatro chapas e dezenas de apoiadores propensos a fazer o melhor pela comunidade acadêmica e a instituição. Diante de tanta energia e disposição de contribuir, fico a pensar se não seria mais sensato juntar as forças. Afinal, se todos querem os mesmos objetivos altruístas, por que a competição? Não é incoerente querer eleger o “mais altruísta”?

Será ingenuidade imaginar tanto altruísmo? A imagem do personagem da propaganda me vem à cabeça: “Sabe de nada inocente!” Comento meus devaneios com o meu amigo Walterego e ele sorri maliciosamente. E, conhecedor do meu gosto pelo francês, pronuncia em tom irônico: Vous ne savez rien innocent! Retorno à realidade e recordo das minhas leituras. Lembro de Max Stirner e suas palavras em O único e a sua propriedade.[2] Volto a devanear e o vejo ri de mim! Então, rio dos meus próprios pensamentos!

Num lampejo da razão vislumbro que a universidade não é uma abstração. Ela se materializa no corpo docente e discente, no quadro técnico-administrativo, em sua estrutura física e organização burocrática. Assim, pensar a universidade é vislumbrar as pessoas concretas, corações e mentes que se harmonizam em determinados aspectos e se antagonizam em muitos outros. A universidade constitui um campo, no qual há diversos interesses em jogo e os jogadores, a partir de posições já consolidadas, lutam para conservar e/ou conquistar mais posições.[3]

Vejo que na política há o fenômeno da universalização, isto é, os interesses individuais e de grupos se metamorfoseiam em interesses coletivos, no bem-comum. Tudo é dissolvido em categorias genéricas, na defesa dos bens públicos (educação, saúde, segurança, etc.). Mesmo o político mais descaradamente favorável aos interesses privados tem a sua máscara pública. Também na universidade, os interesses nunca são puramente científicos (acadêmicos). Dificilmente, a ciência pela ciência, a defesa da universidade pública, o amor ao conhecimento, etc., são as únicas motivações que excitam o agente social.

Portanto, é preciso exercer o direito da dúvida e não se iludir com os discursos pretensamente altruístas. Especialmente quando se trata de uma eleição cuja legitimidade é dúbia! [4] O que, a propósito, sugere o dilema: por que votar numa eleição claramente antidemocrática? Neste caso, o voto “qualificado” desqualifica os demais – a maioria. Por que legitimar? Novamente, caio em devaneios: se a maioria anulasse os votos, os candidatos e a “comunidade acadêmica” poderiam repensar os critérios excludentes que conformam o colégio eleitoral. Talvez o melhor mesmo seja votar no Torradinha!

[1] A relação completa está disponível em http://www.cvu.uem.br/concorrencia.html . Acesso em 16.08.2014.

[2] STIRNER, Max. O único e a sua propriedade. São Paulo: Martins Fontes, 2009.

[3] Ver BOURDIEU, Pierre. O Campo Científico. In: ORTIZ, Renato. (Org) Pierre Bourdieu: Sociologia. São Paulo, Ática, 1983.

[4] Ver “Eleição para reitor na UEM: direitos iguais?!”e os textos indicados na nota 2 deste.

Um comentário sobre “Eleições na UEM – Reflexões sobre o altruísmo!

  1. Antônio
    Bom dia
    Em se tratando de Escola pública de nível superior, portanto, sem mensalidades, a procura obviamente tende a ser maior em todos os locais, mesmo nos países em que a questão educacional esteja em tese de há muito democratizada.
    Reitero também nesse particular o que tenho dito em todos os comentários aqui feitos, que ainda temos milhões de analfabetos no Brasil, milhões de crianças trabalhando quando no mínimo deveriam estar numa creche ou em escola pública.
    Temos também milhões que não concluem sequer o fundamental e também número substancial que desistem no ensino médio majoritariamente alunos do ensino público.
    Na esteira temos milhares de trabalhadores que atuam na educação e que não tem habilitação para tanto, enquanto que os habilitados desistem de serem professores/as devido aos salários insubsistentes. No caso particular do RS o Governo Estadual recorrentemente ignora a Lei do Piso Nacional, o qual também sabidamente trata-se de uma esmola.
    No tocante a questão do acesso ao ensino superior, possivelmente existam várias propostas que contornariam a necessidade do vestibular. O que se pode nesse caso propor (sugerir) é que haja um amplo debate nacional sobre o tema, mas de uma ideia não podemos abdicar que as atitudes altruístas devem ser substituídas pelo compromisso dos que vieram a exercer profissões ligadas a área da saúde, não se excluindo as demais, que oportunamente (pós-diplomação) de alguma forma impliquem em devolver o dinheiro público que lhes foi emprestado e este novamente se destine aos calouros.

    Não se trata de obrigar os graduados a trabalhar para o Estado, mas sim que somente devolvam o que lhes foi emprestado. Paradoxalmente para um país de excluídos sociais, temos atualmente milhares de bolsas mestrado, doutorado, pós-doutorado, especializações, etc. (integrais e gratuitas) custeadas globalmente pelos dinheiros públicos sem que haja obrigação alguma de retorno para com a sociedade que as custeia. (Li que há casos que os alunos bolsistas brasileiros no estrangeiro que sequer vão às aulas ou mesmo indo se mostram desinteressados).
    O ensino nos últimos anos se tornou um rendoso negócio no Brasil, principalmente na área de graduação, (periódicos internacionais da área econômica inclusive já analisaram ou comentaram recentemente sobre a questão) o que pode estar indicando que a situação somente irá se agravar. Em Caxias do Sul tínhamos uma Universidade particular, atualmente além dessa temos mais de 10 faculdades particulares. A recente aprovação no Congresso de um novo plano de metas, o qual assegura dinheiro público para o ensino privado também apontam para a consolidação desse modelo, portanto nossas esperanças (sonhos, delírios pessoais) de um modelo nórdico ou germânico para a educação pública no Brasil restam sem eira nem beira.
    Finalizo lembrando que as chamadas Escolas Técnicas, objetivam formar, via lavagem cerebral, força dócil de trabalho, que venha suprir as necessidades dos empresários e não as aspirações dos trabalhadores.
    Pedro
    Caxias do Sul, 17 de agosto de 2014.

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