[LIVROS] Posfácio – Lev Tolstói. Felicidade conjugal

BORIS SCHNAIDERMAN*

imagesEsta novela, Felicidade conjugal, publicada em 1859, pode surpreender o leitor acostumado com a pregação insistente por Tolstói do seu sistema ético-religioso. Com efeito, na mesma época em que escreveu entregava-se com insistência à elaboração de textos moralizantes.

Assim, anotava em seu diário, em 1852: “Decididamente, não posso escrever sem objetivo e sem esperança de utilidade”. E em 1855, tratava ali do “bem que eu posso fazer com os meus livros”. Estas cogitações chegavam à obsessão. Basta lembrar que em plena Guerra da Criméia, sob o bombardeio inimigo e em meio às privações provocadas pelo assédio anglo-francês, entregou-se à ideia de fundar uma nova religião, “que corresponda ao desenvolvimento da humanidade, uma religião de Cristo, mas purificada da fé e do mistério, e que dê a bem-aventurança na terra”.

Depois disso, torna-se muito compreensível que, durante a correção das provas desta novela, tenha escrito: “É uma ignomínia vergonhosa”. Mas, ao mesmo tempo, felizmente, não eliminou esta “ignomínia”.

Creio que na base desta oscilação encontra-se uma dualidade tolstoiana sobre a qual já escrevi mais de uma vez. Ele era um moralista feroz, implacável, mas, ao mesmo tempo, sabia como ninguém expressar a atração do carnal e as grandes fraquezas humanas tinham nele um observador genialmente perspicaz. Vejam-se nesta novela as páginas 94 a 98 do capítulo III, da segunda parte, onde a personagem feminina se sente atraída por um marquês italiano.

Ora, esta contraparte com descrição muito compreensível das vacilações inerentes ao humano é uma constante em boa parte da obra de Tolstói. Mesmo Ana Karênina, onde o adultério é condenado com “uma crueldade magnífica”, segundo a expressão feliz de Eisenstein, contém páginas em que se trata com simpatia o irmão de Ana, que “trai constantemente a mulher, mas com naturalidade, como algo que não pode ser diferente, como um comportamento que faz parte do fluxo da existência”, conforme escrevi um dia.[1]

É verdade que, nos últimos anos de vida, radicalizou-se a atitude moralizante de Tolstói, chegando ao paroxismo, conforme se constata particularmente em A Sonata a Kreutzer.[2] Mas Felicidade conjugal constitui um dos momentos em que está menos imerso em seu delírio de pregador, quando ele se torna realmente insuportável.

Esta novela se diferencia de outros escritos de Tolstói, sobretudo na postura perante as injunções da moral. Assim, escreveria em seu diário, em 1889: “Vivemos no reino da devassidão das mulheres. As mulheres movem tudo”. Mas, em Felicidade conjugal, temos (p. 86) um pensamento da personagem central: “Ah! Então este é o poder do marido – pensei. – Ofender e humilhar uma mulher sem culpa. Nisso é que consiste os direitos do marido, mas eu não me submeterei a eles”. Realmente, impressiona a passagem de uma atitude compreensiva, humana, que até consegue captar um momento de revolta contra a prepotência masculina, ao tom ranzinza e rabugento de A Sonata a Kreutzer, que é, no entanto, magistral como obra de obsessão e delírio.

Na edição que tenho de Felicidade conjugal[3] há uma nota: “Segundo testemunho do próprio Tolstói, serviu de fundamento à concepção literária desse romance a história das suas relações pessoais com V. V. Arsiênieva,[4] isto é, a moça com quem tivera um envolvimento amoroso antes de seu noivado e casamento como Sófia Behrs, que é sempre lembrada como Sófia Tolstaia, a condessa.

Na verdade, esta informação só pode ser aceita cum granum salis, pois a sucessão dos fatos autobiográficos nesta novela é bem tênue. Foi tudo vivido no plano da fantasia e da fabulação literária. Na vida real, não aconteceu nada que se aproximasse sequer da trama arquitetada. Aliás, Tolstói se orgulhava de sua capacidade de fabulação e, em diversas ocasiões, manifestou-se contra a cópia pura e simples, na ficção, dos acontecimentos da vida real.

Todavia, é muito comum esta leitura exageradamente biográfica de algumas de suas obras. Assim, os romances Infância, Adolescência e Juventude, planejados como parte de uma tetralogia, que não chegou a completar, foram às vezes editados no Ocidente com a designação de Memórias, o que é um absurdo.

Em Felicidade conjugal, provoca até estranheza a ausência de certa problemática russa da época. Visto que o texto é de 1859, os fatos ali narrados decorrem no período em que se articulavam as grandes reformas do reinado de Alexandre II, inclusive a libertação dos servos da gleba, que ocorreria em 1861. No entanto, os camponeses da novela aparecem sem maior destaque, sem qualquer referência à “questão camponesa”, tema candente na época. Ora, Tolstói estava então muito envolvido com esta problemática e participava ativamente das assembleias da nobreza rural no distrito de Tula, onde ficava sua propriedade, Iásnaia-Poliana.

Também, a estada das personagens numa estação de águas no exterior não suscitou qualquer das reações indignadas do escritor à vida burguesa do Ocidente.

A ação da novela se concentra no cotidiano de um casal da nobreza, sem quaisquer preocupações sociais ou políticas. Não procuremos ver Sierguiéi Mikháilovitch um reflexo de Tolstói, pois ele não aguentaria semelhante comparação. Ao aceitar esta narrativa pura e simplesmente, sem maiores aprofundamentos históricos, veremos que nisso está a sua grandeza, sua contribuição específica. Quem quiser procure em outras obras de Tolstói sua vivência atormentada da Rússia na época. Pois temos de reconhecer: o humano e o literário encontram nesse texto o seu máximo de expressão.

* In: TOLSTÓI, Lev. Felicidade conjugal. Tradução de Boris Schnaiderman, 2ª. ed. São Paulo: Editora 34, 2010, p. 116-119.

[1] Boris Schnaiderman, Tolstói: antiarte e rebeldia (Coleção Encanto Radical), São Paulo, Brasiliense, 1983, p. 63.

[2] Ver Lev Tolstói, A Sonata a Kreutzer, tradução, posfácio e notas de Boris Schnaiderman, São Paulo, Editora 34, 2007.

[3] Lev Tolstói, Obras reunidas em 12 volumes, Moscou, Goslitizdát (Editora Estatal de Obras da Literatura), 1956, vol. 3.

[4] Siemiéinoie schástie (Felicidade conjugal), em op. cit., p. 397.

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