Sobre hábitos alimentares!

Já os antigos alertavam que os excessos são prejudiciais. Sêneca, filósofo romano, nos exorta a aprender “que tudo o que excede a natureza não é coisa de necessidade, mas de antojo. Tenho apetite: há que comer. Que o pão seja preto ou de trigo candial tanto faz. A natureza não quer que o estômago se deleite, e sim que se encha”.[1] Ingerimos muito além do necessário, comemos com os olhos e nos abarrotamos de alimentos nada saudáveis. A natureza não perdoa: indigestão, insônia e, a médio e longo prazo, problemas renais, cardiovasculares, etc. Muitas vezes, até temos consciência das possíveis consequências dos nossos maus hábitos alimentares. Não obstante, insistimos e até sentimos prazer na companhia dos familiares e amigos que nos acompanham no insano consumo dos fast-foods, das gorduras em forma de suculentas batatas-fritas com queijo e bacon, nas pizzas de todos os sabores, churrascos, etc.

Ainda que a razão nos instigue a refletir, os hábitos tendem a cristalizarem-se. Então, por mais racionais que sejamos, dificilmente deixamo-los. Como afirma Mick Jagger, “Old habits die hard”. Será necessário um grande susto, a recomendação médica e o medo de morrer para nos impelir a mudar o estilo de vida, a abandonar os velhos hábitos. Talvez seja demasiado tarde! Na verdade, não precisamos dos médicos para adotarmos uma alimentação e hábitos de vida saudáveis. Mas o argumento de autoridade parece ser mais eficiente do que a razão. Ou será o pavor diante da dor e a perspectiva da morte?

Mas por que chegamos a este ponto? Por que não nos cuidamos sem a necessidade de recorrer aos médicos? A questão não é apenas individual! Vivemos numa sociedade que estimula hábitos alimentares danosos à saúde. A indústria alimentícia gasta muito para convencer as crianças, jovens e adultos a ingerirem seus produtos. Come-se mal e excessivamente. E nem é necessário sair de casa, um simples telefonema é suficiente para recebermos milhares de calorias. É fácil! Esta sociedade gerou o paradoxo da obesidade concomitante com uma realidade de fome. Enquanto muitos se saciam ao ponto de cometer o pecado da gula, outros nada tem para comer. Os shopping centers estão sempre lotados de ávidos consumidores de alimentos pouco ou nada saudáveis. E os pais habituam as crianças. A obesidade tornou-se precoce e um problema de saúde pública. Mas, enquanto não surgem as doenças, tudo parece muito divertido.

O que fazer? Argumentos racionais mostram-se incapazes de mudanças no sentido da reeducação alimentar e o argumentador será tachado de chato, estraga prazer, etc. A medicina, salvo exceções, também pouco contribui. De fato, em lugar de uma cultura de prevenção, temos um processo de mercantilização da doença que envolve a tecnologia de saúde, a indústria farmacêutica e a medicina.[2] A doença gera dividendos, receita, lucros, etc. Um paciente a menos, menos um consumidor dos serviços e remédios. Pra que investir em prevenção? Contra tal sintoma, receita-se o medicamento X cujos efeitos colaterais passam a exigir que se tome o remédio Y, e assim sucessivamente. Para tentar sobreviver e manter uma vida relativamente saudável, as pessoas submetem-se a exames invasivos – e reclamam se os médicos não encaminham –, intoxicam-se e criam dependência. Mas insistem em manter os hábitos nada saudáveis. Será mesmo que somos seres racionais?

[1] SÊNECA. Aprendendo a viver. São Paulo: Martins Fontes, 2008, p.161-162.

[2] Sugiro aos leitores que assistam aos vídeos inseridos.

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