Qual é, afinal, o sentido da vida?!

In memoriam
Lucas de Lima Cardoso

 

Seguem o cortejo fúnebre. Crianças, jovens, adultos e idosos, homens e mulheres acompanham respeitosamente. São tantos! Quem será o próximo a ser seguido? Todos faremos o mesmo trajeto. Quem nos acompanhará?

Perguntar-se sobre o sentido da vida parece algo sem fundamento. Mas a resposta talvez seja simples: viver. Sim, em vez de se indagar filosoficamente sobre o sentido da vida, é melhor simplesmente viver. Ocupar-se da vida, em vez de abstrações metafísicas sobre o seu significado. Assim, quando indagado sobre os planos para o futuro próximo, respondo: “Permanecer vivo!” É uma resposta com certa dose de ironia, pois o tempo do viver, a duração da vida, é uma incógnita, um mistério indecifrável. Não sabemos quanto tempo nos resta, se veremos o próximo raiar do sol, o anoitecer. A rigor, não sabemos se estaremos vivos no próximo segundo.

Não obstante, vivemos como se fossemos eternos. A vida parece repetir-se a cada dia. Os dias passam e nos consumimos nas risíveis questões do cotidiano que parecem inadiáveis e adquirem ares de importância sem igual. O tempo não para, ele nos consome. Mas agimos como se tivéssemos a garantia do segundo, minuto, hora, dias seguintes. Planejamos o futuro, enquanto nos perdemos no presente. Damos excessiva importância ao que não é essencial. Nos iludimos com as aparências e nos tornamos prisioneiros de nossas ilusões.

É compreensível! Talvez não suportemos admitir a verdade absoluta da finitude da vida. A morte está sempre presente, mas parece-nos sempre distante. Certa feita, num ritual de crisma, o Bispo solicitou que levantassem as mãos aqueles que desejavam “ir para o céu”. Foi unanimidade, dezenas de mãos levantadas confirmavam o desejo de ser aceito no paraíso celestial. Então, o Bispo pediu: “Levante a mão quem quer ir para o céu agora”. Um ou dois levantarão as mãos, talvez porque não entenderem bem as palavras da autoridade episcopal. Ninguém quer morrer! Claro, há exceções: os suicidas em geral – mas este é um caso que merece uma reflexão mais profunda.

Contudo, a morte está sempre próxima, mais do que ousamos imaginar. As palavras do “Canto para a minha morte”, do Raul Seixas, expressam bem a sua proximidade:

“Cada vez que eu me despeço de uma pessoa
Pode ser que essa pessoa esteja me vendo pela última vez

A morte, surda, caminha ao meu lado
E eu não sei em que esquina ela vai me beijar

Em nossa sociedade, a morte torna-se um espetáculo midiático. Determinados eventos pautam o noticiário por dias. Ela é banalizada pela mídia: assistimos a notícia de que milhares de imigrantes morrem na tentativa de atravessar o mar e ter a possibilidade de uma nova vida. Nos sensibilizamos, ficamos estarrecidos. Mas a próxima notícia já nos anestesia. De fato, a morte só nos fala diretamente quando alcança os próximos a nós. Então, ela nos toca o coração, dilacera o nosso ser com uma dor insuportável. A tristeza toma conta do viver e nos perguntamos “Por que?!” sem que tenhamos respostas. E embora racionalmente compreendamos o significado da morte, nestes momentos ela se apresenta como inexplicável.

Não há ciência, argumento racional que nos faça aceitar a morte. Ainda mais quando ela ceifa a vida de um jovem. Vida promissora e projetos que se encerram abruptamente. Nestes momentos, a vida fica sem sentido! A morte nos faz refletir! Talvez ela nos ensine a ter maior senso de realidade existencial, a nos dedicarmos mais ao que realmente faz a vida ter sentido. Seja como for, não saímos ilesos diante do impacto da morte daqueles que aprendemos a gostar, a amar. De certa forma, morremos um pouco. No entanto, o ciclo da vida continua! Viver e morrer é o seu sentido!

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