Quanto tempo dura o amor?

sonataO contexto é a Rússia do século XIX, numa época em que o divórcio era tema polêmico e ainda havia quem defendesse o “casamento à moda antiga”. No trem, alguns passageiros iniciam uma conversa sobre o amor e o matrimônio. O senhor idoso defende a tradição e culpa o avanço da instrução: “As pessoas ficaram muito instruídas” (p. 12).* Indignada com a argumentação do velho comerciante, a senhora interfere:

“ – Mas que mal faz a instrução? – disse a senhora, com um sorriso quase imperceptível. – Seria melhor o casamento à antiga, quando os noivos não se conheciam sequer de vista? (…) Não sabiam se amavam, se podiam amar, as mulheres casavam-se com o primeiro que aparecia e depois sofriam a vida inteira; na sua opinião, era melhor?” (Ib.)

O idoso não se dá por vencido:

“A instrução dá em besteira” – disse decidido o velho (p.13).

A senhora volta à carga: a união conjugal só deve ocorrer se houver amor; e quando não há mais amor, deve haver o direito de separação. Pois, “como viver como uma pessoa, quando não se tem amor?” (Ib.)

A conversa tornou-se uma discussão acalorada. O velho se manteve irredutível. Após ter mergulhado no silêncio, levanta-se e sai do vagão. Mal ele saiu, a senhora o comparou ao “Domostrói[1] em pessoa”. E continuou a sua pregação pelo amor:

“ – Realmente, o principal é aquilo que gente dessa espécie não compreende – disse a senhora – isto é, que o casamento sem amor não é casamento, que somente o amor santifica-o, e que o matrimônio verdadeiro é só aquele santificado pelo amor” (p.16).

Um senhor grisalho, que até então permanecera em silêncio, não se contém e, visivelmente alterado, questiona:

“Mas que amor… amor… amor… é este, que santifica o matrimônio? – disse ele, a voz embargada” (p.16).

“O amor verdadeiro…”, responde a senhora! (p.17).

“ – Sim, mas o que se deve entender por amor verdadeiro – disse, sorrindo, constrangido e intimidado, o cavalheiro dos olhos brilhantes” (Ib.).

A definição de amor parece algo tão simples que a senhora se embaraça com a insistência do cavalheiro:

“ – Como? É muito simples – disse a senhora, mas ficou pensativa. – O amor constitui uma predileção exclusiva por um homem ou uma mulher, dentre todos os demais” (Ib.).

A resposta não convence o interlocutor:

“ – Uma preferência por quanto tempo? Um mês? Dois dias, uma hora? – disse o senhor grisalho e riu” (Ib.).

A senhora conclui que ele não entendeu, que falava de outra coisa. Outro personagem, um advogado, intervém em seu socorro:

“ – Ela quer dizer – intrometeu-se o advogado, apontando para senhora – que o casamento deve originar-se, em primeiro lugar, da afeição, do amor, se o senhor faz questão, e que, se ele existe na realidade, somente nesse caso o matrimônio constitui algo, por assim dizer. Sagrado. Em segundo lugar, que todo matrimônio em cuja base não estão afeições naturais – amor, se assim quiser – não contém em si nenhuma obrigação moral. Compreendi certo? – dirigiu-se ele à senhora” (Ib.).

O advogado continuou a falar, mas foi interrompido pelo senhor grisalho, que insistiu em sua indagação – “é uma preferência por quanto tempo?” (p. 18):

“ – Por quanto tempo? Muito, às vezes a vida toda – disse a senhora, dando de ombros.

– Mas isto só acontece nos romances, nunca na vida real. Na vida, essa preferência de alguém por outrem dura anos, o que é muito raro, mais comumente meses, ou então semanas, dias, horas – disse ele, provavelmente sabendo que deixava a todos espantados com a sua opinião, mas satisfeito com isso” (Ib.).

A reação foi de desaprovação geral. A discussão esquentou ainda mais. O senhor interrompe seus interlocutores:

“ – Sim, eu sei – gritou mais alto que nós o cavalheiro grisalho –, os senhores falam daquilo que se considera como existente e eu, daquilo que existe de fato. Todo homem experimenta o que os senhores chamam de amor por toda mulher bonita.

– Ah, o que o senhor diz é terrível; mas bem que existe entre as pessoas o sentimento chamado amor, e que é dado não por meses e anos, mas por toda a vida?

– Não, não existe. Se admitirmos que um homem preferirá determinada mulher por toda a vida, esta mulher, segundo todas as probabilidades, preferirá um outro, e assim sempre foi e é no mundo – disse ele, retirou do bolso a cigarreira, e pôs-se a fumar.

– Mas pode existir também reciprocidade – disse o advogado.

– Não, não pode existir – retrucou ele –, assim como, numa carga de ervilhas, é impossível deixar lado a lado dois grãos determinados. Além disso, não se trata apenas do impossível, há também certamente a sociedade. Amar a vida inteira um homem ou uma mulher é o mesmo que dizer que uma vela vai arder a vida toda – disse ele, aspirando sequioso a fumaça do cigarro” (Ib.).

Os demais permaneciam incomodados com os argumentos do senhor. A senhora continuava sem entendê-lo:

“– Mas o senhor está sempre falando do amor carnal. Não admite acaso um amor fundado na comunhão das ideias, na afinidade espiritual? – disse a senhora.

– Afinidade espiritual! Comunhão de ideias! – repetiu ele, emitindo o seu som. – Mas, neste caso, não há motivo para se dormir junto (perdoe-me a grosseria)” (p. 19).

O advogado intervém novamente e argumento com a generalidade dos fatos: os matrimônios existem há séculos, é adotado pela maioria das pessoas e muitos vivem juntos durante longo período da vida. Os fatos parecem ser a prova inconteste da possibilidade do amor de longa duração – em muitos casos, reafirmando-se as palavras do sacerdote: “Até que a morte os separem!”. O senhor grisalho ri:

“ – Ora, os senhores me dizem que o matrimônio baseia-se no amor, ora, quando eu expresso uma dúvida quanto à existência de amor que não seja o sensual, provam-me a existência do amor pelo fato de existiram matrimônios. Mas, em nossos dias, o matrimônio não passa de um embuste!

– Não, perdão – disse o advogado –, eu digo apenas que os matrimônios existiram e existem ainda.

– Existem. Mas, vejamos somente, por que eles existem. Eles existiram e existem entre as pessoas que veem no matrimônio algo misterioso, um enigma que estabelece uma obrigação perante Deus. Eles existem entre gente assim, mas não existem em nosso meio. Em nosso meio, as pessoas se casam não vendo no matrimônio nada além de um acasalamento, e disso resulta um embuste ou uma violência. Quando há embuste, isto se tolera mais facilmente. O marido e a mulher apenas enganam as pessoas, fingindo-se em estado de monogamia, mas vivem na realidade em poligamia e poliandria. Isto é ruim, mas ainda funciona; mas quando, como ocorre com maior frequência, o marido e a mulher assumiram uma obrigação exterior de viver juntos a vida inteira e, já no segundo mês, odeiam-se, querem separar-se e, apesar de tudo vivem em comum, resulta disso o inferno terrível, em consequência do qual aparecem as bebedeiras, assassínios, o envenenamento de si mesmo ou do cônjuge – disse ele, falando cada vez mais depressa, não deixando ninguém dar um aparte e exaltando-se cada vez mais. Estavam todos calados. Era constrangedor” (p. 19-20).

***

Este diálogo permanece atual. Em tempos modernos, o matrimônio exige liberdade de escolha de ambos os sexos e pressupõe amor mútuo – ainda que em muitas regiões do mundo as mulheres continuem a ser vítimas de uma cultura machista e autoritária de pais que se consideram donos dos seus destinos. E quanto ao amor, ao “amor verdadeiro”? Quanto tempo dura? Neste aspecto, não estamos muito distantes dos personagens da obra escrita por Tolstói. Há quem acredite que o amor permanece até que a morte separe os cônjuges. Mas será esta convivência por anos, décadas, muitas vezes sustentada por vínculos religiosos, “amor verdadeiro”? Ou será uma forma de amizade conjugal, laços de gratidão, hábito? Será insegurança, acomodação, dependência econômica? Pode o amor permanecer inalterado com o passar dos anos? Amor, sexo e paixão são idênticos? E se o amor se esgota antes que a morte física os separem? Talvez ele se transforme num sentimento sereno, liberto da irracionalidade passional; talvez a separação seja a solução. Seja como for, as perguntas permanecem instigantes. Afinal, o que é o amor? Quanto tempo dura o amor?

* Todas as citações são de TOLSTÓI, Lev. A Sonata a Kreutzer; tradução, posfácio e notas de Boris Schnaiderman. São Paulo: Ed. 34, 2007.

[1] “Código russo de costumes, do século XVI, característico pela extrema severidade. O termo passou a simbolizar tudo o que pode haver de retrógado na vida cotidiana” (Nota do tradutor, p. 16).

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