O direito de divergir!

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O amigo Walterego criticou-me de forma contundente: “Como, diante da crise política e econômica que assola o país, se ocupar de temas como o amor a partir da leitura de livros do século XIX? Não que o amor não seja importante” – reconhece. “Mas, espera-se de um cientista político que analise e se pronuncie sobre as questões políticas do seu tempo, especialmente quando a conjuntura política assim o exige”, censurou o amigo Walterego.

Fiquei a pensar nas palavras do amigo. De início, pareceu-me injusto, pois cada um tem o seu modo de agir e o fato de não escrever sobre a conjuntura política não significa ficar alheio. Em tempos de internet, as possibilidades de intervenção são múltiplas. Por outro lado, o engajamento nas redes sociais é intenso e não faltam vídeos, textos analíticos, manifestos, posicionamentos políticos, imagens, conclamações, abaixo-assinados, petições, etc. O clima político-ideológico atingiu temperatura elevada, colocando em risco até mesmo amizades virtuais e reais. O maniqueísmo tornou-se predominante e, concomitantemente à exigência de que o indivíduo assuma um dos lados, ocorre a mútua demonização do outro. Afinal, o “bem” é sempre o lado de quem se acha correto; consequentemente, o outro só pode estar errado e, portanto, do lado do “mal”.

Por que entrar nessa “briga de torcida”? Isto não significa indiferença política ou o tão popular “ficar em cima do muro”! Nada disso! Quem me conhece sabe: sou palmeirense com muito orgulho e, enquanto ser-no-mundo, como diria Paulo Freire, sempre me posicionei ideologicamente no campo da esquerda. Mas a esquerda é muito mais abrangente do que o lulismo e o petismo. O que recuso é a simplificação da realidade social e política, sua redução à dicotomia maniqueísta do “”bem” versus o “mal”.

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A realidade é mais complexa. No mundo do futebol não há só dois times; a política não se reduz ao PT versus PSDB. Fui petista até 1991! O PT foi uma das minhas “universidades”, como diria o saudoso Maurício Tragtenberg. Aprendi muito, conheci muitas pessoas e fiz amizades que mantenho até o presente. Muitas delas continuam petistas. São livres para escolher e cabe-me apenas respeitar a decisão. Tenho amigos na esquerda crítica ao PT – em muitos casos, também oriundos do petismo. Na vida acadêmica conheci outras pessoas, nem petistas nem comunistas. Também tento compreender e respeitar. Não pauto as minhas amizades por cores ideológicas.

O fato de alguém pensar diferente não o torna necessariamente o meu inimigo. Para além das manifestações de ódio e violência, do preconceito social e do machismo renitente, é preciso ter claro que nem todos agem e pensam preconceituosamente e sejam misóginos. A democracia pressupõe o direito de pensar diferente. Com efeito, na política a linguagem nunca é inocente, ela está sempre em disputa. Os rótulos e slogans são próprios das simplificações ideológicas. Como o medo, a linguagem é um ingrediente inerente à luta política. Seu uso tende a ser generalizado, indiscriminado e perigoso!

É preciso preservar o direito de divergir. Porém, isto não significa aceitar ser acometido pela cegueira política, própria dos fanáticos que alimentam o ódio. Há também os que se recusam a ver, embora enxerguem com os olhos. Os que inadvertidamente atropelam a democracia, ainda que paradoxalmente em nome da democracia, semeiam os frutos amargos do autoritarismo. Como escreve Saramago: “É uma grande verdade a que diz que o pior cego foi aquele que não quis ver”. *

Não sei se respondi às indagações do amigo Walterego. Espero, sinceramente, que sim. Contudo, se necessário, retomarei a reflexão em outra oportunidade!

* SARAMAGO, José. Ensaio sobre a cegueira. São Paulo: Companhia das Letras, 1995, p. 283.

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