[NOTAS DE LEITURA] A Renovação Carismática Católica: origens

41434_plA Renovação Carismática Católica (RCC) tem suas origens no movimento de um grupo de docentes católicos, vinculados à Universidade Duquesne, em Pittsburgh (EUA), que, em 1967, reuniram-se em retiro espiritual. Os cerca de 30 docentes reunidos na ocasião estavam insatisfeitos com o estilo de vida, as experiências acadêmicas e, sobretudo, com a vivência religiosa. Em profunda oração e discussão, eles buscavam resposta aos seus dilemas e uma renovação espiritual. Eles já haviam tido contato com diferentes grupos do avivamento protestante, um movimento que se alastrou nos Estados Unidos na década de 1950 e influenciou a juventude das igrejas protestantes. Este grupo de professores universitários,

“desejavam experimentar a transformação que o Espírito Santo podia operar nas pessoas. Sentiam que o aprofundamento da vida espiritual não podia resultar simplesmente da ação humana, o que sempre deixaria cada um sentir-se como órfão invadido pelo vazio e pelo desanimo. Acreditavam que era o Espírito Santo que renovava a face da Igreja e do mundo, através de sua ação nas pessoas. Enquanto rezavam na capela, teria ocorrido um verdadeiro Pentecostes renovado. Uns começaram a falar “em línguas”, outros receberam o dom da profecia ou do conhecimento. A experiência teria operado neles uma profunda transformação espiritual, dando-lhes uma nova consciência do amor de Deus, um profundo desejo de louvar a Deus e de ser testemunha de Cristo ressuscitado” (PRANDI, p. 32-33).

Essa experiência foi viria a influir decisivamente os rumos da Igreja Católica. A partir desta reunião, Ralfh Martin e Steve Clark criaram a comunidade Mundo de Deus, em Ann Arbor, cidade universitária localizada no estado de Michigan. Esta comunidade reunia católicos e protestantes e, em seu início, funcionou de maneira informal. Com o passar do tempo ocorreu a expansão e maior estruturação, ampliando-se as atividades para além da localidade e do tempo dedicado às orações. Seus membros passaram a visitar hospitais, prisões, etc. O passo seguinte foi difundir o movimento para outros países, inclusive o Brasil.

Embora tenha surgido exteriormente à instituição eclesiástica, a RCC, desde o início, adotou uma estratégia que se mostraria eficiente e explica, em grande parte, o seu contínuo e rápido crescimento: sua ação consistia em aproximar-se das autoridades eclesiástica e conseguir o seu apoio; dessa forma, logo passou a influenciar decisivamente e controlar paróquias, bem como, bispados:

“Em junho de 1971, a paróquia de Saint Patrick, em Rhode Island, Estados Unidos, foi confiada a leigos carismáticos pelo bispo, consolidando-se assim a fundação da Renovação como movimento organizado católico que deveria atuar no interior das paróquias, portanto, em justaposição com a organização eclesiástica” (Ibidem, p. 33-34).

Seu crescimento foi surpreendente. No ano seguinte, realizou o primeiro congresso internacional. Em 1974, com a participação de mais trinta mil pessoas, vindas de 35 países, a RCC realizaria o seu segundo congresso internacional.

O contexto histórico

Na década de 1960, a Igreja Católica se via diante da necessidade de responder aos anseios de mudanças influenciadas pelos dilemas da modernidade e seus efeitos sociais. O Concilio Vaticano II, realizado em 1968, foi a expressão dos anseios por uma teologia e uma igreja mais voltada aos problemas sociais. De um lado, fermentava-se o catolicismo politicamente à esquerda e, internamente, abria-se a perspectiva de mudanças institucionais no corpo da Igreja. Este processo de reforma da Igreja gerou tanto as Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), fundamentadas na Teologia da Libertação, quanto a Renovação Carismática Católica; ambos reivindicam a legitimidade do Concílio Vaticano II. Se as CEBS, pelo menos no Brasil e em outros países do chamado Terceiro Mundo, influenciou decisivamente a Igreja progressista da década de 1970, foram os carismáticos que passaram a ocupar a cena a partir da eleição de João Paulo II. A perseguição papal aos teólogos e líderes da Igreja Popular e o crescente apoio à RCC por parte da hierarquia católica, com aval papal, contribuíram para o enfraquecimento das CEBs e a preponderância da RCC.

Ao papa parecia descabido e perigoso o envolvimento das CEBs com as questões sociais e ele pressionou para que a Igreja se voltasse para a sua missão de cunho essencialmente religioso. Neste sentido, adotou uma política que objetivava diminuir a influência da Igreja Popular e barrar os seus passos: “Seminários vigiados, teólogos desautorizados, livros censurados, troca de bispos, divisão de grandes e progressistas dioceses e paróquias” (Ibidem, p. 31)

Porém, o enfraquecimento das CEBs e da Teologia da Libertação também está vinculado à mudança do contexto social, isto é, ao processo de desmobilização da sociedade brasileira e/ou institucionalização do movimento social. Observe-se ainda que a Igreja Popular cumpriu um papel importante numa época em que os espaços para o exercício da democracia, da liberdade de expressão e de organização, eram constrangidos, em maior ou menor grau, pelos governos militares. Com a democratização, os partidos, sindicatos e a chamada sociedade civil tiveram os espaços de atuação ampliados – e muitos dos líderes forjados no interior da Igreja Popular tinham agora um largo campo de atuação. De qualquer forma, a mão do vaticano foi fundamental, seja no sentido de fragilizar a Igreja Popular, seja na direção do fortalecimento da RCC:

“Na mão contrária, vinha a RCC com todo apoio do Vaticano. O incentivo político de Roma e o financeiro das associações internacionais facilitavam o caminho. Na mesma época, em um dos seus discursos, o Papa insistia que na América Latina era preciso optar por uma Igreja despolitizada (…). O Papa, de fato, mostrava-se bastante alinhado às tendências carismáticas e bem distante da opção pelos pobres da Teologia da Libertação. Ainda que muitos bispos, padres e teólogos tenham se mostrado opostos à RCC, não há como negar que a Igreja oficial abraçou sim um grande projeto de mudança” (Ibidem, p. 31-32).

 

Referência bibliográfica

PRANDI, Reginaldo. Um Sopro do Espírito: a renovação conservadora do catolicismo carismático. São Paulo: Edusp; Fapesp, 1998.

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