O dia seguinte à votação do processo de impeachment na Câmara dos Deputados

Clipboard02

A vida segue o seu ritmo! Os ônibus continuam lotados e o cotidiano se repete para milhares de pessoas que dirigem-se aos seus respectivos locais de trabalho. Sonolentos, com noites mal dormidas e cansados, mas com a esperança de que a vida melhore ou que, ao menos, os dias de trabalho não se alonguem e que o final de semana chegue o mais breve possível. Ganham mal, trabalham longas jornadas – apesar dos avanços das conquistas sociais, resultado de muitas lutas. Ainda que queiram, não podem subtrair-se ao ritmo que a vida lhes impõe. É a servidão moderna do trabalho assalariado. Parece-lhes que não há outro caminho senão a adaptação, mas em seus íntimos carregam a certeza e a esperança de que a vida poderia ser diferente, melhor.

Outros nem mesmo podem se dar ao luxo de vender sua força de trabalho no mercado formal do emprego assalariado. Mas a sociedade reserva-lhes espaços para contribuir com o processo de produção e reprodução de valor – o que alguns intelectuais bem-intencionados chamam de “cidadania”. Nas ruas da cidade encontro a cidadã, a senhora de cabelos grisalhos que puxa o seu carrinho de lixo seletivo, ladeira abaixo e acima. De outra feita, é o senhor cidadão na mesma labuta. Ambos contribuem para reciclar o lixo produzido pela sociedade, pelos que tem poder de consumo. Lixo social, descartado e reciclado – novamente tornado mercadoria, valor de uso e valor de troca, graças ao trabalho da senhora e do senhor em cujas faces as marcas do tempo fixaram residência e os corpos resistem aos golpes da vida. Numa idade que mereciam melhor sorte, seus corpos são consumidos pela necessidade. Transformados em cidadãos, é o seu ganha pão. Afinal, a sociedade oferece oportunidade para todos, e cada um contribui de acordo com as suas possibilidades. É preciso ganhar a vida para perdê-la!

Não é muito diferente para os que caminham sobre rodas! Automóveis modernos, outros nem tanto, e muitos que mais parecem peças de museu e nos fazem lembrar o passado remoto, congestionam as avenidas e ruas principais. Indivíduos concentrados – outros nem tanto, ocupados com seus celulares – também dirigem-se aos seus locais de trabalho. Como os demais, carregam sonhos e esperanças, mas também frustrações e desespero.  Diferenças salariais ou profissionais proporcionam níveis de consumo diferenciados, maior ou menor conforto, maior ou menor produção de lixo reciclável, mas não os distinguem essencialmente. Com aqueles que vão de ônibus, a pé ou de bicicleta, e os cidadãos que vivem do lixo produzido socialmente, compartilham a mesma humanidade, estão presos à mesma realidade social que lhes impõe um modo de vida que foi naturalizado.

A vida repete-se como uma imperiosa necessidade! Mesmo o que parece inédito, apenas reafirma a permanência do humano: suas fraquezas, limites, vaidades, desejos de querer, desejos de poder e a busca insana pelo mais, por poder mais! Há os que buscam a ascensão social, há os que desejam simplesmente melhorar a vida, oferecer à nova geração o que não puderam usufruir e há os que almejam voar alto, tal qual Ícaros modernos, sob o risco de fenecer no calor das suas paixões. As tentações, a submissão ao domínio do vil metal, a ânsia pela acumulação que resiste ao passar do tempo e habita os sonhos e pesadelos humanos, corrompendo até mesmo as generosas utopias. O “querer mais” parece resumir o caminhar humano sobre a face da terra!

Desejos incontidos, ambições desmedidas. O reino do vale-tudo! O homem lobo do homem! Poderes destituídos, podres poderes elevados à virtude de sanar a podridão. Assim caminha a humanidade. E, no entanto, a vida se repete! Para milhões de seres humanos submetidos cotidianamente ao reino da necessidade, a vida segue o ciclo que parece inexorável. Na segunda-feira, independente dos resultados da grande política, não escapam ao destino compartilhado de labutarem para ganhar o pão de cada dia, o castigo que lhes foi lançado sobre o face, a tortura do trabalho alienante e extenuante.

Muitos agem como espectadores no teatro das sombras em que se desenrolam as tragicomédias da vida, cujos atores principais são os seus pretensos representantes – de fato, não se sentem representados, até enojam-se diante da lama fétida que emerge dos centros dos podres poderes. No entanto, ainda que não percebam ou não saibam, decisões políticas sempre acarretam consequências. O papel de espectador não imuniza dos efeitos, sempre há consequências.

Viver é arriscado! Só não há riscos para os mortos! Iludem-se os que se consideram protegidos em suas torres de marfim e também aqueles que, diante das turbulências da vida, imaginam encontrar abrigo nos cemitérios dos vivos! A vida continua, a luta também!

Comente!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s