Por que se alimentar de animais?

À Maria Vitória, que me ensinou uma nova forma de viver!

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Pichação em Maringá (PR)

Em determinados contextos históricos e sociais o consumo da carne animal é uma necessidade para a sobrevivência humana (no limite, pratica-se até mesmo a antropofagia). Há situações nas quais alimentar-se de carne animal é justificável: “Os esquimós vivem, que vivem num ambiente que os coloca diante das alternativas de matar os animais para comê-los ou morrer de fome, podem ser justificados quando afirmam que o seu interesse em sobreviver sobrepõe-se ao dos animais que matam” (p.72).* Podemos vislumbrar outros exemplos nas regiões economicamente menos desenvolvidas do mundo, onde impera a miséria absoluta, nas quais a necessidade de consumir carne animal se torna imperiosa. Não obstante, como afirma Paul Singer:

“Poucos, dentre nós, poderiam defender nesses termos a sua alimentação. Os cidadãos das sociedades industrializadas podem facilmente conseguir uma alimentação adequada sem que seja preciso recorrer à carne animal. O peso avassalador do testemunho médico indica que a carne animal não é necessária para a boa saúde ou a longevidade. Além disso, a produção animal nas sociedades industrializadas não constitui uma forma eficaz de produção de alimentos, visto que a maior parte dos animais consumidos foi engordada com grãos e outros alimentos que poderíamos ter consumido diretamente” (p. 72-73).

Este raciocínio extrapola o sentimentalismo a favor dos animais. Indica consequências políticas e sociais profundas que alteram a estrutura do sistema econômico, em especial o agronegócio e a agropecuária. Por outro lado, vale destacar que o não incentivo à produção de carne animal induz à maior oferta de grãos direcionado ao consumo humano, e as terras, hoje ocupadas pela criação de animais não-humanos, poderiam ser destinadas à plantação. Como argumenta Singer (p. 73):

“Quando alimentamos esses animais com grãos, somente cerca de dez por cento do valor nutritivo permanecem em forma de carne para o consumo humano. Portanto, com exceção dos animais criados inteiramente em terras impróprias para o cultivo de legumes, frutas ou grãos, não se pode afirmar que sejam consumidos para melhorar a nossa saúde ou para aumentar a nossa provisão de alimentos. A sua carne é um luxo, e só é consumido porque as pessoas apreciam-lhe o sabor.”

Comer carne é um luxo também no sentido de ser um produto inacessível – ou raramente acessível – à boa parte da população dos países economicamente menos desenvolvidos e mesmo nos países do chamado primeiro mundo.

Esta argumentação funda-se numa perspectiva ética sobre o consumo de carne animal nas sociedades industrializadas relacionada a “uma situação na qual um interesse humano relativamente menor deve ser confrontado com as vidas e o bem-estar dos animais envolvidos” (ibidem). Em outras palavras, se é possível viver sem consumir carne, inclusive tendo uma vida mais saudável; se o consumo de carne não é imprescindível para nos manter vivos; então, o nosso interesse é inferior ao interesse do animal não-humano. Mas, este tem interesse? Sim, estamos nos referindo a animais sencientes, isto é, capazes de sentir dor, sofrimento e bem-estar. Portanto, interessados em se manter vivos e não sofrerem.

Outro argumento a favor do não consumo de carne animal diz respeito às condições em que esta é produzida, ou seja, às condições que os animais não humanos são submetidos para atender ao objetivo imperioso de aumentar o lucro numa escala sempre crescente. Assim, tomar a defesa dos animais não humanos significa se opor aos interesses econômicos que estruturam a sociedade moderna. Como escreve Singer (ibidem):

“O arrazoado contra o uso de animais para a nossa alimentação fica mais contundente nos casos em que os animais são submetidos a vidas miseráveis para que a sua carne se torne acessível aos seres humanos ao mais baixo custo possível. As formas modernas de criação intensiva aplicam a ciência e a tecnologia de acordo com o ponto de vista segundo o qual os animais são objetos a serem usados por nós. Para que a carne chegue às mesas das pessoas a um preço acessível, a nossa sociedade tolera métodos de produção de carne que confinam animais sensíveis em condições impróprias e espaços exíguos durante toda a duração de suas vidas. Os animais são tratados como máquinas que transformam forragem em carne, e toda inovação que resulte numa maior “taxa de conversão” será muito provavelmente adotada. Como afirmou uma autoridade no assunto, “a crueldade só é admitida quando cessam os lucros.”

Se adotarmos esta perspectiva, a oposição ao consumo de carne animal torna-se uma atitude política que contraria os interesses dos que negociam a carne animal, reduzida à categoria de mercadoria. Quando nos recusamos a consumir carne animal negamos o apoio aos grandes fazendeiros, ao poder econômico e político representado por estes:

“Nosso hábito é o apoio de que necessitam os “fazendeiros industriais”. A decisão de deixar de dar-lhes esse apoio pode ser difícil, mas é menos difícil do que teria sido, para um sulista branco, opor-se às tradições de sua sociedade e libertar os seus escravos; se não mudarmos os nossos hábitos alimentares, como podemos censurar os proprietários de escravos que se recusavam a mudar o seu modo de vida?” (Ibidem).

Recusar-se a apoiar o negócio da carne animal significa também rejeitar o especismo e a naturalização de um costume amparado no hábito, na ignorância e até mesmo em argumentos religiosos dos que advogam a superioridade humana em relação aos demais animais, os quais supostamente devem ser submetidos aos nossos interesses.

De fato, a maioria dos consumidores de carne animal não tem esta reflexão, nem adota esta perspectiva. O vegetarianismo e o veganismo, via de regra, são desconsiderados, ou mesmo ridiculizados, reduzidos a hábitos excêntricos de alguns indivíduos da classe média intelectualizada. É difícil ir contra o que pensa e como age a maioria. Quem assume uma postura vegetariana – ou vegan – conhece bem esta realidade. Passei a prescindir do consumo de carne animal ao observar as dificuldades de uma adolescente em seguir um uma alimentação vegetariana. Quando ela ficou uns dias em nossa companhia, decidi seguir o seu exemplo.

Restaurante Universitário (UEM), antes da reforma
Restaurante Universitário (UEM), antes da reforma

Não foi fácil! Sempre fui carnívoro, do tipo que não recusa o convite para um churrasco, que consumia carne diariamente e era incapaz de refletir sobre as consequências deste hábito, concebido quase como natural. Um indivíduo, portanto, insensível aos argumentos a favor do não consumo de carne animal, embora extremamente sensível aos animais domésticos e incapaz de matar uma formiga ou mesmo uma barata (o que rende críticas irônica no ambiente doméstico). Alguém não disposto a parar para pensar profundamente sobre a questão, que não via qualquer problema ético ou de outra natureza em consumir carne. Mas capaz de observar o cotidiano de uma adolescente e se sensibilizar e aprender.

Hoje, não comer carne tornou-se um novo hábito. Foram superados os momentos mais difíceis – como por exemplo frequentar churrasco com os amigos e conseguir se abster do consumo. Na verdade, ainda que respeitando o modo de vida dos que não veem qualquer problema de natureza ética – ou de outro tipo – em consumir carne, perturba-me a visão da carne preparada como alimento, a qual me remete ao animal morto, ao cadáver – preparado esteticamente para se tornar atraente ao consumo humano, mas essencialmente um cadáver. Por outro lado, o respeito à quem não adota as minhas ideias, valores e hábitos, impõe uma atitude não militante – embora também respeite os vegetarianos e veganos que transformam suas opções em militância ativa.

Obviamente, consumir carne animal expressa a anuência com a criação e engorda destinados ao matadouro. Quando os lucros estão em risco, observa-se até mesmo laivos de humanitarismo no que diz respeito às condições em que essa carne consumida é produzida e no tocante à forma como são abatidos (determinados grupos humanos exigem, por exemplo, que se siga o ritual e normas determinadas para o abate, como no caso da “carne Kosher”; o abatimento “humanizado” também é exigido quando observa-se que a forma de matar pode causar efeito na qualidade da carne e, portanto, não atender às exigências do mercado). Em suma, não há nada de humanitarismo, mas apenas observância dos interesses lucrativos. Além disso, não se trata apenas do ato de matar o animal:

“Além de tirar as suas vidas, muitas outras coisas são feitas aos animais para que eles cheguem à nossa mesa a baixo preço. A castração, a separação de mães e filhotes, a separação de rebanhos, as marcas com ferro em brasa, o transporte e, finalmente, os momentos do abate – coisas que, provavelmente, envolvem sacrifício e não levam em consideração os interesses dos animais” (p. 74).

Claro, pode-se argumentar legitimamente que os animais podem ser criados em pequena escala e, assim, reduzir ou anular o sofrimento infligido aos mesmos – menos, claro, a morte. Contudo, diante da amplitude do mercado consumidor não parece prático nem lucrativo produzir carne nestas condições. Grandes contingentes humanos aglomerados em áreas urbanas pressupõe a produção em grande escala e nas condições já assinaladas. Seja como for, a questão principal não é esta, ou seja,

“se a carne animal poderia ser produzida sem sofrimento, mas se a carne que estamos pensando em comprar foi produzida sem sofrimento. A menos que possamos estar certos de que foi, o princípio de igual consideração de interesses implica que foi errado sacrificar importantes interesses do animal para a satisfação de interesses menores nosso; por conseguinte, deveríamos boicotar o resultar final desse processo” (p. 74-75).

O argumento exposto tem fundamento ético e pressupõe uma prática ética. Dessa forma, agir eticamente implica nos perguntarmos sobre o real significado do consumo de carne, em especial no que diz respeito aos interesses e à dor e sofrimento infligindo aos animais não humanos. Não é sentimentalismo, mas uma opção por um modo de vida que respeita a vida animal. Por que, enfim, continuar reforçando uma estrutura econômica que objetiva apenas o lucro dos envolvidos na cadeia produtiva ao preço do sacrifício e do sofrimento de milhões de animais não humanos? Por que se alimentar de carne?

* Todas as citações são de: SINGER, Peter. Ética prática; tradução Jefferson Luiz Camargo – 3ª. Ed. – São Paulo: Martins Fontes, 2002.

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