O pensamento conservador

Fonte: https://twitter.com/withebeatIes/status/792510667831939072/photo/1?ref_src=twsrc%5Etfw
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A palavra conservador indica um substantivo e um adjetivo. No primeiro caso, conservador, e a derivação conservadorismo, implicam um conceito, um conteúdo; no segundo, corresponde à qualificação de atitudes práticas e ideias. Do ponto de vista do uso comum, conservadorismo está ligado à pretensão de manter intacta, de conservar, portanto, de rejeitar o novo e o apelo à mudança, visto como riscos à ordem instituída. A Ciência Política segue procedimento semelhante identificando o conservadorismo às ideias e atitudes que visam a manutenção do sistema político, contrapondo-se às forças inovadoras.

O emprego costumeiro do termo conservadorismo tem uma carga emotiva forte, pois abrange aspectos amplos da sociedade e diz respeito a uma postura individual em interação com outros indivíduos e em instituições. Assim, o indivíduo “X” pode ser rotulado de conservador por seus gostos e opiniões que indicam um apego à tradição e resistência ao novo. Esse aspecto emotivo também se faz presente na política, na medida em que se reduz o conservadorismo à sua função e não se aprofunda o seu conteúdo – em outras palavras, trata-se de compreender o conservadorismo não apenas do ponto de vista adjetivado, mas também substantivamente.

A própria linguagem política faz um uso político do uso comum do conservadorismo. Dessa forma, politicamente explora-se a ideia de que todos somos conservadores por natureza – já que, nas relações humanas e sociais, tendemos a rejeitar e/ou resistir ao novo. Apregoa-se, portanto, a ideia de que o conservadorismo é mais do que uma doutrina política: estaria incrustado na essência do ser humano.

A compreensão do conteúdo político do conservadorismo, ou seja, deste enquanto conceito, não é possível sem que o analisemos numa perspectiva histórica que nos remeta à sua origem concreta. O pensamento conservador, em suas origens, expressa a alternativa à modernidade, ao pensamento progressista. Ambos têm a mesma raiz histórica, são fatores inseparáveis do processo de secularização e laicização do pensamento político e social europeu. A rigor, este processo se inicia com a ascensão da burguesia, a emergência do indivíduo e do individualismo (o homem burguês), do sujeito autônomo e capaz de, por sua ação, fazer a história e transformar a sua realidade.

O conservadorismo constitui, portanto, uma resposta às teorias progressistas (modernas) que se distanciam da visão tradicional sobre o homem, substituindo-a pela ideia da história humana enquanto um processo aberto e pleno de possibilidades para o auto domínio do homem sobre a natureza e uma maior compreensão de si mesmo, tendo como núcleo central não mais a religião e a costumes tradicionais, mas o indivíduo que age racionalmente.

Enquanto o pensamento revolucionário (para a época) via o homem como um ser histórico e, assim, capaz de transformar e se adaptar às novas circunstâncias e realidades sociais, concebendo este processo como inerente à capacidade humana de transformar a natureza e a si mesmo, o pensamento conservador partia do pressuposto de que a natureza humana é imutável e, assim, fator limitador das possibilidades de emancipação política e social através da ação. No cerne desta tese conservadora há o pressuposto de que a vida humana está vinculada a desígnios sobre-humanos, uma vontade divina que, em última instância rege os nossos passos. Diante desta a ação humana seria impotente.

O conservadorismo, do ponto de vista político, não é homogêneo – como também não o é o pensamento progressista da modernidade, o qual gerou, por exemplo, o liberalismo, o socialismo, o nacionalismo etc. Embora vinculado às suas bases originais, o conservadorismo passou por mutações determinadas pelo processo histórico. Assim, o pensamento político conservador pode ser classificado em vários tipos: o conservadorismo tradicionalista, o romântico, o paternalista, o de cunho liberal e o identificado com uma nova direita.

A pluralidade dos conservadorismos também se faz presente nas diversas interpretações encontradas no campo da Ciência Política. O conservadorismo pode ser interpretado enquanto uma doutrina negativa da reação. Esta doutrina expressa o pensamento e os interesses da aristocracia agrária, semifeudal, diante dos desafios da Revolução Francesa, portanto, datada historicamente; ela representa uma postura defensiva negativa de uma classe em decadência.

O conservadorismo também pode ser interpretado enquanto restrito ao pragmatismo político. Enquanto tal, não é orientado por princípios ou conteúdo doutrinário: simplesmente se adapta, absorvendo o ethos político, econômico e cultural dominante. O pragmatismo induz à legitimação daquilo que mantém a ordem. Portanto, não é surpresa que o conservadorismo adote ideias historicamente combate – dessa perspectiva, mesmo uma ideologia revolucionária, na medida em que é integrada à ordem burguesa ou consolida uma nova ordem política e social, ela tende a se tornar pragmática e conservadora. Do ponto de vista do pensamento conservador, há uma ênfase no aspecto negativo: em última instância, tratar-se-ia apenas de estratégias de sobrevivência…

Há ainda uma visão situacional ou posicional sobre o pensamento conservador. Esta interpretação encontra-se mais sintonizada com o uso costumeiro dos termos conservador e conservadorismo: estes não são definidos com referência a eventos históricos ou disposição. Como a perspectiva pragmática, este tipo de conservadorismo não possui uma substância definida, não tem um ideal ou uma utopia e define-se por uma postura defensiva consciente em relação a qualquer doutrina ou ordem política institucionalizada. Os conservadores defendem a ordem existente, qualquer que seja a sua natureza política, contra o caos e a reforma. Nesta perspectiva, podemos falar em esquerda conservadora: qualquer ordem institucional pode ser conservadora. Trata-se de garantir a permanência da situação a partir da posição que os agentes políticos ocupam.

O conservadorismo também pode ser interpretado como uma disposição do hábito ou da mente. Seria um conservadorismo naturalizado, fundado na alegação de que conservar é intrínseco à natureza humana. Dessa forma, seríamos naturalmente hostis à mudança, que resulta da desconfiança em relação ao desconhecido (novo) e confiança na experiência, na tradição, em lugar do raciocínio teórico. Neste sentido, o conservadorismo não seria uma ideologia, mas uma disposição natural humana de preferir os hábitos e ferramentas experimentadas e ligadas à tradição. Em política isto significa preferir sistemas e instituições imperfeitas estabelecidas ao inusitado –daí o receio de mudar e a disposição de conservar a ordem (disposição natural).

O conservadorismo também pode ser compreendido como ideologia, isto é, um corpo ideias com conteúdo prescritivo. Esta ideologia, presente em Edmund Burke (1729-1797), contrapõe-se ao iluminismo e às ideias revolucionárias sobre: a possibilidade de aperfeiçoar a vida humana por meio das transformações sociais e políticas; o progresso e desenvolvimento da natureza humana em direção a uma sociedade satisfatória; a igualdade e a liberdade como metas humanas e individuais (e suas implicações econômicas e políticas resultantes); a crença no triunfo da razão humana; o descaso e depreciação da autoridade, do privilégio, da hierarquia e da tradição. A Revolução Francesa é o marco fundamental e linha divisória do pensamento político, seja conservador ou progressista.

 

Referências:

BONAZZI, Tiziano. Conservadorismo. In: BOBBIO, N., MATTEUCCI, N. e PASQUINO, G. Dicionário de Política. Brasília: Editora da UnB, 1992, pp. 242-246 (Vol. 1)

BURKE, Edmund. Reflexões Sobre a Revolução Francesa. Brasília: Editora da UnB, 1982.

VINCENT, ANDREW. Ideologias Políticas Modernas. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1995.

WEFFORT, Francisco. (ORG) Os Clássicos da Política. São Paulo, Ática, 1989, (2º volume).

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