Maurício Tragtenberg: marxismo e anarquismo

www-unijui-edu-br*Em Marx/Bakunin, Tragtenberg faz uma análise comparativa nada ortodoxa da obra destes autores. Ele sublinha a necessidade de separar a produção intelectual de Marx em relação às interpretações dos seus seguidores. Recorda que o próprio Marx recusou a alcunha de “marxista”: “Tudo que sei é que eu não sou marxista”. O termo “marxismo” surge no calor da polêmica com Bakunin.[1] Tragtenberg observa que Marx desempenhou “um papel importante, enquanto autor dos documentos centrais dos quais se constituiu a I Internacional”. Ele afirma que, nas conferências e congressos, Marx atuava “na penumbra”, aparecendo publicamente quando da Carta à Comuna, “ocasião em que seus adversários qualificam-no como “o partido Marx, ampliando o conceito para “dinastia de marxistas” ou “líder de partido”, “autoritário”, enquanto seus adeptos são qualificados de “agentes”. (MT, 1983: 279-280)

Maurício defende Marx da acusação de monolitismo teórico; para ele, o tratamento do “marxismo” enquanto um pensamento monolítico, detentor da verdade absoluta, é obra do stalinismo. “Comparativamente falando, enquanto Marx estrutura uma obra crítica à economia capitalista em O Capital, não se encontra na obra de Bakunin algo parecido, nem no conjunto das obras dos chamados “libertários” que se opõem aos chamados “autoritários”, escreve Tragtenberg. (Id.: 280-281) Ele observa que a linguagem de Bakunin corresponde ao imediato:

“… daí muitos dos seus escritos parecerem uma reivindicação do humanismo abstrato, constituem sistematização da prática dos “nihilistas” russos influenciados pelo “Catecismo Revolucionário” de Netchaiev. Pensador impulsivo, explosivo, uma hora privilegia o conceito “natureza” no melhor estilo de Comte, noutra hora, como hegeliano, atribui ao espírito uma função criadora da história, utiliza expressões como “instinto”, através do vitalismo – sua postura da “vida” contra a “ciência” – biológico transferido ao social. (…) Organicismo, culto ao indivíduo e federalismo são as bases do seu “credo”. (Id.: 281)

Tragtenberg situa as divergências entre Marx e Bakunin e nota que o primeiro se posiciona contra o dinheiro e o Estado em obras como Crítica à Filosofia Hegeliana do Estado, Crítica à Filosofia Hegeliana do Direito e A Questão Judaica. Por outro lado, mostra que Bakunin sucumbiu às circunstâncias políticas, sendo incoerente com a sua rejeição teórica do sufrágio universal, e expõe criticamente o conceito de organização bakuninista, fundada em princípios autoritários, centralista e com a mais rigorosa disciplina.[2] Tragtenberg observa que a estrutura desta organização contrasta com a “valorização da “espontaneidade” do movimento social”. (Id.: 292)

A partir desta análise, ele faz um alerta fundamental:

“O debate entre o autoritarismo e o libertário tende a tornar-se meramente filológico e paroquial, na medida em que está descolado do movimento real do proletariado, onde se dá o processo de união via associação, que procura vencer não simplesmente o “autoritarismo” dominante, mas a divisão social do trabalho, fonte do chamado “autoritarismo”. Discuti-lo como categoria em si mesmo, é uma inutilidade, pois ela é expressão de uma relação social”. (Id.: 294)

Maurício Tragtenberg assegura que Bakunin, “preso ao chauvinismo eslavo”, incide numa “judeofobia incompatível com sua proposta libertária”. (Id.: 281) Ele não hesita em registrar vários trechos da obra bakuninista onde o autor, na ânsia de combater o judeu Marx, resvala para o racismo e o anti-semitismo. Sua crítica a este aspecto da personalidade do revolucionário Bakunin é implacável.

Por outro lado, ressalta que Marx e Bakunin expressam cenários sociais diferenciados: o primeiro tem raízes na Europa industrializada e seu projeto político se fundamenta no antagonismo das classes geradas pela Revolução Industrial, a burguesia e o proletariado; o segundo provém de uma região economicamente atrasada, um país essencialmente agrícola, onde se iniciava a transição feudal para o capitalismo e, portanto, politicamente voltado para os camponeses.

Por fim, enfatiza que a atualidade do debate Marx/Bakunin está em recolocar a questão do “papel de “minorias organizadas” na forma de “ditadura invisível” e suas relações com as massas trabalhadoras ou seu isolamento ante as mesmas”. Ele acentua a importância desta polêmica, “desde que não se limite à oposição “ahistórica” entre autoritarismo e liberdade”. (Id.: 299)

Tragtenberg alerta para a necessidade de romper o círculo vicioso próprio do discípulo acrítico: a adesão fanática a um dos lados, identificando o outro como “o inimigo”. A leitura crítica impõe a identificação dos limites inerentes às escolas de pensamento. Maurício, em “Uma leitura libertária de Marx”[3], proporciona um exemplo do leitor crítico e inverso à miopia do dogmático. Num comentário sobre o anarquismo, afirma:

“O problema é que o anarquismo, enquanto conjunto de textos, não desenvolveu uma crítica sistemática do capitalismo, do Estado, da burocracia e do autoritarismo. Lendo os textos econômicos anarquistas pode-se perceber que a reação a isso é mais emocional do que propriamente estruturada”. (MT, 1983b: 17)

Maurício se propõe a desmistificar as fáceis interpretações e as verdades tidas como inquestionáveis, tanto dos anarquistas em relação a Marx quanto dos marxistas em relação a autores como Bakunin. É o caso, por exemplo, da idéia comumente veiculada de que Marx fundamenta uma concepção autoritária e hierárquica, e que o pensamento bakuninista expressaria uma proposta organizacional horizontal, igualitária e democrática. O equívoco, aqui, reside em tomar o marxismo e o leninismo pela obra de Marx. As conclusões de Tragtenberg são desconcertantes: “No fundo, o que concluo pelo que li em Bakunin, é que sua herança é ambígua. Ela pode tanto ser interpretada no sentido libertário como também tem muitos aspectos autoritários, muitos aspectos negativos, no sentido do vanguardismo de alguns pós-marxistas”. (Id.: 18)

* Extraído de SILVA, Antonio Ozaí da. Maurício Tragtenberg: militância e Pedagogia Libertária. Ijuí-RS: Editora da Unijuí, 2008, p. 216-219.

[1] “Em primeiro lugar, Marx nunca usou a expressão marxismo. Esse foi um termo usado por Bakunin para definir as pessoas que atuavam em torno de Marx. Poderia dizer que o termo marxismo não é monolítico; o marxismo, enquanto conjunto de textos, imbrica em várias leituras”. (MT, 1983: 17) HAUPT (1980) analisa as origens dos termos marxismo e marxista. (In: HOBSBAWM, 1980: 347-75).

[2] O adepto da Fraternidade Internacional, sociedade secreta criada por Bakunin, deveria fazer um juramento de submissão. (Ver MT, 1983: 291-92).

[3] Esse texto resulta de debate promovido pela APROPUC (Associação dos Professores da PUC/SP), e o DCE-Livre da PUC, em 1983, ano do centenário da morte de Karl Marx. Além de Tragtenberg, também participaram do evento Luiz Gonzaga Beluzzo, Octávio Ianni e Leandro Konder. (Ver: MT, 1983b)

Referências

HAUPT, Georges. (1980) Marx e o marxismo. In: HOBSBAWM, Eric J. (org.) (1980) História do marxismo. Rio de Janeiro: Paz e Terra, vol. 1, pp. 347-75.

TRAGTENBERG, Maurício. “Marx/Bakunin”. In: Nova Escrita Ensaio. Ano V, nº 11/12. São Paulo: Editora Ensaio, pp. 279-299.

__________. “Uma leitura libertária de Marx”. In: APROPUC-SP. O centenário da morte de Karl Marx. Cadernos APROPUC, Ano I, nº 1, agosto de 1983, São Paulo, Editora Graphia.

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