Sem Facebook?!

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Tenho amigos que se recusam a aderir às redes sociais, especialmente ao Facebook. Os argumentos são vários e convincentes. Se contabilizarmos o tempo dedicado a compartilhar tudo o que consideramos importante, a ver o que os outros compartilham, a comentar, ler os comentários, postar fotos, ver imagens e vídeos e, claro, curtir, talvez nos surpreendamos! Em geral, não quantificamos as horas, nem nos preocupamos. Mas o tempo passa, não nos espera. Se não nos controlamos, acabamos por ficar mais do que o razoável e o necessário, deixando de lado outras atividades que precisam ser feitas ou que poderiam ser mais instrutivas e prazerosas, como por exemplo ler um clássico da literatura, escrever, etc. As redes sociais podem ser viciantes.

Além do tempo que se esvai, o Facebook e as redes sociais em geral reforçam a passividade, o consumismo de informações em excesso que se revelam efêmeras, sem contar a boataria, as diversas correntes, o risco de envolver-se em discussões estressantes, de suportar os egos inflados e abusos dos que perdem o auto-controle, etc. No mundo virtual, muitos indivíduos se sentem seguros e encorajados a serem agressivos e intolerantes. A virtualidade é uma extensão do real e, assim, potencializa comportamentos negativos – mas é de se pensar se quem se expressa de maneira mal-educada na rede teria a mesma coragem de fazê-lo tête-à-tête. Por outro lado, fragiliza e favorece rupturas das relações humanas reais (motivadas por polêmicas políticas, religiosas, etc.).

A redes sociais oferecem a sensação de que não estamos sós no mundo real. Neste sentido, pode se revelar um espaço privilegiado para os solitários – com a vantagem de ajudar a superar a timidez e as dificuldades de interação humana concreta. Mas isto pode se revelar uma ilusão. Centenas e milhares de amigos virtuais não oferecem a mínima garantia de superação da solidão. Na vida real, os amigos verdadeiros contam-se nos dedos das mãos. No mundo virtual, as amizades pulverizam-se no click de quem deleta sua conta no Facebook.[1] Pode ser que no aniversário você receba centenas de felicitações. Mas ainda que seja bela a atitude de quem dedica parte do seu precioso tempo para parabenizar alguém que nunca viu pessoalmente, e provavelmente jamais verá, o que importa é a lembrança dos amigos reais. De que adianta ser felicitado por centenas de amigos virtuais quando se é esquecido por quem esperamos palavras de carinho, o abraço, a lembrança? A sociabilidade virtual pode potencializar as relações reais, mas é ilusório fiar-se na quantidade de amigos virtuais e em relações fluídas que não resistem a um click.[2]

realxvirtual

São muitos os aspectos negativos que confirmam os argumentos dos que resistem ao Facebook. A experiência de ficar sem Facebook tornou patente a certeza de que os críticos, como o meu amigo Walterego, estão cobertos de razão. Nesta fase, tive mais tempo para ler, para refletir e viver o cotidiano de forma mais intensa. Desliguei-me das futilidades virtuais, das discussões que não levam a lugar nenhum, desintoxiquei-me do excesso de informações que entorpecem a mente e fortalecem a sensação de impotência. Sobretudo, rompi com um círculo vicioso que me mantinha conectado full time e recuperei o controle sobre o meu próprio tempo. Foi uma experiência positiva que reforçou a autodisciplina e mostrou que, afinal de contas, o Facebook e outras redes sociais do tipo não são tão essenciais à vida.

Não obstante, não adotei a postura dos amigos que se recusam a ter Facebook e outras redes sociais. De fato, na mesma medida em que a rede virtual reforça aspectos e comportamentos negativos, também potencializa a comunicação, possibilita descobertas e até mesmo que amizades virtuais se tornem reais; reforça os laços familiares e as amizades concretas. Sobretudo, oferece possibilidades à interação no campo acadêmico e à publicização das atividades intelectuais, além de contribuir com a práxis docente. Portanto, ao menos por enquanto, mantenho o perfil no Facebook e nas demais redes sociais. Mas, não tão presente como antes.

[1] Ver: Como perder milhares de amigos no Facebook!, 20.07.2014.

[2] Ver: Facebook, amizades virtuais e amizades reais!, 09.03.2013.

Um comentário sobre “Sem Facebook?!

  1. Gostei do texto. Fiz uma experiência de interagir menos e gastar pouco tempo nas redes sociais e devo confessar que foi uma coisa maravilhosa. Descobri (embora já tenha mais de 30 anos) e saiba resumidamente algumas coisas sobre a obra de Graciliano Ramos, li esta semana em três dias “Angústia”, uma obra maravilhosa com duzentas e poucas páginas. E já estou no “Memórias do Cárcere”, o que significa ter tempo e saber maneja-lo de modo consciente e proveitoso. Parabéns pelo trabalho.

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