Família, famílias!

“Todas as famílias felizes se parecem, cada família infeliz é infeliz à sua maneira”, afirma Tolstói no início da obra Anna Kariênina. Quanta sabedoria nesta frase sucinta! Se a família é universal e determinada historicamente – isto é, assume formas e características diversas nos diferentes estágios da história da humanidade –, ela também é peculiar na medida em que amálgama subjetividades e as idiossincrasias individuais em contextos singulares. Em português simples: cada família é semelhante a outra e, simultaneamente, diferente. Cada família constitui uma realidade singular. Não obstante, as diferentes famílias possuem características em comum. Neste sentido, é universal.

Cada família é um mistério a ser desvendado. Internamente, porém, as relações tendem a ser explícitas, desveladas – embora possa haver sigilos. Qual família que não tem os seus segredos?! O âmbito do espaço familiar é resguardado em sua privacidade, de forma quase sacralizada. Não é apenas por uma questão de segurança que só permitimos a entrada em nossa casa às pessoas que confiamos e sob determinadas circunstâncias. Vizinhos são estranhos, mesmo que compartilhem a vizinhança durante anos. Raramente, ou nunca, frequentam-se mutuamente. Quem conhece realmente o vizinho que mora ao lado ou em frente à sua porta? Interditamos o sacrossanto espaço familiar até mesmo aos amigos(as), os quais só adentram os nossos lares se devidamente convidados e autorizados.

O núcleo familiar está vinculado à família extensa. Numa fase da vida, somos apenas indivíduos vivendo sob o mesmo teto que os nossos pais. Percebemos que a família é maior pois envolve os familiares por parte do pai e da mãe. Então, começamos a interagir com outras famílias tão logo estabelecemos relações de namoro, noivado e união conjugal. Constituímos famílias e, ao mesmo tempo, passamos a fazer parte de outra família: sogro, sogra, genro, nora, cunhados(as), concunhados(as), tios(as), sobrinhos(as), primos(as). Por mais distante que sejamos destas pessoas, não é indiferente o fato de passarmos a ter vínculos. Pode ocorrer que sejamos aceitos no convívio da outra família e que nos tratem com carinho e atenção. Mas, a mais leve crítica a um dos membros da família faz vir à tona o sentimento de autoproteção. Contraditoriamente, a relação da família ampliada reforça relações de pertencimento, mas também nega. Assim, por mais que simpatizem e nos aceitem, somos agregados, corpos estranhos na unidade biológica natural e social que constituiu a família.

A relação familiar expressa a contradição humana. Relações de simpatia convivem com manifestações de antipatias; o amor pode ceder lugar ao ódio recíproco e as rupturas violentas; indiferença e identificação parecem faces da mesma moeda; paciência e irritabilidade alternam-se e o reconhecimento mútuo pode ser substituído pelo distanciamento e negação dos vínculos. As relações familiares repousam sob texturas frágeis que ameaçam romper e dilacerar-se. A solidez familiar pode se revelar aparente. Porém, persistimos e nos apegamos, às vezes desesperadamente, aos laços familiares. Contudo, há momentos que as rupturas se tornam inevitáveis, sejam por motivos políticos, religiosos ou de natureza privada. Seja como for, a família que constituímos, sempre será ‘a família’. O mesmo não se pode afirmar das relações familiares entre irmãos(as), tios(as), avós avôs, nem dos vínculos que estabelecemos ao nos somarmos a outra família.

Famílias nutrem o amor, mas também podem submergir em ódios e rejeições mútuas; elogiam-se mutuamente, mas também podem revelar uma dedicação especial em apontar os defeitos e falar mal dos parentes. Em seus momentos de felicidade, confraternizam e brindam à simples alegria de estarem juntos. Reforçam os laços emocionais para além dos vínculos biológicos naturais. São famílias felizes à sua maneira! Mas as frustrações e incompreensões mútuas podem revelar o quanto as relações são artificiais e reino da hipocrisia. Ainda assim, as famílias podem insistir nas aparências. Seja como for, embora a convivência familiar não seja fácil, ela é necessária. Ainda que exija que os familiares suportem-se mutuamente. Mesmo considerando os casos em que os laços familiares rompem-se definitivamente, é quase um milagre que muitas famílias consigam superar as vicissitudes e dilemas da vida em comum e, à sua maneira, felizes ou infelizes, permaneçam juntas!

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