Por que não aceitar comentários no blog?!

comentar-blogsO meu amigo Waltergo questionou o fato do blog não mais aceitar comentários dos(as) leitores(as). Expliquei ao amigo, mas não sei se ele aceitou os meus argumentos. Em respeito aos leitores(as), e com a esperança que compreendam, decidi escrever sobre as minhas razões.

Com o perdão da redundância, quem escreve tem a expectativa de que suas palavras sejam lidas; que alcancem e toquem os(as) leitores(as). Melhor ainda se sensibiliza, instiga a reflexão e estimula a interação. O feedback é muito importante; saber a opinião de quem dedicou o tempo precioso da sua vida para ler e comentar é algo que incentiva o autor. Além disto, é uma oportunidade para aprender: outra forma de ver a realidade encoraja o pensar sobre as próprias certezas e propicia o crescimento intelectual e humano.

Este processo dialógico pressupõe a crítica, divergências. Contudo, dialogia não se limita à polêmica. Esta, na verdade, tende a suprimir o diálogo.[1] Muitas vezes, a polêmica extrapola os limites de civilidade, do tratamento respeitoso recíproco. O atropelamento da ética no relacionamento humano elimina a possibilidade do diálogo e da reflexão mútua. A divergência cede lugar à má educação, à crítica desrespeitosa e destituída de qualquer fundamento lógico e racional – quando não debanda para o mero xingamento e a ofensa desmedida.

É certo que a moderação dos comentários evita a exposição de manifestações ofensivas – facilitadas pela pelo uso da tecnologia aparentemente impessoal. Mas isto acarreta tempo e desgaste emocional. No mundo virtual o indivíduo se sente seguro e mais à vontade. Porém, isto não anula o caráter profundamente humano da relação na internet: máquinas são meios de comunicação, quem se comunica são indivíduos concretos e socialmente determinados. (A máquina intermedeia a comunicação. Mas em que medida as pessoas reconhecem esta como uma relação humana? Será que reduzimos o “outro” a um email e o/ou um blog? Será que nos damos conta de que o indivíduo que recebe a mensagem e lê o comentário postado num blog é alguém em carne e osso, um ser humano? Será que temos o cuidado de respeitar o “outro” em sua subjetividade ou o restringimos à mera posição de receptor? Será que nos perguntamos sobre quem é o “outro” e como se dá a relação virtual? Ou terminamos por estabelecer relações mecânicas?).[2]

Afora os abusos, ainda há os comentários despropositados de quem se apega a uma palavra, uma frase deslocada do contexto ou simplesmente o título, numa clara demonstração de não ter se dado ao trabalho de ler na íntegra, mas se considera no direito de aporrinhar. Se parece pouco, ainda há o “fogo amigo”, ou seja, comentários pretensamente críticos de quem se dá ao trabalho de reafirmar posturas sem o cuidado de se ater ao texto, um discurso repetitivo muitas vezes descontextualizado e que deixa dúvidas sobre a leitura do conteúdo.

Por que, então, se expor a estes tipos de comportamentos? Vale a pena se importunar para resguardar o espaço aos leitores(as) interlocutores(as) que não se encaixam na categoria dos(as) que destilam ódios e ressentimentos? Por que não tomar uma atitude drástica?

Sim, há os comentários elogiosos que afagam o ego. Embora agradecido, o elogio não suprime o efeito da ofensa gratuita e dos disparates sob o véu da crítica. Talvez isto não seja um problema para quem gosta de polêmica e não é susceptível ao comportamento incivilizado, sabendo reagir à altura. Não é o caso do autor.

Não vale a pena perder tempo com comentadores inescrupulosos que não medem as palavras e, sob o manto de uma pretensa crítica, ofendem e despejam a irritabilidade e chatice no espaço virtual. Quanto aos demais leitores(as), interlocutores(as) respeitosos(as) que estimulam o diálogo, há outros meios para comunicar suas críticas substanciais e/ou elogios. O autor agradece, solicita a compreensão e sugere que se comuniquem por email, WhatsApp ou pessoalmente.

[1] Como alerta Foucault, a polêmica “define alianças, recruta partidários, produz a coalizão de interesses ou opiniões, representa um partido; faz do outro um inimigo portador de interesses opostos contra o qual é preciso lutar até o momento em que, vencido, ele nada mais terá a fazer senão se submeter ou desaparecer”. (FOUCAULT, M. “Polêmica, política e problematizações (1984)”, in FOUCAULT, Michel. Ética, Sexualidade, Política. Organização e seleção de textos, Manoel Barros da Mota. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2006. (Ditos e escritos; V), p. 226.Ver Sobre o elogio, a crítica e a polêmica, 22.09.2012; e, Vale a pena polemizar?, publicado em 15.10.2011..

[2] Ver Homens e máquinas, 06.08.2007.