Elogio aos que não passaram no vestibular!

Fonte: http://src.odiario.com/imagem/2015/04/13/g_uem.jpg
Fonte: http://src.odiario.com/imagem/2015/04/13/g_uem.jpg

No vestibular de verão da UEM se inscreveram 15.799, sendo oferecidas 1.496 vagas (282 reservadas ao sistema de cotas sociais). São 57 cursos de graduação. A maior concorrência é do curso de Medicina (199,8 candidatos por vaga); em segundo, Arquitetura e Urbanismo (47 candidatos/vaga); em terceiro, Direito (42,3 candidatos/vaga).[1]

Mais uma vez, a divulgação dos resultados do vestibular provoca a explosão de alegria dos aprovados, pais, mães, familiares, professores e, porque não, dos dirigentes das escolas e cursinhos que se sentem corresponsáveis pelo sucesso dos futuros universitários. São partícipes da vitória na dura competição por uma vaga no “Templo de Salomão”, com o direito de explorar a imagem dos vencedores para reforçar a propaganda e garantir novos clientes que disputam o direito de usufruir do ensino superior público e gratuito. Há até os que desfilam à moda dos “trios elétricos”, num carnaval de alegria que expõe corpos e subjetividades como troféus.

Não duvidemos da sinceridade dos que se emocionam com a vitória alcançada, nem do regozijo dos professores, familiares, pais e mães. É um momento em que predomina o orgulho dos que contribuíram e deram o suporte necessário ao desempenho dos vitoriosos. De certa forma, a vitória deles também é nossa! Os jovens merecem parabéns pela conquista, mas reconheçamos com gratidão a contribuição dos que acompanharam as suas vidas. Esta é uma caminhada compartilhada e a conquista do objetivo depende de várias circunstâncias e fatores. A glória é a recompensa pelos anos de esforço, dedicação e autodisciplina. Mas, não só! Em linguagem sociológica, o capital cultural, social e econômico diz muito sobre as possibilidades de chegar ao destino almejado…

Entre os que passaram no vestibular, há quem até imagine merecer algo mais: pais mais afortunados e com egos inflados talvez presenteiem seus pimpolhos. Outros se afundarão em dívidas para manter seus filhos estudando. E muitos dos jovens se consideram no direito de pedir dinheiro nas ruas e avenidas, como se a sociedade também tivesse a obrigação de recompensá-los.

Logo, começará uma nova fase na vida destes jovens. Muitos abandonarão a caminhada já no primeiro ano, ao perceberem que as escolhas não correspondem às expectativas. Outros persistirão, talvez por inércia ou receio de enfrentar a decepção dos pais e mães. Outros enganam a si próprios, assumindo os sonhos e frustrações dos seus genitores como se fossem seus. Há, ainda, os relapsos que adotam a lei do menor esforço e se esforçam para seguirem adiante com o máximo de alegria, com a curtição do que a vida estudantil oferece, como se passar no vestibular fosse uma espécie de salvo conduto que dá o direito a tudo, menos ao trabalho de estudar seriamente e com dedicação. Os que desistem, cujos sonhos serão frustrados e as ilusões perdidas, ao menos demonstram a coragem de recomeçar. A favor deles devemos considerar a pressão social para escolherem uma profissão numa idade prematura.

Todos os que passam no vestibular são os vitoriosos! Mas, e os “derrotados”? O que dizer daqueles cujos sonhos e esperanças são frustrados sem que tenham sequer a chance de tentar realizá-los? Não é preciso ser sociólogo para compreender que quanto mais o curso for elitizado, ou seja, quanto maior a concorrência candidato/vaga, menores as chances dos filhos e filhas dos trabalhadores, dos jovens que não dispõem das condições propícias para se preparar e necessitam trabalhar. Na corrida pelo direito a ingressar em uma universidade pública, nem todos partem da mesma linha. As condições sociais, econômicas e culturais são desiguais. A igualdade republicana que legitima a disputa é um véu que encobre a desigualdade real na sociedade. As exceções confirmam a regra. Muitos jovens trabalhadores desistem até mesmo de tentar. Os que conseguem terminar o ensino médio e, apesar de tudo, tentam ingressar na universidade pelos mecanismos disponíveis, merecem elogios. Ainda que não estejam entre os que desfilam orgulhosamente pelas ruas, seguindo o trio elétrico ou não.

Também há os que são preparados a vida toda para passar no vestibular, mas, por uma série de fatores, não são aprovados. Sejamos condescendentes com estes jovens que, em geral, disputam os cursos mais concorridos e, apesar de todo o esforço, do investimento pessoal, psíquico e financeiro, do apoio dos pais, etc., veem as expectativas frustradas. Infelizmente, não há vaga para todos! Resta o consolo de estar junto com a maioria e a possibilidade de tentar mais uma vez! Em vez de críticas, tentemos compreender. Elogiemos seus esforços e persistência! Afinal, muitos se perdem pelo caminho e desistem de tentar!

Alegria de uns, tristeza da maioria. Vencedores e perdedores terminam por naturalizar a concorrência. Vida que segue! Logo teremos novos vestibulares, festejos e decepções. Mas será que os jovens que foram bem-sucedidos, em meio à euforia ou após ter passado o seu efeito, reservam algum pensamento ou atitude de solidariedade com os que ficaram para trás? O que será que pensam em relação aos que não obtiveram sucesso no vestibular? Estão dispostos a questionar e agir para transformar esta realidade? As mesmas perguntas valem para os seus pais, mães, familiares, professores, etc.

 

Textos conexos

Eleições na UEM – Reflexões sobre o altruísmo! (17.08.2014)

Por que a oposição às cotas raciais nas universidades? (13.11.2010)

O vestibular (12.12.2009)

“O vestibular escolhe os escolhidos” (16.07.2008)

Vestibular na UEM (12.07.2008)

O vestibular e o dilema dos pais (03.05.2008)

[1] A relação completa está disponível em http://www.npd.uem.br/cvu/relatorios/10/concorrencia10b.pdf. As modalidades para ingresso na UEM também incluem o EAD, 802 vagas (149 para cotistas) e o PAS (Processo de Avaliação Seriada) com 741 vagas.