Os significados da Política

Para os(as) acadêmicos(as) do curso de Ciências Sociais (UEM),
Turma 2017

 

A política, na contemporaneidade, é o resultado de um longo processo histórico. Isto significa que a atividade política, enquanto práxis humana, não é estática, mas está sempre em movimento, aberta às transformações, metamorfoseando-se permanentemente.

Na antiguidade clássica, mais precisamente em Atenas, a ação política expressava o “cimento da vida social”: a pólis, o coletivo, não está separado dos indivíduos; o cidadão é o homem livre que participa da administração (governo) da cidade; o espaço da política é o espaço público e a relação é horizontalizada. Não há ruptura entre a esfera do eu e o coletivo: a atividade política se reflete e se harmoniza com a vida pessoal, e o indivíduo livre se realiza no coletivo. A política cumpre uma função pedagógica: transformar indivíduos em cidadãos, e, neste sentido, ela é ética. Na Grécia antiga, a política abrange governantes e governados, diz respeito à pólis, à comunidade dos homens livres, os quais possuem o status de cidadãos. Mas as mulheres e os escravos são excluídos da cidadania.

Na Roma imperial, a pólis é substituída pelo Estado. A ação política se restringe à disputa pelo poder e controle do Estado, uma instituição a serviço dos interesses privados. A política romana metamorfoseia o significado original da repúblicares publica, “coisa pública” – para a instituição em que se realiza “o estado das coisas públicas”. Ou seja, a política institucionaliza-se na esfera estatal, autônoma e paralela à atividade social.

Na era medieval, a política expressa a dualidade entre o poder político (civil) e o poder religioso. A partir de Maquiavel, o governo passa a ser o agente da atividade política do Estado. Governo e Estado são concebidos como distintos e a ação política pauta-se pela virtú, isto é, o discernimento, a capacidade de manter o Estado, de liderar e agir politicamente diante da fortuna. Neste sentido, a política desvincula-se das concepções que se fundamentam no direito divino de governar, e está ao alcance de que tenha virtú.

Sob Marx, na modernidade, a política desloca-se do âmbito do Estado para as classes sociais. A atividade política deixa de se restringir ao espaço institucional (Estado) e passa a ser entendida como uma prática social referente às classes sociais. As contradições e relações entre as classes sociais, a partir da realidade material e econômica, constituem a referência para a compreensão da política. As classes sociais passam a ter um significado político e a política institucional passa a ser concebida a partir do chão social, isto é, da realidade contraditória e dialética que configura a luta de classes.

A política está presente no cotidiano humano: relações com o Estado, o poder político, as formas de participação, na ideologia, na formas de violência, nas escolas e universidades, nas organizações de classes (sindicatos e associações), no divã, nas relações afetivas, no futebol, no espaço doméstico e nos partidos, etc. Não obstante, há um sentido para a política que parece unânime: a referência ao poder, à esfera institucional (com a consequente dificuldade de identificar a política em outros espaços da vida cotidiana). Nesta ótica, o agir político é identificado com a atuação institucional: o agente político, o militante e dirigente partidário, governante, o candidato, o deputado, o senador, o prefeito e o vereador, os que ocupam cargos de confiança no aparato do Estado. Dessa forma, identifica-se os espaços da política enquanto espaços da política institucional: comícios, reuniões, partidos, ações do governo, dos legislativos, as eleições e mesmo a crítica de à ordem institucional.

A referência à política restrita à esfera institucional, isto é, relativo ao Estado e suas instituições, oculta o caráter político do eleitor comum e reserva a qualidade de político apenas ao candidato (eleito ou não) e à estrutura partidária que lhe dá sustentação. Isto reduz a qualidade do eleitor, os homens e mulheres comuns, de ser social político, de fazer política, basicamente ao momento eleitoral, ao ato de votar. No sentido institucional, a política torna-se apenas um dever, uma responsabilidade, perde-se o caráter do direito. Assim, a política aparenta ser algo externo e que não diz respeito aos que não disputam eleições, não ocupam cargos políticos e nem participam das estruturas partidárias. A política torna-se sinônimo de política partidária, limitada aos especialistas: os políticos profissionais. Na prática, colocamos nossos destinos em suas mãos e nos alienamos da política: nos tornamos inconscientes de que as coisas e as relações sociais são produzidas por nós mesmos e, ao produzi-las, produzimos a nós mesmos.

Historicamente, portanto, consolidou-se a ênfase na política institucional. Isto não ocorreu por acaso, mas sim enquanto processo histórico que corresponde a determinados interesses econômicos e políticos. Esta noção de política implica numa restrição aos múltiplos significados da política à esfera institucional. Reduzida a esses limites, “a” política, no singular, dissocia o cidadão do ser político e da própria instituição política. Nesse sentido, a política enquadra-se no rol das atividades que aparentemente situam-se acima e fora do controle dos cidadãos comuns, cabendo-lhes determinantemente um papel passivo. A atuação política, seja nos partidos, governos, etc., restringe-se àqueles que se ocupam da política – política institucionalizada. Igualmente, opera-se outra inversão que se reflete no preconceito em relação à política – concebida pejorativamente – e na desmoralização desta – popularmente cunhada de politicagem.

Porém, a política tem uma esfera extra-institucional distinta da esfera institucional. Ou seja, ela não se reduz às ações referentes ao Estado. Para além da política no singular, há uma pluralidade de políticas fora da esfera institucional que procuram traduzir os anseios e interesses sociais, romper os limites impostos pela institucionalidade do Estado, buscando desenvolver uma atuação fora deste espaço. A política assume outros significados que abrangem a sociedade: Política da Igreja, Política Sindical, Política Feminista, Política Empresarial, Política Cultural, Política de relacionamento (“você precisa ser mais político”), etc. Essa concepção de política não institucional recupera o significado amplo da política, com a sua valorização e ênfase na participação direta – o sujeito deixa de ser passivo e passa a atuar, reconquista o status de ser político.

A política, enfim, é polissêmica. Os seus significados dependem das referências teóricas e interesses em disputa. Também é preciso considerar as diversas acepções do senso comum sobre a política. Em suma, a política tem uma vertente institucional e uma vertente social. Temos, então, não uma política, mas várias políticas.

 

Referência

MAAR, Wolfgang Leo. O que é política. São Paulo: Brasiliense, 1982.

3 comentários sobre “Os significados da Política

  1. […] “Na Roma imperial, a pólis é substituída pelo Estado. A ação política se restringe à disputa pelo poder e controle do Estado, uma instituição a serviço dos interesses privados. A política romana metamorfoseia o significado original da república – res publica, “coisa pública” – para a instituição em que se realiza “o estado das coisas públicas”. Ou seja, a política institucionaliza-se na esfera estatal, autônoma e paralela à atividade social. ” (https://antoniozai.wordpress.com/2017/04/15/os-significados-da-politica/) […]

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