Fotografia e Revolução [notas de leitura]

[LÖWY, Michael (Org.); Trad. Yuri Martins Fontes. Revoluções. São Paulo: Boitempo, 2009, 550 p.]


É possível ter uma visão objetiva a partir da fotografia? Esta representa a realidade? O fotógrafo, pintor e teórico húngaro, Lásló Moholy-Nagy, em 1925, acreditava na plena objetividade da fotografia: “O aparelho fotográfico é a mais segura ferramenta que nos permite começar a ter uma visão objetiva. Cada um será obrigado a ver o que é verdadeiro do ponto de vista ótico, o que explica por si, o que é objetivo, antes de poder formular uma posição subjetiva”.[1]

É de um positivismo ingênuo. Como escreve Löwy[2], esta concepção “abstrai a carga subjetiva que resulta da personalidade ou das opções políticas do fotógrafo”. Este não é neutro, a fotografia é influenciada por suas decisões; também o fotografado e o que vê a fotografia não são neutros. “Nenhuma foto é produzida sem intenção. Eu escolho o objeto, decido o instante da tomada, determino a forma estética e completo as fotos com uma legenda (um texto)”, afirma Cordelia Dilg, fotógrafa da Revolução Nicaraguense.[3] Deve-se acrescentar que o texto da legenda pode, inclusive, “mudar o significado da fotografia”, sendo, portanto, “parte da informação”.[4]

A pretensa objetividade da fotografia, portanto, revela-se uma falácia. “As fotos são, ainda, mais polissêmicas que os textos: podem ser interpretadas de diferentes maneiras, bastando um título para modificar seu significado, ou mesmo transformá-la em seu contrário”, ressalta Löwy. Ele cita como exemplo “a foto de uma pilha de cadáveres de vítimas da ditadura de Somoza sendo incinerado que, graças ao Fígaro, se tornou uma imagem de índios miskitos assassinados pelos sandinistas”.[5]

Interesses políticos e econômicos são manipuladores. O poder utiliza imagens enquanto símbolos reforçadores de mitos, mas também para apagar da memória individual e coletiva os registros fotográficos. A Revolução Russa de 1917 nos legou um exemplo do grau de manipulação das imagens – tão bem representados por George Orwell em sua obra, 1984, na qual o passado é reescrito e as imagens são forjadas de acordo com os interesses do poder político. “A imagem de Lenin – assim como a de Dzerjinski, o militante polonês a quem será confiada a organização do terror revolucionário e a quem se deve a criação da temível Tcheca – será sacralizado na mise-en-scène soviética; a de Trotski, ao contrário, será apagada das memórias e dos instantâneos reconstruídos no período stalinista” (121)[6]

As fotos contribuem para a criação de mitos; as fotos alimentam mitos – talvez o maior exemplo seja a imagem de Che Guevara. “Walter Benjamin não estava errado quando insistiu na força messiânica das vítimas, dos vencidos da história, dos antepassados martirizados como fonte de inspiração para as gerações seguintes”, afirma Löwy (18). Assim, certas imagens superam a si mesmas, adquirem um significado para além de si mesmas e do contexto histórico no qual foram produzidas; elas resistem ao passar do tempo e reatualizam o passado. São imagens símbolos.

A fotografia também pode revelar o que não mostra; imagens podem contribuir para “desvendar bastidores”. Como observam Rebecca Houzel e Enzo Traverso: “Por exemplo, ao nos lembrar que, por trás do cenário reluzente da revolução, com suas manifestações, suas ações espontâneas, suas multidões em ação e também, como vimos com sua própria mise-em-scène, existe a realidade bem mais morna e prosaica de uma miséria que se perpetua, sempre igual a si mesma, a despeito da sociedade que se revolta e a denúncia” (118-119).[7]

As revoluções do século XX são fotografadas, filmadas. O campo midiático também está em disputa. Traverso observa que a Revolução Alemã, assim como a russa e a mexicana, foi “largamente mediatizada”. Isto tem consequências que influenciam os processos revolucionários: “As reportagens fotográficas que mostram a história in fieri tornam-se, assim, um aspecto incontornável da própria revolução. As imagens publicadas contribuem para produzir o acontecimento, para forjar a percepção dos fatos, como se permitissem aos protagonistas se olharem num espelho. A esperança, o temor e o terror têm assim um rosto. As imagens propagam o acontecimento e ampliam seu impacto. Não são neutras, pois interpretam os fatos que mostram, orientam e moldam sua recepção” (213).

As fotos contribuem “para criar os arquivos da imagem do tempo presente”, escreve Traverso. Nas condições tecnologias do passado, a presença do fotógrafo é ainda mais premente: “De fato, ele teria dificuldades para passar despercebido. Na maioria dos casos, trabalhava com máquinas bastante incômodas, que tinham de ser apoiadas sobre tripés e colocadas em lugares estratégicos, em acontecimentos decisivos”. No turbilhão revolucionário, o fotógrafo é uma presença que contribui “para conferir certa solenidade às ações que ele captava”. No passado, como hoje, a presença do fotógrafo com a sua objetiva produz reações – poses conscientes. As fotos não são espontâneas, as pessoas preparam-se para serem fotografadas: “Algumas barricadas, erguidas com os rolos de papel das grandes gráficas ocupadas, parecem incongruentes, como se tivessem sido erguidas para satisfazer uma exigência do fotógrafo. Os operários e soldados posam para a objetiva. Depois de ter erguido a barricada, antes do começo dos confrontos, eles simulam o combate, imóveis em posturas de guerreiros artificiais. Essa pantomina da revolução acompanha a revolução real, com seu cortejo de sangue e mortes” (215).

Ainda que manipuláveis e mesmo que não apenas representem aspectos da realidade fotografada (o olhar do fotógrafo, sua presença, a preparação da fotografia, a pose dos fotografados, etc. influenciam), as fotografias são registros importantes das revoluções e da história.

[1] Citado em Susan Sontag, Sur la photografhie, p. 235; em Lowy, p. 15.

[2] “A revolução fotografada”, ibidem, p. 15.

[3] Cordelia Dilg, Nicarágua, Bilder der Revolution (Colônia, Pahl-Rugenstein, 1987), p.2, citado em ibidem.

[4] Observação de Cordelia Dilg, citada em nota de rodapé por Lowy, ibidem.

[5] Ibidem, p.16.

[6] Houzel e Traverso, ibidem, p. 121.

[7] Rebecca Houzel e Enzo Traverso, 1917 – A Revolução Russa, ibidem, 111-123.