Fahrenheit 451

Fahrenheit 451, de Ray Bradbury[1], é uma obra sobre uma sociedade na qual os livros foram proscritos, em que a simples posse de obras literárias ou filosóficas constitui crime. Nesta sociedade fictícia, que resolveu o problema dos incêndios residenciais, o trabalho dos bombeiros consiste em queimar os livros, “para evitar que suas quimeras perturbem o sono dos cidadãos honestos, cujas inquietações são cotidianamente sufocadas por doses maciças de comprimidos narcotizantes e pela onipresença da televisão”.[2]

Trata-se de uma distopia, uma sociedade de intenso controle e violência social. A distopia é uma utopia negativa. Com efeito, mesmo as utopias apresentam aspectos negativos, embora sejam esboços positivos de sociedades imaginadas. Como ressalta o prefaciador, as utopias

“parecem irreais porque são racionais em excesso, porque contrastam com a irracionalidade reinante nas relações sociais. A Cidade do Sol de Campanella, o Eldorado de Thomas More (autor de Utopia ou sobre o ótimo estado da república e sobre a nova Ilha Utopia) e os “falanstérios” de Fourier criam em termos meramente hipotéticos uma idade de ouro do racionalismo. As utopias são construídas por nações idílicas, em que homens solidários e justos mantêm relações de cordialidade em meio a uma natureza dadivosa e domesticada, que serve de celeiro e jardim da humanidade. As utopias são, por assim dizer, o sonho da razão, além de uma vulgarização do humanismo – e por isso as grandes utopias ocidentais estão compreendidas entre o renascimento e o fim do século XIX”.[3]

No século XX, a razão torna-se anti-humanista, produz pesadelos e monstros. Ela deixa de ser “o antípoda da desrazão, da mitologia e da religião, para se tornar, ela mesma, um desdobramento dessa fúria dominadora”.[4] A literatura expressa essa realidade ao descrever sociedades imaginárias nas quais a racionalidade é instrumentalizada, reduzida a um fim em si mesma. Uma racionalidade “abstrata, mecanicista, reduzindo o existente a um utensílio, alienando a consciência na linha de montagem e produzindo massacres com planejamento industrial”. [5]

Na literatura, as distopias geraram uma vasta produção ficcional. Nós (Ievguêni Zamiátin), Admirável mundo novo (Aldous Huxley), A revolução dos bichos e 1984 (George Orwell) são exemplos de relatos literários de sociedades opressivas, nas quais a individualidade é aniquilada em nome da coletividade, do poder político e da razão de Estado. Fahrenheit 451 se insere neste campo literário.

Um aspecto a ressaltar neste tipo de literatura é a emergência do olhar e pensamento críticos surgidos no próprio contexto da opressão. Em Fahrenheit 451, por exemplo, Guy Montag, cujo trabalho consiste em incinerar livros, “começa a se perguntar sobre o fascínio que essas páginas expressas exercem sobre algumas pessoas obstinadas, que desafiam a ordem estabelecida pelo simples prazer de ler”.[6] As obras literárias, por mais futuristas que se apresentem, expressam o seu tempo. Aldous Huxley e George Orwell, por exemplo, escreverem sob o impacto do nazismo e do stalinismo e expressam a crítica ao horror político e social engendrado por estes regimes políticos. Segundo Manuel da Costa Pinto, a singularidade da distopia de Bradbury consiste na percepção do “nascimento de uma forma mais sutil de totalitarismo: a indústria cultural, a sociedade de consumo e seu corolário ético – a moral do senso comum”. [7] Em outras palavras, a ditadura da maioria.

Por fim, como ressalta o prefaciador, o autor de Fahrenheit 451

“não imaginou um país de analfabetos, mas diagnosticou um mundo em que a escrita foi reduzida a um papel meramente instrumental e no qual a literatura e a arte têm função “culinária” (segundo a expressão de Adorno). As personagens sabem ler, mas só querem ler a programação de suas televisões ou o manual técnico que lhes permitirá o acesso a um entretenimento que preenche seu vazio”. [8]

“São muito poucos os que ainda querem ser rebeldes”, afirma Faber. [9] São muitos os que abdicaram de ler e pensar. Não obstante, os sistemas opressivos não conseguem eliminar a resistência de alguns indivíduos dispostos a correr os riscos e pagar o alto preço – o qual pode ser a própria vida – pela recusa ao conformismo e à adaptação. Por outro lado, o controle social e a violência demonstram-se ineficientes para aniquilar completamente a dúvida, e desta nasce o inconformismo e a dissidência. A personagem Clarisse McClellan, por exemplo, instiga Montag a refletir e se indagar “sobre “o porquê” das coisas (uma excrecência do mundo utilitário de Fahrenheit 451, onde só importa “o como” de vivências protocolares)”. [10] Ao se permitir o pensamento sobre os “porquês”, Montag passa a questionar as próprias ações.

 

[1] BRADBURY, Ray. Fahrenheit 451. São Paulo: Globo, 2003.

[2] Do prefácio, escrito por Manuel da Costa Pinto, p. 14.

[3] Ibidem, p. 15.

[4] Ibidem, p. 14-15.

[5] Ibidem, p. 15.

[6] Ibidem, p. 16.

[7] Ibidem.

[8] Ibidem, p. 19,

[9] BRADBURY, 2003, p. 115.

[10] Do prefácio, p. 17.