Maiorias e minorias na política

Manifestação das mulheres contra Bolsonaro e em defesa da democracia. Maringá (PR), 29 de setembro de 2018. Foto do autor.

Em Maringá ele obteve o apoio de 75,84% (157.818) dos 208.089 dos votos válidos; Haddad teve 24,16%, ou seja, 50.271 eleitores/as afirmaram o Ele não! Dos 276.257 eleitores/as, 19,46% não compareceram às urnas, isto é, 68.168. Foram 4.541 votos brancos e 9.865 votos nulos.

Em âmbito nacional, o Ele sim! teve 57.797.073 votos (55,13%) e Haddad, 47.039.291 (44,87%). Ele ganhou nas quatro regiões do país e a sua maior votação foi na região Sul, com 68,2% dos votos válidos contra 31,8% para Haddad. O candidato petista ganhou no Nordeste, com 69,7% dos votos válidos (20,3 milhões); o candidato do PSL teve 30,3%, ou seja, 8.8 milhões de votos.

A maioria dos(as) eleitores (as) deram a vitória ao candidato da direita. Somos a minoria, estamos na oposição. O sentimento de tristeza, insegurança e medo é manifesto, especialmente entre os mais vulneráveis. De fato, a cultura do ódio e de exclusão foi nutrida pelo próprio candidato em seus discursos inflamados e ameaçadores. É de temer também a violência dos(as) apoiadores(as) arrogantes e intolerantes, os quais se sentem mais empoderados. A perda de direitos, o ataque aos setores minoritários da sociedade, o desrespeito à liberdade de expressão, a cultura da intolerância, o autoritarismo, etc., estão presentes no horizonte da atual conjuntura.

Sim, há o que temer! Mas, não nos desesperemos. A vida é luta, e a luta continua! Há e haverá resistências. A maioria não é absoluta. Se somarmos os votos de Fernando Haddad, mais os brancos (2,14%), nulos (7,43%) e abstenções (21,3%), o resultado é 89.506.955 (75,74%) dos(as) eleitores(as) que não votaram no candidato eleito.

Maiorias e minorias formam-se a partir de conjunturas específicas, não são fixas. A democracia representativa repousa na quantidade, números que conformam maiorias e minorias e expressam processos hegemônicos. Sua regra básica é o respeito à pluralidade, à liberdade de expressão e organização dos(as) que divergem, em suma, o reconhecimento do direito da minoria atuar como oposição. O passado do candidato eleito, suas propostas e falas durante a campanha eleitoral são um sinal de alerta e de temeridade.

A vida segue sua rotina. Nos locais de trabalho, escolas e universidades, no ambiente familiar, etc., temos que conviver com os(as) que votaram no Ele sim! Aceitemos o fato de que somos minoria e respeitemos o direito deles(as) pensarem e fazerem opções diferentes das nossas. Esperamos que eles(as) também nos respeitem.

Não alimentemos a cultura de ódio e de intolerância. Os intolerantes são minoritários e devemos nos precaver e nos proteger. Precisamos buscar o diálogo e ter o discernimento de distinguir os intolerantes da massa de votantes cuja opção tem motivações políticas legítimas. Não precisamos concordar com eles/as, mas sim aceitar o direito deles(as) pensar e ter opções políticas diferentes. Podemos tentar dissuadi-los(as), mas isto não significa impor nossas posições. Não tratemos a todos(as) da mesma forma, não sejamos nós os(as) que nutrem a intolerância e o ódio. Olhemos à nossa volta: os(as) que votaram no candidato eleito são nossos próximos, nosso colega de trabalho, nosso parente querido, pessoas que convivemos e temos que continuar convivendo.

A política é também a arte da convivência humana. Tratar a todos(as) como inimigos(as) e/ou com rótulos do tipo fascista apenas tensiona ainda mais o cotidiano familiar, as relações nos locais de trabalho, escolas e universidades. O desafio é compreender, para além das rotulações políticas, as motivações da maioria. Afinal, foram milhões de pessoas que acreditaram e aceitaram os riscos de trilhar o caminho à direita. Chamar a massa de eleitores(as) de fascista e/ou de outros adjetivos desqualificadores em nada contribui para mudarmos a situação.

A luta pela hegemonia pressupõe o convencimento dos que pensam diferente de nós e a reflexão sobre os nossos erros. As maiorias são circunstanciais, a vida metamorfoseia-se. Não percamos a esperança, nem nos deixemos abater. A luta continua, e lutar é viver!