Dúvida

É bem mais fácil viver envolto em certezas. Sempre que a dúvida se insinua, ainda que sorrateiramente, ela fragiliza as verdades e dogmas que sustentam as religiões e ideologias seculares. Como uma fenda que cinde o ser, a dúvida inquieta, desespera e lança na solidão. A dúvida desagrega, atrai o estigma, produz o herege, o dissidente. Os que creem de maneira absoluta não suportam a dúvida. E, no entanto, a dúvida é tão poderosa quanto as certezas. Ela alimenta os profetas das utopias laicas e religiosas, é a seiva da consciência crítica transformadora da realidade. Não obstante, produz novas certezas, novas verdades em torno das quais os revolucionários de ontem apegam-se acirradamente. As certezas são tão poderosas e necessárias que os hereges e dissidentes de outrora tendem a construir estruturas, narrativas e instituições a serem conservadas. Paradoxalmente, a crítica à opinião dominante, à ortodoxia, tende a gerar novas ortodoxias. Novamente, a dúvida se torna imperiosa. Assim, abrem-se novas perspectivas, configuram-se novas ideias que questionam as certezas de então, surgem novas heresias e dissidências. E o que parecia eterno, intransponível, não resiste à dúvida. As estruturas fortificadas, verdadeiras fortalezas, terminam por sucumbir. A dúvida é poderosa!

2 comentários sobre “Dúvida

  1. Nao sei porque, mas isso me lembra a musica do Gilberto Gil, …”o eterno deus mudança”. Gerado pela du’vida, talvez?

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