As origens da Sociologia

A Sociologia tem uma história que caminha paralela à evolução do conhecimento humano e das transformações econômicas, políticas e sociais geradas pela ação humana.

A Sociologia surgiu no Século XIX, resultante de um processo histórico que deu origem à modernidade: o racionalismo, o desenvolvimento das ciências naturais, o iluminismo e a dupla revolução (a Revolução Industrial e a Revolução Francesa).

Mas, suas origens remontam às realidades históricas tão antigas quanto a própria história humana. Encontram-se presentes na capacidade dos seres humanos perguntarem os porquês e o para que da realidade e do próprio sentido da vida. O conhecimento é uma característica humana: o homem e a mulher são os únicos animais capazes de dar significado à sua experiência prática e de transmiti-la a outras gerações; os únicos capazes de simbolizar, atribuir significado às coisas, de classificar, diferenciar; os únicos com a capacidade de projetar o futuro.

Os egípcios, por exemplo, desenvolveram conhecimentos sobre a biologia e a química porque acreditavam na ressurreição e queriam conservar os cadáveres. Com isto, deram uma contribuição importante à biologia e à química. Os gregos destituíram este conhecimento do domínio religioso e colocaram-no sobre o domínio da ciência: a medicina.

Com os gregos institui-se o hábito de desenvolver o conhecimento abstrato, desligado da aplicabilidade imediata e da religião. Foram eles que criaram geometria, a aritmética, a astronomia, a filosofia e a ética. Assim, efetivaram uma ruptura fundamental com as explicações mitológicas sobre o mundo.

Na Idade Média as explicações religiosas sobre o mundo voltaram a ocupar um lugar central. O conhecimento foi aprisionado pela Igreja: o pensamento racional, desenvolvido pelos gregos e romanos, transforma-se num instrumento auxiliar da fé; o saber passou a ser domínio da religião

O primeiro grande rompimento com o predomínio da Igreja Católica em relação ao conhecimento foi dado pelo renascimento. O ser humano retorna aos antigos e redescobre a razão como fundamento de explicação da realidade social. Com o renascimento, o humano volta a ser senhor de si próprio e do seu destino: a busca do conhecimento como atividade em si mesma volta a ser valorizado.

O renascimento, os filósofos sociais dos séculos XVII e XVIII e as transformações geradas pela Revolução Industrial e a Revolução Francesa prepararam o terreno para o nascimento da sociologia. A sociedade feudal dá lugar à sociedade moderna, industrial e capitalista. É neste contexto sócio-histórico que o pensamento sociológico se desenvolve. Seu nascimento é impulsionado pela modernidade.


TEXTO DE APOIO

O mundo na década de 1780

ERIC J. HOBSBAWM*

Com exceção da Grã-Bretanha, que fizera sua revolução no século XVII, e alguns Estados menores, as monarquias absolutas reinavam em todos os Estados e funcionamento no continente europeu; aqueles em que elas não governavam ruíram devido à anarquia e foram tragados por seus vizinhos, como a Polônia. Os monarcas hereditários pela graça de Deus comandavam hierarquias de nobres proprietários apoiados na organização tradicional e a ortodoxia das igrejas e envolvidos por uma crescente desordem das instituições que nada tinham a recomendá-las exceto um longo passado. É verdade que a simples necessidade de coesão e eficiências estatais em uma era de aguçada rivalidade internacional tinha de há muito obrigado os monarcas a por freio às tendências anárquicas de seus nobres e outros interesses estabelecidos e a preencher seu aparelho estatal tanto quanto possível com pessoal civil não aristocrata. Além disso, na última parte do século XVIII, estas necessidades e o evidente sucesso internacional do poderio capitalista britânico levaram a maioria destes monarcas (ou melhor, seus conselheiros) a tentar programas de modernização intelectual administrativa, social e econômica. Naquela época, os príncipes adotavam o slogan do “iluminismo” do mesmo modo como os governos do nosso tempo, por razões análogas, adotam slogans de “planejamento”; e, como em nossos dias, alguns dos que adotavam slogans em teoria pouco faziam na prática, e a maioria dos que fizeram alguma coisa estava menos interessados nas ideias gerais que estavam por trás da sociedade “iluminada” (ou “planejada”) do que na vantagem prática de adotar os métodos mais modernos de multiplicação dos impostos, riqueza e poder.

Reciprocamente, as classes médias e instruída e as empenhadas no progresso quase sempre buscavam o poderoso aparelho central de uma monarquia “iluminada” para levar a cabo suas esperanças. Um príncipe necessitava de uma classe média e de suas ideias para modernizar o seu Estado; uma classe média fraca necessitava de um príncipe para quebrar a resistência ao progresso, causada por arraigados interesses clericais e aristocráticos.

Contudo, de fato, a monarquia absoluta, não obstante quão moderna e inovadora, achava impossível e pouco se interessava em libertar-se da hierarquia dos nobres proprietários, à qual, afinal de contas pertencia, e cujos valores simbolizava e incorporava, e de cujo apoio dependia grandemente. A monarquia absoluta, apesar de teoricamente livre para fazer o que bem entendesse, na prática pertencia ao mundo que o iluminismo tinha batizado de féodalité ou feudalismo, termo mais tarde popularizado pela Revolução Francesa.

* In: HOBSBAWM, Eric J. A Era das Revoluções (1789-1848). Rio de Janeiro, paz e Terra, 1997 (10ª edição), p. 38-39.

6 comentários sobre “As origens da Sociologia

  1. Gostei dos fundamentos da sociologia, aqui escrito pelo Prof.Ozai. Faltou acrescentar sobre a sociologia frente ao nosso tempo “sombrio”, em que o fascismo ressurge com seu populismo sedutor, paradoxalmente até entre judeus; como é possível ser judeu, cujos antepassados morreram no holocausto, e hoje votam em nazistas e fascistas, seus carrascos? Ainda, como a sociologia pensa a metáfora do Titanic afundando: devemos pular para uma incerta sobrevivência ou tocar -ou ouvir- os músicos até fim???

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    • Bom dia!
      Obrigado por ler e comentar.
      Sempre falta algo – até porque há o limite que nos impomos em relação ao foco do tema e também em relação ao espaço.
      Sobre a metáfora, considero muito interessante. Mas talvez haja outra alternativa além da ou/ou. Você pode tentar convencer os músicos a pular junto. Seja como for, a realidade social é mais complexa do que o dualismo ou/ou. Mas, se nos atermos à sua metáfora, a decisão é sua.

      Abraços e ótimo domingo e semana

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  2. Muito bom o texto. Obrigada por compartilhar o conhecimento. Em tempos de ignorância e estupidez, a historia e o conhecimento são as melhores armas.

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