Fotografia como encenação

A foto pressupõe encenação – desde a foto familiar, doméstica, dos amigos e conhecidos próximos (etc.) que fazem pose ao verem-se diante da câmera, até mesmo as fotos de fatos aparentemente flagrados em sua “realidade factual”; há, ainda, que considerar a encenação disfarçada, quando o “assunto” fotografado faz de conta que não percebe a câmera apontada em sua direção. Mesmo objetos, a natureza, etc., compõem uma “encenação”. Não que eles, evidentemente, “atuem”, mas são percebidos pelo olhar do fotógrafo, o qual compõe a cena imaginada e captada pelo seu olhar e enquadramento. Neste sentido, é possível falarmos em fotos espontâneas?

As fotos podem ser manipuladas ou montadas (por motivos políticos, financeiros, publicitários, estéticos, etc.). A foto não é a realidade, mas uma representação de um fragmento desta – representação manipulável desde o enquadramento, isto é, o ato fotográfico. A fotografia pode resultar de um processo consciente de encenação, mas não necessariamente compartilhado com o receptor – em vários sentidos, muitas vezes a foto expressa uma “construção”, falsificação determinada por objetivos políticos, econômicos, interesses individuais, inclusive do fotógrafo, etc. François Soulages, autor de Estética da fotografia, cita exemplos:

“Elas [as fotos] podem ser encenadas: há alguns anos, alguns fotógrafos pediram a jovens da periferia de Lyon que queimassem carros a fim de fazerem fotos para a ilustração de artigos sobre violência na periferia. Podem ser fotos de encenação com ou sem a cumplicidade do fotógrafo. Jean-Marc Lalier é um dos raros fotógrafos que se recusou a divulgar suas fotos da macabra encenação da pseudovala comum de Timichoara em 1990, durante o midiático golpe de Estado romeno. Muitos repórteres haviam percebido a fraude do novo poder, mas preferiram que suas fotos fossem publicadas – imposição do dinheiro e das agências.

Às vezes, a encenação da realidade política e social é de tal forma interiorizada por seus atores, ajudados por seus assessores de imagem e comunicação, que as fotos não são mais do que fotos de aparência de comédia social e não têm, pois, nenhum valor de verdade, de crítica ou de questionamento. A fotografia é, então, apenas uma das engrenagens do sistema geral que tem por objetivo o poder e o ter, e não algum tipo de saber” (SOULAGES, 2010, p. 36). [1]

É ingenuidade acreditar na objetividade da foto, como se esta expressasse a realidade. Mesmo a foto documental é mediada pelo olhar do fotógrafo.[2] Por outro lado, jamais devemos desconsiderar a possibilidade da manipulação pelo poder – especialmente em tempos de tecnologias de produção e montagem fotográfica. O que vemos nem sempre é o que parece. É preciso ir além da imagem!

[1] SOULAGES, François. Estética da fotografia: perda e permanência. São Paulo: Editora Senac, 2010.

[2] Sobre esta questão sugiro a leitura de Fotografia e Revolução [notas de leitura], publicado em 02/04/2018.

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